{"id":1194,"date":"2024-09-03T19:28:55","date_gmt":"2024-09-03T22:28:55","guid":{"rendered":"https:\/\/new.contandohistorias.com.br\/?p=1194"},"modified":"2024-09-03T19:28:58","modified_gmt":"2024-09-03T22:28:58","slug":"historia-de-uma-folha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/contandohistorias.com.br\/?p=1194","title":{"rendered":"Hist\u00f3ria de uma folha"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-rich is-provider-incorporar-manipulador wp-block-embed-incorporar-manipulador\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-1194-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/www.contandohistorias.com.br\/mp3\/2006329.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.contandohistorias.com.br\/mp3\/2006329.mp3\">https:\/\/www.contandohistorias.com.br\/mp3\/2006329.mp3<\/a><\/audio>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><em>L\u00e9o Buscaglia<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Era uma vez uma folha, que crescera muito. A parte intermedi\u00e1ria era larga e forte, as cinco pontas eram firmes e afiladas. Surgira na primavera, como um pequeno broto num galho grande, perto do topo de uma \u00e1rvore alta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Folha estava cercada por centenas de outras folhas, iguais a ela. Ou pelo menos assim parecia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas n\u00e3o demorou muito para que descobrisse que n\u00e3o havia duas folhas iguais, apesar de estarem na mesma \u00e1rvore.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Alfredo era a folha mais pr\u00f3xima. M\u00e1rio era a folha \u00e0 sua direita. Clara era a linda folha por cima. &#8211; Todos haviam crescido juntos. Aprenderam a dan\u00e7ar \u00e0 brisa da primavera, esquentar indolentemente ao sol do ver\u00e3o, a se lavar na chuva fresca. Mas Daniel era seu melhor amigo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Era a folha maior no galho e parecia que estava l\u00e1 antes de qualquer outra. A Folha achava que Daniel era tamb\u00e9m o mais s\u00e1bio. Foi Daniel quem lhe contou que eram parte de uma \u00e1rvore.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi Daniel quem explicou que estavam crescendo num parque p\u00fablico. Foi Daniel quem revelou que a \u00e1rvore tinha ra\u00edzes fortes, escondidas na terra l\u00e1 embaixo. Foi Daniel quem falou dos passarinhos que vinham pousar no galho e cantar pela manh\u00e3. Foi Daniel quem contou sobre o sol, a lua, as estrelas e as esta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A primavera passou. E o ver\u00e3o tamb\u00e9m. Fred adorava ser uma folha. Amava o seu galho, os amigos, o seu lugar bem alto no c\u00e9u, o vento que o sacudia, os raios do sol que o esquentavam, a lua que o cobria de sombras suaves.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O ver\u00e3o fora excepcionalmente ameno. Os dias quentes e compridos eram agrad\u00e1veis, as noites suaves eram serenas e povoadas por sonhos. Muitas pessoas foram ao parque naquele ver\u00e3o. E sentavam sob as \u00e1rvores. Daniel contou \u00e0 Folha que proporcionar sombra era um dos prop\u00f3sitos das \u00e1rvores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 O que \u00e9 um prop\u00f3sito? &#8211; perguntou a Folha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Uma raz\u00e3o para existir &#8211; respondeu Daniel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Tornar as coisas mais agrad\u00e1veis para os outros \u00e9 uma raz\u00e3o para existir. Proporcionar sombra aos velhinhos que procuram escapar do calor de suas casas \u00e9 uma raz\u00e3o para existir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Folha tinha um encanto todo especial pelos velhinhos. Sentavam em sil\u00eancio na relva fresca, mal se mexiam. E quando conversavam eram aos sussurros, sobre os tempos passados. As crian\u00e7as tamb\u00e9m eram divertidas, embora \u00e0s vezes abrissem buracos na casa da \u00e1rvore ou esculpissem seus nomes. Mesmo assim, era divertido observar as crian\u00e7as. Mas o ver\u00e3o da Folha n\u00e3o demorou a passar. E chegou ao fim numa noite de inverno.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Folha nunca sentira tanto frio. Todas as outras folhas estremeceram com o frio. Ficaram todas cobertas por uma camada fina de branco, que num instante se derreteu e deixou-as encharcadas de orvalho, faiscando ao sol. Mais uma vez, foi Daniel quem explicou que haviam experimentado a primeira geada, o sinal que era o inverno que estava chegando.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Por que ficamos com cores diferentes, se estamos na mesma \u00e1rvore? &#8211; perguntou a Folha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Cada um de n\u00f3s \u00e9 diferente. Tivemos experi\u00eancias diferentes. Recebemos o sol de maneira diferente. Projetamos a sombra de maneira diferente. Por que n\u00e3o ter\u00edamos cores diferentes? Foi Daniel, como sempre, quem falou. E Daniel contou ainda que aquela esta\u00e7\u00e3o maravilhosa se chamava inverno. E um dia aconteceu uma coisa estranha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A mesma brisa que, no passado, os fazia dan\u00e7ar come\u00e7ou a empurrar e puxar suas hastes, quase como se estivesse zangada. Isso fez com que algumas folhas fossem arrancadas de seus galhos e levadas pela brisa, reviradas pelo ar, antes de ca\u00edrem suavemente ao solo. Todas as folhas ficaram assustadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 O que est\u00e1 acontecendo? &#8211; perguntaram umas \u00e0s outras, aos sussurros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 \u00c9 isso que acontece no inverno &#8211; explicou Daniel &#8211; \u00c9 o momento em que as folhas mudam de casa. Algumas pessoas chamam isso de morrer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 E todos n\u00f3s vamos morrer?- perguntou Folha<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Vamos sim &#8211; respondeu Daniel &#8211; tudo morre. Grande ou pequeno, fraco ou forte, tudo morre. Primeiro cumprimos a nossa miss\u00e3o. Experimentamos o sol e a lua, o vento e a chuva. Aprendemos a dan\u00e7ar e a rir. E, depois morremos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Eu n\u00e3o vou morrer! &#8211; exclamou Folha, com determina\u00e7\u00e3o &#8211; Voc\u00ea vai, Daniel?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Vou sim&#8230; Quando chegar meu momento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 E quando ser\u00e1 isso?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Ningu\u00e9m sabe com certeza. &#8211; respondeu Daniel<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Folha notou que as outras folhas continuavam a cair. E pensou: &#8220;Deve ser o momento delas&#8221;. Ela viu que algumas folhas reagiam ao vento, outras simplesmente se entregavam e ca\u00edam suavemente N\u00e3o demorou muito para que a \u00e1rvore estivesse quase despida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Tenho medo de morrer. &#8211; disse Folha a Daniel &#8211; N\u00e3o sei o que tem l\u00e1 embaixo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Todos temos medo do que n\u00e3o conhecemos. Isso \u00e9 natural. &#8211; disse Daniel para anim\u00e1-la &#8211; Mas voc\u00ea n\u00e3o teve medo quando a primavera se transformou em ver\u00e3o. E tamb\u00e9m n\u00e3o teve medo quando o ver\u00e3o se transformou em outono. Eram mudan\u00e7as naturais. Por que deveria estar com medo da esta\u00e7\u00e3o do inverno?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 A \u00e1rvore tamb\u00e9m morre? &#8211; perguntou &#8211; Para onde vamos quando morrermos?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Ningu\u00e9m sabe com certeza&#8230; \u00c9 o grande mist\u00e9rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Voltaremos na primavera?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Talvez n\u00e3o, mas a Vida voltar\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Ent\u00e3o qual \u00e9 a raz\u00e3o para tudo isso? &#8211; insistiu a Folha &#8211; Por que viemos pra c\u00e1, se no fim ter\u00edamos de cair e morrer?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Daniel respondeu no seu jeito calmo de sempre:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Pelo sol e pela lua. Pelos tempos felizes que passamos juntos. Pela sombra, pelos velhinhos, pelas crian\u00e7as. Pelas cores do outono, pelas esta\u00e7\u00f5es. N\u00e3o \u00e9 raz\u00e3o suficiente?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao final daquela tarde, na claridade dourada do crep\u00fasculo, Daniel se foi. E caiu a flutuar. Parecia sorrir enquanto ca\u00eda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Adeus por enquanto. disse ele \u00e0 Folha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E depois, a Folha ficou sozinha, a \u00fanica folha que restava no galho. A primeira neve caiu na manh\u00e3 seguinte. Era macia, branca e suave. Mas era muito fria. Quase n\u00e3o houve sol naquele dia&#8230; E foi um dia muito curto. A Folha se descobriu a perder a cor, a ficar cada vez mais fr\u00e1gil. Havia sempre frio e a neve passava sobre ela. E quando amanheceu veio vento que arrancou a Folha de seu galho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o doeu. Ela sentiu que flutuava no ar, muito serena. E, enquanto ca\u00eda, ela viu a \u00e1rvore inteira pela primeira vez. Como era forte e firme! Teve a certeza de que a \u00e1rvore viveria por muito tempo, compreendeu que fora parte de sua vida. E isso deixou-a orgulhosa. A Folha pousou num monte de neve. Estava macio, at\u00e9 mesmo aconchegante. Naquela nova posi\u00e7\u00e3o, a Folha estava mais confort\u00e1vel do que jamais se sentira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ela fechou os olhos e adormeceu. N\u00e3o sabia que a primavera se seguiria ao inverno, que a neve se derreteria e viraria \u00e1gua. N\u00e3o sabia que a folha que fora, seca e aparentemente in\u00fatil, se juntaria com a \u00e1gua e serviria para tornar a \u00e1rvore mais forte. E, principalmente, n\u00e3o sabia que ali, na \u00e1rvore e no solo, j\u00e1 havia planos para novas folhas de primavera.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><em>Colabora\u00e7\u00e3o: Renato Filho<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>L\u00e9o Buscaglia Era uma vez uma folha, que crescera muito. 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