{"id":1592,"date":"2024-09-08T12:00:45","date_gmt":"2024-09-08T15:00:45","guid":{"rendered":"https:\/\/new.contandohistorias.com.br\/?p=1592"},"modified":"2024-09-08T12:00:56","modified_gmt":"2024-09-08T15:00:56","slug":"os-ipes-amarelos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/contandohistorias.com.br\/?p=1592","title":{"rendered":"Os ip\u00eas amarelos"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-rich is-provider-incorporar-manipulador wp-block-embed-incorporar-manipulador\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-1592-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/www.contandohistorias.com.br\/mp3\/2006612.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.contandohistorias.com.br\/mp3\/2006612.mp3\">https:\/\/www.contandohistorias.com.br\/mp3\/2006612.mp3<\/a><\/audio>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p><strong><em>Rubem Alves<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Uma professora me contou esta coisa deliciosa. Um inspetor visitava uma escola. Numa sala ele viu, colados nas paredes, trabalhos dos alunos acerca de alguns dos meus livros infantis. Como que num desafio, ele perguntou \u00e0 crian\u00e7ada: &#8220;E quem \u00e9 Rubem Alves?&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Um menininho respondeu: &#8220;O Rubem Alves \u00e9 um homem que gosta de ip\u00eas-amarelos&#8230;&#8221;. A resposta do menininho me deu grande felicidade. Ele sabia das coisas. As pessoas s\u00e3o aquilo que elas amam.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o menininho n\u00e3o sabia que sou um homem de muitos amores&#8230; Amo os ip\u00eas, mas amo tamb\u00e9m caminhar sozinho. Muitas pessoas levam seus c\u00e3es a passear. Eu levo meus olhos a passear. E como eles gostam! Encantam-se com tudo. Para eles o mundo \u00e9 assombroso.<\/p>\n\n\n\n<p>Gosto tamb\u00e9m de banho de cachoeira (no ver\u00e3o&#8230;), da sensa\u00e7\u00e3o do vento na cara, do barulho das folhas dos eucaliptos, do cheiro das magn\u00f3lias, de m\u00fasica cl\u00e1ssica, de canto gregoriano, do som met\u00e1lico da viola, de poesia, de olhar as estrelas, de cachorro, das pinturas de Vermeer (o pintor do filme &#8220;Mo\u00e7a com Brinco de P\u00e9rola&#8221;), de Monet, de Dali, de Carl Larsson, do repicar de sinos, das catedrais g\u00f3ticas, de jardins, da comida mineira, de conversar \u00e0 volta da lareira.<\/p>\n\n\n\n<p>Diz Alberto Caeiro que o mundo \u00e9 para ser visto, e n\u00e3o para pensarmos nele. Nos poemas b\u00edblicos da cria\u00e7\u00e3o est\u00e1 relatado que Deus, ao fim de cada dia de trabalho, sorria ao contemplar o mundo que estava criando: tudo era muito bonito. Os olhos s\u00e3o a porta pela qual a beleza entra na alma. Meus olhos se espantam com tudo que veem.<\/p>\n\n\n\n<p>Sou m\u00edstico. Ao contr\u00e1rio dos m\u00edsticos religiosos que fecham os olhos para verem Deus, a Virgem e os anjos, eu abro bem os meus olhos para ver as frutas e legumes nas bancas das feiras. Cada fruta \u00e9 um assombro, um milagre. Uma cebola \u00e9 um milagre. Tanto assim que Neruda escreveu uma ode em seu louvor: &#8220;Rosa de \u00e1gua com escamas de cristal&#8230;&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Vejo e quero que os outros vejam comigo. Por isso escrevo. Fa\u00e7o fotografias com palavras. Diferentes dos filmes, que exigem tempo para serem vistos, as fotografias s\u00e3o instant\u00e2neas. Minhas cr\u00f4nicas s\u00e3o fotografias. Escrevo para fazer ver.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das minhas alegrias s\u00e3o os e-mails que recebo de pessoas que me confessam haver aprendido o gozo da leitura lendo os textos que escrevo. Os adolescentes que parariam desanimados diante de um livro de 200 p\u00e1ginas sentem-se atra\u00eddos por um texto pequeno de apenas tr\u00eas p\u00e1ginas. O que escrevo s\u00e3o como aperitivos. Na literatura, frequentemente, o curto \u00e9 muito maior que o comprido. H\u00e1 poemas que cont\u00eam todo um universo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas escrevo tamb\u00e9m com uma inten\u00e7\u00e3o gastron\u00f4mica. Quero que meus textos sejam comidos pelos leitores. Mais do que isso: quero que eles sejam comidos de forma prazerosa. Um texto que d\u00e1 prazer \u00e9 degustado vagarosamente. S\u00e3o esses os textos que se transformam em carne e sangue, como acontece na eucaristia.<\/p>\n\n\n\n<p>Sei que n\u00e3o me resta muito tempo. J\u00e1 \u00e9 crep\u00fasculo. N\u00e3o tenho medo da morte. O que sinto, na verdade, \u00e9 tristeza. O mundo \u00e9 muito bonito! Gostaria de ficar por aqui&#8230; Escrever \u00e9 o meu jeito de ficar por aqui. Cada texto \u00e9 uma semente. Depois que eu for, elas ficar\u00e3o. Quem sabe se transformar\u00e3o em \u00e1rvores! Tor\u00e7o para que sejam ip\u00eas-amarelos&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Colabora\u00e7\u00e3o de Wilma Santiago<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rubem Alves Uma professora me contou esta coisa deliciosa. Um inspetor visitava uma escola. Numa sala ele viu, colados nas paredes, trabalhos dos alunos acerca de alguns dos meus livros infantis. Como que num desafio, ele perguntou \u00e0 crian\u00e7ada: &#8220;E quem \u00e9 Rubem Alves?&#8221;. 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