{"id":1594,"date":"2024-09-08T12:01:38","date_gmt":"2024-09-08T15:01:38","guid":{"rendered":"https:\/\/new.contandohistorias.com.br\/?p=1594"},"modified":"2024-09-08T12:01:48","modified_gmt":"2024-09-08T15:01:48","slug":"os-macacos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/contandohistorias.com.br\/?p=1594","title":{"rendered":"Os Macacos"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-rich is-provider-incorporar-manipulador wp-block-embed-incorporar-manipulador\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-1594-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/www.contandohistorias.com.br\/mp3\/2004222.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.contandohistorias.com.br\/mp3\/2004222.mp3\">https:\/\/www.contandohistorias.com.br\/mp3\/2004222.mp3<\/a><\/audio>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p><em>Rubem Alves<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Vou contar para voc\u00eas uma est\u00f3ria. N\u00e3o importa se verdadeira ou imaginada. Por vezes, para ver a verdade, \u00e9 preciso sair do mundo da realidadee entrar no mundo da fantasia&#8230; Um grupo de psic\u00f3logos se disp\u00f4s a fazer uma experi\u00eancia com macacos. Colocaram cinco macacos dentro de uma jaula. No meio da jaula, uma mesa. Em cima da mesa, pendendo do teto, um cacho de bananas.<\/p>\n\n\n\n<p>Os macacos gostam de bananas. Viram a mesa. Perceberam que, subindo na mesa, alcan\u00e7ariam as bananas. Um dos macacos subiu na mesa para apanhar uma banana. Mas os psic\u00f3logos estavam preparados para tal eventualidade: com uma mangueira deram um banho de \u00e1gua fria nele. O macaco que estava sobre a mesa, ensopado, desistiu provisoriamente do seu projeto.<\/p>\n\n\n\n<p>Passados alguns minutos, voltou o desejo de comer bananas. Outro macaco resolveu comer bananas. Mas, ao subir na mesa, outro banho de \u00e1gua fria. Depois de o banho se repetir por quatro vezes, os macacos conclu\u00edram que havia uma rela\u00e7\u00e3o causal entre subir na mesa e o banho de \u00e1gua fria. Como o medo da \u00e1gua fria era maior que o desejo de comer bananas, resolveram que o macaco que tentasse subir na mesa levaria uma surra. Quando um macaco subia na mesa, antes do banho de \u00e1gua fria, os outros lhe aplicavam a surra merecida.<\/p>\n\n\n\n<p>A\u00ed os psic\u00f3logos retiraram da jaula um macaco e colocaram no seu lugar um outro macaco que nada sabia dos banhos de \u00e1gua fria. Ele se comportou como qualquer macaco. Foi subir na mesa para comer as bananas. Mas, antes que o fizesse, os outros quatro lhe aplicaram a surra prescrita. Sem nada entender e passada a dor da surra, voltou a querer comer a banana e subiu na mesa. Nova surra. Depois da quarta surra, ele concluiu: nessa jaula, macaco que sobe na mesa apanha. Adotou, ent\u00e3o, a sabedoria cristalizada pelos pol\u00edticos humanos que diz: se voc\u00ea n\u00e3o pode derrot\u00e1-los, junte-se a eles.<\/p>\n\n\n\n<p>Os psic\u00f3logos retiraram ent\u00e3o um outro macaco e o substitu\u00edram por outro. A mesma coisa aconteceu. Os tr\u00eas macacos originais mais o \u00faltimo macaco, que nada sabia da origem e fun\u00e7\u00e3o da surra, lhe aplicaram a sovade praxe. Este \u00faltimo macaco tamb\u00e9m aprendeu que, naquela jaula, quem subia na mesa apanhava.<\/p>\n\n\n\n<p>E assim continuaram os psic\u00f3logos a substituir os macacos originais por macacos novos, at\u00e9 que na jaula s\u00f3 ficaram macacos que nada sabiam sobre o banho de \u00e1gua fria. Mas, a despeito disso, eles continuavam a surrar os macacos que subiam na mesa.<\/p>\n\n\n\n<p>Se pergunt\u00e1ssemos aos macacos a raz\u00e3o das surras, eles responderiam: \u00e9 assim porque \u00e9 assim. Nessa jaula, macaco que sobe na mesa apanha&#8230; Haviam se esquecido completamente das bananas e nada sabiam sobre os banhos. S\u00f3 pensavam na mesa proibida.<\/p>\n\n\n\n<p>Vamos brincar de &#8220;fazer de conta&#8221;. Imaginemos que as escolas sejam as jaulas e que n\u00f3s estejamos dentro delas&#8230; Por favor, n\u00e3o se ofenda, \u00e9 s\u00f3 faz-de-conta, fantasia, para ajudar o pensamento. Nosso desejo original \u00e9 comer bananas. Mas j\u00e1 nos esquecemos delas. H\u00e1, nas escolas, uma infinidade de coisas e procedimentos cristalizados pela rotina, pela burocracia, pelas repeti\u00e7\u00f5es, pelos melhoramentos. \u00c0 semelhan\u00e7a dos macacos, aprendemos que \u00e9 assim que s\u00e3o as escolas. E nem fazemos perguntas sobre o sentido daquelas coisas e procedimentos para a educa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as. Vou dar alguns exemplos.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro, a arquitetura das escolas. Todas as escolas t\u00eam corredores e salas de aula. As salas servem para separar as crian\u00e7as em grupos, segregando-as umas das outras. Por que \u00e9 assim? Tem de ser assim? Haver\u00e1 uma outra forma de organizar o espa\u00e7o, que permita intera\u00e7\u00e3o e coopera\u00e7\u00e3o entre crian\u00e7as de idades diferentes, tal como acontece na vida? A escola n\u00e3o deveria imitar a vida?<\/p>\n\n\n\n<p>Programas. Um programa \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o de saberes numa determinada sequ\u00eancia. Quem determinou que esses s\u00e3o os saberes e que eles devem ser aprendidos na ordem prescrita? Que uso fazem as crian\u00e7as desses saberes na sua vida de cada dia? As crian\u00e7as escolheriam esses saberes? Os programas servem igualmente para crian\u00e7as que vivem nas praias de Alagoas, nas favelas das cidades, nas montanhas de Minas, nas florestas da Amaz\u00f4nia, nas cidadezinhas do interior?<\/p>\n\n\n\n<p>Os programas s\u00e3o dados em unidades de tempo chamadas &#8220;aulas&#8221;. As aulas t\u00eam hor\u00e1rios definidos. Ao final, toca-se uma campainha. A crian\u00e7a tem de parar de pensar o que estava pensando e passar a pensar o que o programa diz que deve ser pensado naquele tempo. O pensamento obedece \u00e0s ordens das campainhas? Por que \u00e9 necess\u00e1rio que todas as crian\u00e7as pensem as mesmas coisas, na mesma hora, no mesmo ritmo? As crian\u00e7as s\u00e3o todas iguais? O objetivo da escola \u00e9 fazer com que as crian\u00e7as sejam todas iguais?<\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 fazer as perguntas fundamentais: por que \u00e9 assim? Para que serve isso? Poderia ser de outra forma? Temo que, como os macacos, concentrados no cuidado com a mesa, acabemos por nos esquecer das bananas&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rubem Alves Vou contar para voc\u00eas uma est\u00f3ria. N\u00e3o importa se verdadeira ou imaginada. 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