{"id":1505,"date":"2024-09-07T20:19:20","date_gmt":"2024-09-07T23:19:20","guid":{"rendered":"https:\/\/new.contandohistorias.com.br\/?p=1505"},"modified":"2024-09-07T20:19:24","modified_gmt":"2024-09-07T23:19:24","slug":"o-passarinho-engaiolado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/contandohistorias.com.br\/?p=1505","title":{"rendered":"O passarinho engaiolado"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-rich is-provider-incorporar-manipulador wp-block-embed-incorporar-manipulador\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-1505-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/www.contandohistorias.com.br\/mp3\/2006194.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.contandohistorias.com.br\/mp3\/2006194.mp3\">https:\/\/www.contandohistorias.com.br\/mp3\/2006194.mp3<\/a><\/audio>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p><em>Rubem Alves<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Dentro de uma linda gaiola vivia um passarinho. De sua vida o m\u00ednimo que se poderia dizer era que era segura e tranq\u00fcila, como seguras e tranq\u00fcilas s\u00e3o as vidas das pessoas bem casadas e dos funcion\u00e1rios p\u00fablicos.<\/p>\n\n\n\n<p>Era mon\u00f3tona, \u00e9 verdade. Mas a monotonia \u00e9 o pre\u00e7o que se paga pela seguran\u00e7a. N\u00e3o h\u00e1 muito o que fazer dentro dos limites de uma gaiola, seja ela feita com arames de ferro ou de deveres. Os sonhos aparecem, mas logo morrem, por n\u00e3o haver espa\u00e7o para baterem suas asas. S\u00f3 fica um grande buraco na alma, que cada um enche como pode. Assim, restava ao passarinho ficar pulando de um poleiro para outro, comer, beber, dormir e cantar. O seu canto era o aluguel que pagava ao seu dono pelo gozo da seguran\u00e7a da gaiola.<\/p>\n\n\n\n<p>Bem se lembrava do dia em que, enganado pelo alpiste, entrou no al\u00e7ap\u00e3o. Al\u00e7ap\u00f5es s\u00e3o assim; t\u00eam sempre uma coisa apetitosa dentro. Do al\u00e7ap\u00e3o para a gaiola o caminho foi curto, atrav\u00e9s da Ponte dos<\/p>\n\n\n\n<p>Suspiros.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 aquele famoso poema do Guerra Junqueiro, sobre o melro, o p\u00e1ssaro das risadas de cristal. O velho cura, rancoroso, encontrara seu ninho e prendera os seus filhotes na gaiola. A m\u00e3e, desesperada com o destino dos filhos, e incapaz de abrir a portinha de ferro, lhes traz no bico um galho de veneno. Meus filhos, a exist\u00eancia \u00e9 boa s\u00f3 quando \u00e9 livre. A liberdade \u00e9 a lei. Prende-se a asa, mas a alma voa&#8230; \u00d3 filhos, voemos pelo azul!&#8230; Comei!<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 certo que a m\u00e3e do passarinho nunca lera o poeta, pois o que ela disse ao seu filho foi: Finalmente minhas ora\u00e7\u00f5es foram respondidas. Voc\u00ea esta seguro, pelo resto de sua vida. Nada h\u00e1 a temer. N\u00e3o \u00e9 preciso se preocupar. Acostuma-se. Cante bonito. Agora posso morrer em paz!<\/p>\n\n\n\n<p>Do seu pequeno espa\u00e7o ele olhava os outros passarinhos. Os bem-te-vis, atr\u00e1s dos bichinhos; os sanha\u00e7os, entrando mam\u00f5es adentro; os beija-flores, com seu m\u00e1gico bater de asas; os urubus, nos seus v\u00f4os tranq\u00fcilos da fundura do c\u00e9u; as rolinhas, arrulhando, fazendo amor; as pombas, voando como flechas. Ah! Os prudentes conselhos maternos n\u00e3o o tranq\u00fcilizavam. Ele queria ser como os outros p\u00e1ssaros, livres&#8230; Ah! Se aquela maldita porta se abrisse.<\/p>\n\n\n\n<p>Pois n\u00e3o \u00e9 que, para surpresa sua, um dia o seu dono a esqueceu aberta? Ele poderia agora realizar todos os seus sonhos. Estava livre, livre, livre!<\/p>\n\n\n\n<p>Saiu. Voou para o galho mais pr\u00f3ximo. Olhou para baixo. Puxa! Como era alto. Sentiu um pouco de tontura. Estava acostumado com o ch\u00e3o da gaiola, bem pertinho. Teve medo de cair. Agachou-se no galho, para ter mais firmeza. Viu uma outra \u00e1rvore mais distante. Teve vontade de ir at\u00e9 l\u00e1. Perguntou-se se suas asas ag\u00fcentariam. Elas n\u00e3o estavam acostumadas.<\/p>\n\n\n\n<p>O melhor seria n\u00e3o abusar, logo no primeiro dia. Agarrou-se mais firmemente ainda. Neste momento um insetinho passou voando bem na frente do seu bico. Chegara a hora. Esticou o pesco\u00e7o o mais que p\u00f4de, mas o insetinho n\u00e3o era bobo. Sumiu mostrando a l\u00edngua.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ei, voc\u00ea! &#8211; era uma passarinha. &#8211; Vamos voar juntos at\u00e9 o quintal do vizinho. H\u00e1 uma linda pimenteira, carregadinha de pimentas vermelhas. Deliciosas. Apenas \u00e9 preciso prestar aten\u00e7\u00e3o no gato, que anda por l\u00e1&#8230; S\u00f3 o nome gato lhe deu um arrepio. Disse para a passarinha que n\u00e3o gostava de pimentas. A passarinha procurou outro companheiro. Ele preferiu ficar com fome. Chegou o fim da tarde e, com ele a tristeza do crep\u00fasculo. A noite se aproximava. Onde iria dormir? Lembrou-se do prego amigo, na parede da cozinha, onde a sua gaiola ficava dependurada. Teve saudades dele. Teria de dormir num galho de \u00e1rvore, sem prote\u00e7\u00e3o. Gatos sobem em \u00e1rvores? Eles enxergam no escuro? E era preciso n\u00e3o esquecer os gamb\u00e1s. E tinha de pensar nos meninos com seus estilingues, no dia seguinte.<\/p>\n\n\n\n<p>Tremeu de medo. Nunca imaginara que a liberdade fosse t\u00e3o complicada. Somente podem gozar a liberdade aqueles que t\u00eam coragem. Ele n\u00e3o tinha. Teve saudades da gaiola. Voltou. Felizmente a porta ainda estava aberta.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste momento chegou o dono. Vendo a porta aberta disse:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Passarinho bobo. N\u00e3o viu que a porta estava aberta. Deve estar meio cego. Pois passarinho de verdade n\u00e3o fica em gaiola. Gosta mesmo \u00e9 de voar&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rubem Alves Dentro de uma linda gaiola vivia um passarinho. 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