{"id":124,"date":"2024-08-09T11:27:07","date_gmt":"2024-08-09T14:27:07","guid":{"rendered":"https:\/\/new.contandohistorias.com.br\/?p=124"},"modified":"2024-08-09T11:56:07","modified_gmt":"2024-08-09T14:56:07","slug":"autobiografia-em-adverbios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/contandohistorias.com.br\/?p=124","title":{"rendered":"Autobiografia em adv\u00e9rbios"},"content":{"rendered":"\n<p><em>NIVALDO PEREIRA<\/em><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-rich is-provider-incorporar-manipulador wp-block-embed-incorporar-manipulador\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-124-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/www.contandohistorias.com.br\/mp3\/2006253.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.contandohistorias.com.br\/mp3\/2006253.mp3\">https:\/\/www.contandohistorias.com.br\/mp3\/2006253.mp3<\/a><\/audio>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p>J\u00e1 dei um abra\u00e7o em Hermeto Pascoal. J\u00e1 tive um fusca verde-\u00e1gua chamado Bugrelau. J\u00e1 pulei fogueira de S\u00e3o Jo\u00e3o. J\u00e1 fui mordido por dois cachorros. J\u00e1 passei de \u00f4nibus pela cidade maranhense de Imperatriz. J\u00e1 perdi a conta de quantas vezes vi o filme Hair. J\u00e1 acampei em Mangue Seco. J\u00e1 tomei um porre medonho de licor de maracuj\u00e1. J\u00e1 li catecismos do Carlos Z\u00e9firo. J\u00e1 me escondi debaixo da cama. J\u00e1 caminhei na Muralha da China. J\u00e1 contei estrelas e tive medo de criar verrugas nos dedos. J\u00e1 fui m\u00edope e quebrei os \u00f3culos. J\u00e1 fui rezado contra mau-olhado. J\u00e1 li fotonovelas. J\u00e1 tomei choque el\u00e9trico em torneira de chuveiro. J\u00e1 fiquei 15 dias mancando de uma perna depois de uma inje\u00e7\u00e3o de Benzetacil. J\u00e1 acordei tarde no dia da \u00faltima prova de um vestibular. J\u00e1 aprendi a levantar depois de um escorreg\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Nunca aprendi direito a empregar o past perfect do ingl\u00eas. Nunca li Proust. Nunca gostei muito de bossa nova. Nunca tive ambi\u00e7\u00e3o de ser milion\u00e1rio. Nunca quis conhecer os Estados Unidos. Nunca subi no Cristo Redentor. Nunca fui a Manaus. Nunca voei de helic\u00f3ptero. Nunca comi pato no tucupi. Nunca provei cacha\u00e7a com cobra dentro da garrafa. Nunca acreditei em Papai Noel. Nunca imaginei que um dia viesse morar em Caxias do Sul. Nunca soube diferenciar um Monet de um Manet. Nunca deixei de gostar da voz de Gal Costa. Nunca usei jeans rasgado que n\u00e3o fosse pelo tempo de uso. Nunca tive toler\u00e2ncia com gente que pede desculpas por tudo. Nunca esqueci do remorso sentido depois de matar um passarinho com estilingue. Nunca farei tatuagem porque tenho horror a agulhas. Nunca considerei a palavra nunca um fim para sempre.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o sei dan\u00e7ar conforme a m\u00fasica. N\u00e3o sei assoviar vaiando. N\u00e3o sei estalar os dedos para indicar intensidade. N\u00e3o morro de amores por bife \u00e0 milanesa. N\u00e3o tenho paci\u00eancia para ler manuais de instru\u00e7\u00f5es. N\u00e3o gosto de noites de domingo em frente \u00e0 televis\u00e3o. N\u00e3o admito que falem mal do Odair Jos\u00e9. N\u00e3o consigo disfar\u00e7ar o medo quando raramente monto a cavalo. N\u00e3o discuto cren\u00e7as nem religi\u00f5es. N\u00e3o acho gra\u00e7a em tomar cerveja sozinho. N\u00e3o suporto credi\u00e1rios. N\u00e3o recebo panfletos distribu\u00eddos na rua. N\u00e3o tenho disciplina para praticar esportes. N\u00e3o vejo filmes com Mel Gibson. N\u00e3o tenho a menor voca\u00e7\u00e3o para pechinchar. N\u00e3o sei tocar nenhum instrumento. N\u00e3o sinto fome logo que acordo. N\u00e3o tomo leite puro. N\u00e3o tenho medo de avi\u00e3o. N\u00e3o tenho coragem de saltar de p\u00e1ra-quedas. N\u00e3o vejo problema em sempre mudar de opini\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Quase morri depois de um sarampo. Quase morri de novo depois de outro sarampo. Quase acertei o terno da loto na \u00fanica vez em que joguei. Quase acreditei que devia ser publicit\u00e1rio e n\u00e3o jornalista. Quase enlouque\u00e7o quando escuto a transmiss\u00e3o de um jogo de futebol pelo r\u00e1dio. Quase perco a compostura se falam comigo gritando. Quase espumo de raiva quando sou acordado cedo por alguma liga\u00e7\u00e3o de telemarketing. Quase constipei de tanto chorar na cena final de La Strada de Fellini. Quase gaguejei de emo\u00e7\u00e3o ao apertar a m\u00e3o calorosa de Mercedes Sosa. Quase fui ao del\u00edrio quando vi uma montagem londrina de Jesus Cristo Superstar. Quase explodi de encantamento entre vaga-lumes numa certa noite estrelada da Chapada dos Veadeiros. Quase vivo implicando comigo mesmo por n\u00e3o saber ao certo o ponto de conter e o de ultrapassar as intensidades da vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda hei de conhecer o Alasca. Ainda quero ler Proust. Ainda quero me comunicar sem as restri\u00e7\u00f5es do idioma. Ainda espero viver sem ter medo do pr\u00f3ximo. Ainda sonho com a casa de amplo quintal e f\u00e9rtil jardim. Ainda pretendo caminhar bastante por esses ch\u00e3os de Deus. Ainda vou rir e chorar outras vezes com Giulietta Masina em Noites de Cab\u00edria. Ainda quero inventar macaquices com as crian\u00e7as pequenas. Ainda quero aprender a tocar um instrumento. Ainda desejo passar muitas tardes em Itapu\u00e3. Ainda tenho no p\u00e9 esquerdo a cicatriz de um caco de vidro da inf\u00e2ncia. Ainda guardo a lembran\u00e7a do primeiro banho de rio. Ainda d\u00f3i quando lembro daquele passarinho morto. Ainda gosto de contos de fadas e de mitologia. Ainda anseio explorar outros eus de mim. Ainda voarei de paraglider. Ainda perderei todo e qualquer medo de viver feliz.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>NIVALDO PEREIRA J\u00e1 dei um abra\u00e7o em Hermeto Pascoal. J\u00e1 tive um fusca verde-\u00e1gua chamado Bugrelau. J\u00e1 pulei fogueira de S\u00e3o Jo\u00e3o. J\u00e1 fui mordido por dois cachorros. J\u00e1 passei de \u00f4nibus pela cidade maranhense de Imperatriz. J\u00e1 perdi a conta de quantas vezes vi o filme Hair. J\u00e1 acampei em Mangue Seco. 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