{"id":1114,"date":"2024-09-03T11:02:16","date_gmt":"2024-09-03T14:02:16","guid":{"rendered":"https:\/\/new.contandohistorias.com.br\/?p=1114"},"modified":"2024-09-03T11:02:20","modified_gmt":"2024-09-03T14:02:20","slug":"estimulando-a-curiosidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/contandohistorias.com.br\/?p=1114","title":{"rendered":"Estimulando a Curiosidade"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Stephen Kanitz<\/em><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-rich is-provider-incorporar-manipulador wp-block-embed-incorporar-manipulador\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-1114-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/www.contandohistorias.com.br\/mp3\/2006231.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.contandohistorias.com.br\/mp3\/2006231.mp3\">https:\/\/www.contandohistorias.com.br\/mp3\/2006231.mp3<\/a><\/audio>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p>Durante a estada de Richard Feynman no Brasil um dos poucos ganhadores do Pr\u00eamio Nobel que o Brasil p\u00f4de conhecer de perto, os alunos pediram a ele que desse uma aula sobre nossos m\u00e9todos de ensino na \u00e1rea da f\u00edsica. Feynman pegou cinco ou seis livros de f\u00edsica adotados pelo MEC naquela \u00e9poca e um m\u00eas depois disse que s\u00f3 daria aquela aula no \u00faltimo dia de sua perman\u00eancia no pa\u00eds. No dia fat\u00eddico, dezenas de professores de f\u00edsica se reuniram para ouvir sua palestra. Essa hist\u00f3ria \u00e9 contada por ele no livro Deve Ser Brincadeira, Sr. Feynman.<\/p>\n\n\n\n<p>Come\u00e7ou assim a palestra: &#8220;Triboluminesc\u00eancia, diz no livro de voc\u00eas, \u00e9 a propriedade que certas subst\u00e2ncias possuem de emitir luz sob atrito&#8221;. E mostrou como nossos livros apresentavam a mat\u00e9ria pronta, incentivavam a decoreba, eram essencialmente chatos e confusos. Isso foi escrito h\u00e1 trinta anos, mas, pelas queixas dos alunos, nossos livros de f\u00edsica n\u00e3o melhoraram tanto quanto deveriam.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Feynman, um livro americano abordaria a quest\u00e3o de forma um pouco diferente. &#8220;Pegue um torr\u00e3o de a\u00e7\u00facar e coloque-o no congelador. Acorde \u00e0s 3 da manh\u00e3, v\u00e1 at\u00e9 a cozinha e abra o congelador. Amasse o torr\u00e3o de a\u00e7\u00facar com um alicate e voc\u00ea ver\u00e1 um clar\u00e3o azul. Isso se chama triboluminesc\u00eancia.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o sei se ficou clara a diferen\u00e7a que Feynman tentava demonstrar, nem sei se os livros did\u00e1ticos americanos continuam os mesmos, mas basicamente nossos m\u00e9todos de ensino apresentam muita informa\u00e7\u00e3o e teoria em vez de despertar a curiosidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Criamos alunos t\u00e3o bem informados que no Brasil intelig\u00eancia virou sin\u00f4nimo de erudi\u00e7\u00e3o. Inteligente \u00e9 quem sabe muito, quem repete as teorias e conclus\u00f5es dos outros. Um dia ele poder\u00e1 at\u00e9 ter opini\u00e3o pr\u00f3pria, mas ser\u00e1 dif\u00edcil se ningu\u00e9m estimular sua curiosidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem d\u00favida, toda sociedade precisa de pessoas eruditas, aquelas que sabem os caminhos que j\u00e1 foram percorridos. Erudi\u00e7\u00e3o n\u00e3o mostra necessariamente intelig\u00eancia, mas demonstra que a pessoa tem boa mem\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>No mundo moderno, em constante muta\u00e7\u00e3o, intelig\u00eancia quer dizer outra coisa. Significa enxergar o que os outros (ainda) n\u00e3o v\u00eaem. Isso \u00e9 pr\u00f3prio de pessoas criativas, pesquisadoras, curiosas, exploradoras, que encontram solu\u00e7\u00f5es para os novos problemas que temos de enfrentar.<\/p>\n\n\n\n<p>O m\u00e9todo de ensino eficaz, segundo Feynman, deveria formar indiv\u00edduos curiosos. O objetivo final de uma aula teria de ser formar futuros pesquisadores, e n\u00e3o decoradores da mat\u00e9ria. O que mais o espantou \u00e9 que nosso ensino de f\u00edsica e qu\u00edmica \u00e9 muito superior ao americano, algo que todo brasileiro j\u00e1 sabe. Mesmo assim, notou Feynman, o Brasil produz menos f\u00edsicos e qu\u00edmicos que os Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>A hip\u00f3tese que ele levanta \u00e9 o m\u00e9todo de ensino. Damos muita teoria e informa\u00e7\u00e3o, mas ensinamos pouco como usar as informa\u00e7\u00f5es aprendidas. Por sua vez, os americanos sabem e aprendem muito menos teoria, mas devotam mais tempo aprendendo como usar a informa\u00e7\u00e3o apresentada, sob todos os \u00e2ngulos.<\/p>\n\n\n\n<p>Suspeito que essa seja a raz\u00e3o de nosso p\u00e9ssimo desempenho nos testes internacionais administrados pelo Programa Internacional de Avalia\u00e7\u00e3o Estudantil (Pisa), em que o Brasil aparece nas \u00faltimas coloca\u00e7\u00f5es, inclusive em f\u00edsica. Os testes do Pisa enfatizam mais o uso da informa\u00e7\u00e3o do que a lembran\u00e7a da informa\u00e7\u00e3o em si, algo em que o aluno brasileiro se destaca.<\/p>\n\n\n\n<p>O certo seria, talvez, escrever livros &#8220;did\u00e1ticos&#8221; menos did\u00e1ticos e mais motivadores, que estimulassem a curiosidade e fossem mais relacionados com a vida futura de nossos alunos. Alguns dos livros que avaliei mal estimulam o aluno a virar a p\u00e1gina para o pr\u00f3ximo t\u00f3pico, muito menos poderiam seduzi-lo a se dedicar ao assunto o resto da vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Vamos fazer um simples teste entre 1 000 alunos e descobrir quantos jogaram fora seus livros did\u00e1ticos ap\u00f3s a formatura e quantos os guardaram como o primeiro volume de uma grande biblioteca sobre o assunto. Isso nos diria quais os livros did\u00e1ticos que de fato estimularam nossa curiosidade, o objetivo principal do ensino moderno.<\/p>\n\n\n\n<p>Stephen Kanitz \u00e9 administrador por Harvard (<a href=\"http:\/\/www.kanitz.com.br\/\">www.kanitz.com.br<\/a>)<\/p>\n\n\n\n<p>Revista Veja, Editora Abril, edi\u00e7\u00e3o 1826, ano 36, n\u00ba 43 de 29 de outubro de 2003,<\/p>\n\n\n\n<p>Fonte:&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.kanitz.com.br\/\">www.kanitz.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Stephen Kanitz Durante a estada de Richard Feynman no Brasil um dos poucos ganhadores do Pr\u00eamio Nobel que o Brasil p\u00f4de conhecer de perto, os alunos pediram a ele que desse uma aula sobre nossos m\u00e9todos de ensino na \u00e1rea da f\u00edsica. 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