{"id":1606,"date":"2024-09-08T12:06:00","date_gmt":"2024-09-08T15:06:00","guid":{"rendered":"https:\/\/new.contandohistorias.com.br\/?p=1606"},"modified":"2024-09-08T12:06:06","modified_gmt":"2024-09-08T15:06:06","slug":"o-sotaque-das-mineiras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/contandohistorias.com.br\/?p=1606","title":{"rendered":"O sotaque das mineiras"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-rich is-provider-incorporar-manipulador wp-block-embed-incorporar-manipulador\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-1606-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/www.contandohistorias.com.br\/mp3\/2006503.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.contandohistorias.com.br\/mp3\/2006503.mp3\">https:\/\/www.contandohistorias.com.br\/mp3\/2006503.mp3<\/a><\/audio>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p><strong><em>F.P.B. Netto<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O sotaque das mineiras deveria ser ilegal, imoral ou engordar.Afinal,se tudo que \u00e9 bom tem um desses horr\u00edveis efeitos colaterais, como \u00e9 que o falar, sensual e lindo das mo\u00e7as de Minas ficou de fora?<\/p>\n\n\n\n<p>Porque, Deus, que sotaque! Mineira devia nascer com tarja preta avisando: &#8220;ouvi-la faz mal \u00e0 sa\u00fade&#8221;. Se uma mineira, falando mansinho, me pedir para assinar um contrato doando tudo que tenho, sou capaz de perguntar: &#8220;s\u00f3 isso?&#8221;. Assino, achando que ela me faz um favor.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu sou suspeit\u00edssimo. Confesso: esse sotaque me desarma. Certa vez quase propus casamento a uma menina que me ligou por engano, s\u00f3 pelo sotaque.<\/p>\n\n\n\n<p>Os mineiros t\u00eam um \u00f3dio mortal das palavras completas&#8230; Preferem, sabe-se l\u00e1 por que, abandon\u00e1-las no meio do caminho. N\u00e3o dizem: pode parar, dizem: &#8220;p\u00f3 parar&#8221; N\u00e3o dizem: onde eu estou?, dizem: &#8220;onde queu t\u00f4.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Os n\u00e3o-mineiros, ignorantes nas coisas de Minas, sup\u00f5em, precipitada e levianamente, que os mineiros vivem &#8211; ling\u00fcisticamente falando &#8211; apenas de uais, trens e s\u00f4s.<\/p>\n\n\n\n<p>Digo-lhes que n\u00e3o. Mineiro n\u00e3o fala que o sujeito \u00e9 competente em tal ou qual atividade. Fala que ele \u00e9 bom de servi\u00e7o. Pouco importa que seja um juiz, um jogador de futebol ou um ator de filme porn\u00f4. Se der no couro &#8211; metaforicamente falando, claro &#8211; ele \u00e9 bom de servi\u00e7o. Faz sentido&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Mineiras n\u00e3o usam o famos\u00edssimo tudo bem. Sempre que duas mineiras se encontram, uma delas h\u00e1 de perguntar pra outra: &#8220;c\u00ea t\u00e1 boa?&#8221; Para mim, isso \u00e9 pleonasmo. Perguntar para uma mineira se ela t\u00e1 boa \u00e9 desnecess\u00e1rio. &#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 outras. Vamos supor que voc\u00ea esteja tendo um caso com uma mulher casada. Um amigo seu, se for mineiro, vai chegar e dizer: &#8211; Mexe com isso n\u00e3o, s\u00f4 (leia-se: sai dessa, \u00e9 fria, etc..) O verbo &#8220;mexer&#8221;, para os mineiros, tem os mais amplos significados. Quer dizer, por exemplo, trabalhar. Se lhe perguntarem com o que voc\u00ea mexe, n\u00e3o fique ofendido. Querem saber o seu of\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<p>Os mineiros tamb\u00e9m n\u00e3o gostam do verbo conseguir. Aqui ningu\u00e9m consegue nada. Voc\u00ea n\u00e3o d\u00e1 conta. S\u00f4c\u00ea (se voc\u00ea) acha que n\u00e3o vai chegar a tempo, voc\u00ea liga e diz: &#8220;- Aqui, n\u00e3o vou dar conta de chegar na hora, n\u00e3o, s\u00f4.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Esse &#8220;aqui&#8221; \u00e9 outra del\u00edcia que s\u00f3 tem aqui. \u00c9 antecedente obrigat\u00f3rio, sob pena de puni\u00e7\u00e3o p\u00fablica, de qualquer frase. \u00c9 mais usada, no entanto, quando voc\u00ea quer falar e n\u00e3o est\u00e3o lhe dando muita aten\u00e7\u00e3o: \u00e9 uma forma de dizer &#8220;ol\u00e1, me escutem, por favor&#8221;. \u00c9 a \u00faltima inst\u00e2ncia antes de jogar um p\u00e3o de queijo na cabe\u00e7a do interlocutor.<\/p>\n\n\n\n<p>Mineiras n\u00e3o dizem &#8220;apaixonado por&#8221;. Dizem, sabe-se l\u00e1 por que, &#8220;apaixonado com&#8221;. Soa engra\u00e7ado aos ouvidos forasteiros. Ouve-se a toda hora: &#8220;Ah, eu apaixonei com ele&#8230;&#8221;. Ou: &#8220;sou doida com ele&#8221; (ele, no caso, pode ser voc\u00ea, um carro, um cachorro).<\/p>\n\n\n\n<p>Eu preciso avisar \u00e0 l\u00edngua portuguesa que gosto muito dela, mas prefiro, com todo respeito, a mineira. Nada pessoal. Aqui certas regras n\u00e3o entram. S\u00e3o barradas pelas montanhas.<\/p>\n\n\n\n<p>Por exemplo: em Minas, se voc\u00ea quiser falar que precisa ir a um lugar, vai dizer: &#8211; &#8220;Eu preciso de ir.&#8221; Onde os mineiros arrumaram esse &#8220;de&#8221;, a\u00ed no meio, \u00e9 uma boa pergunta.. S\u00f3 n\u00e3o me perguntem! Mas que ele existe, existe. Asseguro que sim, com escritura lavrada em cart\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p>No supermercado, o mineiro n\u00e3o faz muitas compras, ele compra um tanto de coisa. O supermercado n\u00e3o estar\u00e1 lotado, ele ter\u00e1 um tanto de gente. Se a fila do caixa n\u00e3o anda, \u00e9 porque est\u00e1 agarrando l\u00e1 na frente. Entendeu? Agarrar \u00e9 agarrar, ora!<\/p>\n\n\n\n<p>Se, saindo do supermercado, a mineirinha vir um mendigo e ficar com pena, suspirar\u00e1 :&#8221;- Ai, gente, que d\u00f3.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 prov\u00e1vel que a essa altura o leitor j\u00e1 esteja apaixonado pelas mineiras&#8230; N\u00e3o vem ca\u00e7ar confus\u00e3o pro meu lado! Porque, devo dizer, mineiro n\u00e3o arruma briga, mineiro &#8220;ca\u00e7a confus\u00e3o&#8221;. Se voc\u00ea quiser dizer que tal sujeito \u00e9 arruaceiro, \u00e9 melhor falar, para se fazer entendido, que ele &#8220;vive ca\u00e7ando confus\u00e3o&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Ah, e tem o &#8220;Capaz&#8230;.&#8221; Se voc\u00ea prop\u00f5e algo a uma mineira, ela diz: &#8220;capaz&#8221; !!! Voc\u00eas j\u00e1 ouviram esse &#8220;capaz&#8221;? \u00c9 lindo. Quer dizer o qu\u00ea? Sei l\u00e1, quer dizer &#8220;ce acha que eu fa\u00e7o isso&#8221;!? com algumas toneladas de ironia.. Se voc\u00ea amea\u00e7ar casar com a Gisele Bundchen, ela dir\u00e1: &#8220;\u00f4 d\u00f3 d\u00f4c\u00ea&#8221;. Entendeu? N\u00e3o? Deixa para l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 parecido com o &#8220;nem..&#8221;.J\u00e1 ouviu o &#8220;nem&#8230;&#8221;?<\/p>\n\n\n\n<p>Completo ele fica: &#8220;- Ah, nem&#8230;.&#8221; O que significa? Significa, amigo leitor, que a mineira que o pronunciou n\u00e3o far\u00e1 o que voc\u00ea prop\u00f4s de jeito nenhum. Mas de jeito nenhum. Voc\u00ea diz: &#8220;Meu amor, c\u00ea anima de comer um tropeiro no Mineir\u00e3o?&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Resposta: &#8220;nem&#8230;.&#8221; Ainda n\u00e3o entendeu? Uai, nem \u00e9 nem. Leitor, voc\u00ea \u00e9 meio burrinho ou \u00e9 impress\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>Preciso confessar algo: minha inclina\u00e7\u00e3o \u00e9 para perdoar, com louvor, os deslizes vocabulares das mineiras. Ali\u00e1s, deslizes nada. S\u00f3 porque aqui a l\u00edngua \u00e9 outra, n\u00e3o quer dizer que a oficial esteja com a raz\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Se voc\u00ea, em conversa, falar: &#8220;Ah, fui l\u00e1 comprar umas coisas&#8230;&#8221;.. &#8211; Que&#8221; s coisa? &#8211; ela retrucar\u00e1. O plural d\u00e1 um pulo. Sai das coisas e vai para o &#8220;que&#8221;!<\/p>\n\n\n\n<p>Ouvi de uma menina culta um &#8220;pelas metade&#8221;, no lugar de &#8220;pela metade&#8221;. E se voc\u00ea acusar injustamente uma mineira, ela, chorosa, confidenciar\u00e1 :<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ele p\u00f4s a culpa &#8220;ni mim&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>A conjuga\u00e7\u00e3o dos verbos tem l\u00e1 seus mist\u00e9rios, em Minas&#8230; Ontem, uma senhora docemente me consolou: &#8220;preocupa n\u00e3o, bobo!&#8221;.. E meus ouvidos, j\u00e1 acostumados \u00e0s ing\u00eanuas conjuga\u00e7\u00f5es mineiras. nem se espantam. Talvez se espantassem se ouvissem um: &#8220;n\u00e3o se preocupe&#8221;, ou algo assim. F\u00f3rmula mineira \u00e9 sint\u00e9tica. e diz tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 o tchau, em Minas, \u00e9 personalizado. Ningu\u00e9m diz tchau, pura e simplesmente. Aqui se diz: &#8220;tchau pro c\u00ea&#8221;, &#8220;tchau pro c\u00eas&#8221;. \u00c9 \u00fatil deixar claro o destinat\u00e1rio do tchau&#8230;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Felipe Peixoto Braga Netto (1973) afirma que n\u00e3o \u00e9 jornalista, n\u00e3o \u00e9 publicit\u00e1rio, nunca publicou cr\u00f4nicas ou contos &#8211; n\u00e3o \u00e9, enfim, literariamente falando, muita coisa, segundo suas pr\u00f3prias palavras. Paulistano, mora em Belo Horizonte e ama Minas Gerais. Ele diz que nunca publicou nada, mas a cr\u00f4nica que abaixo foi extra\u00edda do livro &#8220;As coisas simp\u00e1ticas da vida&#8221;, Landy Editora, S\u00e3o Paulo (SP) &#8211; 2005, p\u00e1g. 82.<\/p>\n<\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>F.P.B. 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