{"id":1010,"date":"2024-09-02T13:04:14","date_gmt":"2024-09-02T16:04:14","guid":{"rendered":"https:\/\/new.contandohistorias.com.br\/?p=1010"},"modified":"2024-09-02T13:04:18","modified_gmt":"2024-09-02T16:04:18","slug":"deus-de-batom","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/contandohistorias.com.br\/?p=1010","title":{"rendered":"Deus de batom"},"content":{"rendered":"\n<p>Em 1945, um grupo de soldados brit\u00e2nicos libertou do poderio germ\u00e2nico um campo de concentra\u00e7\u00e3o chamado Bergen-Belsen. Um deles, o tenente-coronel Mercin Willet Gonin, condecorado pelo ex\u00e9rcito ingl\u00eas com a Ordem do Servi\u00e7o Distinto, relatou em seu di\u00e1rio o que foi encontrado ali.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Sou incapaz de uma descri\u00e7\u00e3o apropriada do circo de horrores em que meus homens e eu haver\u00edamos de passar o m\u00eas seguinte da nossa vida. O lugar \u00e9 um deserto in\u00f3spito, desprotegido como um galinheiro. H\u00e1 cad\u00e1veres espalhados por todo lado, alguns em pilhas enormes, \u00e0s vezes isolados ou pares no mesmo local em que ca\u00edram. Levei algum tempo para me acostumar a ver homens, mulheres e crian\u00e7as tombarem ao passar por eles. Sabia-se que 500 deles morreriam por dia e que outros 500 ao dia continuariam morrendo durante semanas antes que alguma coisa que estivesse ao nosso alcance fazer causasse algum impacto. De qualquer forma, n\u00e3o era f\u00e1cil ver uma crian\u00e7a morrer sufocada pela difteria quando se sabia que uma traqueostomia e alguns cuidados a teriam salvado.<\/p>\n\n\n\n<p>Viam-se mulheres se afogarem no pr\u00f3prio v\u00f4mito porque estavam fracas demais para se virar de lado, homens comendo vermes agarrados a meio peda\u00e7o de p\u00e3o pelo simples fato de que precisavam comer vermes se quisessem sobreviver e, depois de algum tempo, eram incapazes de distinguir uma coisa da outra.<\/p>\n\n\n\n<p>Pilhas de cad\u00e1veres, nus e obscenos, com uma mulher fraca demais para ficar de p\u00e9 se escorando neles enquanto preparava sobre uma fogueira improvisada a comida que hav\u00edamos dado a ela; homens e mulheres agachados por toda parte a c\u00e9u aberto, aliviando-se.<\/p>\n\n\n\n<p>Em uma fossa de esgoto boiavam os restos de uma crian\u00e7a. Pouco depois que a Cruz Vermelha brit\u00e2nica chegou, embora talvez sem ter nenhuma rela\u00e7\u00e3o esse fato, chegou tamb\u00e9m uma grande quantidade de batom. N\u00e3o era em absoluto o que quer\u00edamos. Clam\u00e1vamos por centenas e milhares de outras coisas. N\u00e3o sei quem pediu batom.<\/p>\n\n\n\n<p>Gostaria muito de descobrir quem fez isso; foi um golpe de g\u00eanio, de habilidade pura e natural. Creio que nada contribuiu mais para aqueles prisioneiros de guerra que o batom. As mulheres se deitaram na cama sem len\u00e7ol e sem camisola, mas com os l\u00e1bios escarlates. Podia-se v\u00ea-las perambulando por todo lado sem nada, a n\u00e3o ser um cobertor em cima dos ombros, mas com os l\u00e1bios bem vermelhos. Vi uma mulher morta em cima da mesa de aut\u00f3psia cujos dedos ainda agarravam um peda\u00e7o de batom.<\/p>\n\n\n\n<p>Enfim, algu\u00e9m fizera algo para torn\u00e1-las humanas de novo. Eram gente, n\u00e3o mais um simples n\u00famero tatuado no bra\u00e7o. Enfim, podiam se interessar pela pr\u00f3pria apar\u00eancia. O batom come\u00e7ou a lhes devolver a humanidade. Porque, \u00e0s vezes, a diferen\u00e7a entre o c\u00e9u e o inferno pode ser um pouco de batom&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Extra\u00eddo do livro DEUS E SEXO, de Rob Bell, Editora Vida, 2010<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Colabora\u00e7\u00e3o de Wilma Santiago<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1945, um grupo de soldados brit\u00e2nicos libertou do poderio germ\u00e2nico um campo de concentra\u00e7\u00e3o chamado Bergen-Belsen. 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