{"id":1634,"date":"2024-09-08T12:31:26","date_gmt":"2024-09-08T15:31:26","guid":{"rendered":"https:\/\/new.contandohistorias.com.br\/?p=1634"},"modified":"2024-09-08T12:31:32","modified_gmt":"2024-09-08T15:31:32","slug":"o-tempo-passou-e-me-formei-em-solidao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/contandohistorias.com.br\/?p=1634","title":{"rendered":"O tempo passou e me formei em solid\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-rich is-provider-incorporar-manipulador wp-block-embed-incorporar-manipulador\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-1634-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/www.contandohistorias.com.br\/mp3\/2006693.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.contandohistorias.com.br\/mp3\/2006693.mp3\">https:\/\/www.contandohistorias.com.br\/mp3\/2006693.mp3<\/a><\/audio>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Cr\u00e9ditos: Jos\u00e9 Ant\u00f4nio Oliveira de Resende<br>Professor de Pr\u00e1tica de Ensino de L\u00edngua Portuguesa, do Departamento de Letras, Artes e Cultura, da Universidade Federal de S\u00e3o Jo\u00e3o del-Rei.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sou do tempo em que ainda se faziam visitas. Lembro-me de minha m\u00e3e mandando a gente caprichar no banho, porque a fam\u00edlia toda iria visitar algum conhecido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00cdamos todos juntos, fam\u00edlia grande, todo mundo a p\u00e9. Geralmente, \u00e0 noite. Ningu\u00e9m avisava nada, o costume era chegar de paraquedas mesmo. E os donos da casa recebiam alegres a visita.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aos poucos, os moradores iam se apresentando, um por um. &#8220;Olha o compadre aqui, garoto! Cumprimenta a comadre&#8221;. E o garoto apertava a m\u00e3o do meu pai, da minha m\u00e3e, a minha m\u00e3o e a m\u00e3o dos meus irm\u00e3os. A\u00ed chegava outro menino. Repetia-se toda a diplomacia. &#8220;Mas vamos nos assentar, gente. Que surpresa agrad\u00e1vel!&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A conversa rolava solta na sala. Meu pai conversando com o compadre e minha m\u00e3e de papo com a comadre. Eu e meus irm\u00e3os fic\u00e1vamos assentados todos num mesmo sof\u00e1, entreolhando-nos e olhando a casa do tal compadre. Retratos na parede, duas imagens de santos numa cantoneira, flores na mesinha de centro&#8230; casa singela e acolhedora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A nossa tamb\u00e9m era assim. Tamb\u00e9m eram assim as visitas, singelas e acolhedoras. T\u00e3o acolhedoras que era tamb\u00e9m costume servir um bom caf\u00e9 aos visitantes. Como um anjo benfazejo, surgia algu\u00e9m l\u00e1 da cozinha &#8211; geralmente uma das filhas &#8211; e dizia: &#8220;Gente, vem aqui pra dentro que o caf\u00e9 est\u00e1 na mesa.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tratava-se de uma meton\u00edmia gastron\u00f4mica. O caf\u00e9 era apenas uma parte: p\u00e3es, bolo, broas, queijo fresco, manteiga, biscoitos, leite&#8230; tudo sobre a mesa. Juntava todo mundo e as piadas pipocavam. As gargalhadas tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pra que televis\u00e3o? Pra que rua? Pra que droga? A vida estava ali, no riso, no caf\u00e9, na conversa, no abra\u00e7o, na esperan\u00e7a&#8230; Era a vida respingando eternidade nos momentos que acabam&#8230;. era a vida transbordando simplicidade, alegria e amizade&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando sa\u00edamos, os donos da casa ficavam \u00e0 porta at\u00e9 que vir\u00e1ssemos a esquina. Ainda nos acen\u00e1vamos. E volt\u00e1vamos para casa, caminhada muitas vezes longa, sem carro, mas com o cora\u00e7\u00e3o aquecido pela ternura e pela acolhida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Era assim tamb\u00e9m l\u00e1 em casa. Receb\u00edamos as visitas com o cora\u00e7\u00e3o em festa&#8230; A mesma alegria se repetia. Quando iam embora, tamb\u00e9m fic\u00e1vamos, a fam\u00edlia toda, \u00e0 porta. Olh\u00e1vamos, olh\u00e1vamos&#8230; at\u00e9 que sumissem no horizonte da noite.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O tempo passou e me formei em solid\u00e3o. Tive bons professores: televis\u00e3o, v\u00eddeo, DVD, internet, e-mail, Whatsapp &#8230; Cada um na sua e ningu\u00e9m na de ningu\u00e9m. N\u00e3o se recebe mais em casa. Agora a gente combina encontros com os amigos fora de casa: &#8220;Vamos marcar uma sa\u00edda!&#8230; &#8221; ningu\u00e9m quer entrar mais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, as casas v\u00e3o se transformando em t\u00famulos sem epit\u00e1fios, que escondem mortos an\u00f4nimos e possibilidades enterradas. Cemit\u00e9rio urbano, onde perambulam zumbis e fantasmas mais assustados que assustadores. Casas trancadas.. Pra que abrir? O ladr\u00e3o pode entrar e roubar a lembran\u00e7a do caf\u00e9, dos p\u00e3es, do bolo, das broas, do queijo fresco, da manteiga, dos biscoitos do leite&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Que saudade do compadre e da comadre!&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cr\u00e9ditos: Jos\u00e9 Ant\u00f4nio Oliveira de ResendeProfessor de Pr\u00e1tica de Ensino de L\u00edngua Portuguesa, do Departamento de Letras, Artes e Cultura, da Universidade Federal de S\u00e3o Jo\u00e3o del-Rei. Sou do tempo em que ainda se faziam visitas. 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