{"id":1664,"date":"2024-09-09T18:11:46","date_gmt":"2024-09-09T21:11:46","guid":{"rendered":"https:\/\/new.contandohistorias.com.br\/?p=1664"},"modified":"2024-09-09T18:11:50","modified_gmt":"2024-09-09T21:11:50","slug":"pai-de-nossos-pais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/contandohistorias.com.br\/?p=1664","title":{"rendered":"Pai de nossos pais"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-rich is-provider-incorporar-manipulador wp-block-embed-incorporar-manipulador\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-1664-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/www.contandohistorias.com.br\/mp3\/2006629.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.contandohistorias.com.br\/mp3\/2006629.mp3\">https:\/\/www.contandohistorias.com.br\/mp3\/2006629.mp3<\/a><\/audio>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p><strong><em>Fabricio Carpinejar.<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 uma quebra na hist\u00f3ria familiar onde as idades se acumulam e se sobrep\u00f5em e a ordem natural n\u00e3o tem sentido: \u00e9 quando o filho se torna pai de seu pai.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 quando o pai envelhece e come\u00e7a a trotear como se estivesse dentro de uma n\u00e9voa. Lento, devagar, impreciso.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 quando aquele pai que segurava com for\u00e7a nossa m\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o tem como se levantar sozinho. \u00c9 quando aquele pai, outrora firme e instranspon\u00edvel, enfraquece de vez e demora o dobro da respira\u00e7\u00e3o para sair de seu lugar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 quando aquele pai, que antigamente mandava e ordenava, hoje s\u00f3 suspira, s\u00f3 geme, s\u00f3 procura onde \u00e9 a porta e onde \u00e9 a janela &#8211; tudo \u00e9 corredor, tudo \u00e9 longe.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 quando aquele pai, antes disposto e trabalhador, fracassa ao tirar sua pr\u00f3pria roupa e n\u00e3o lembrar\u00e1 de seus rem\u00e9dios.<\/p>\n\n\n\n<p>E n\u00f3s, como filhos, n\u00e3o faremos outra coisa sen\u00e3o trocar de papel e aceitar que somos respons\u00e1veis por aquela vida. Aquela vida que nos gerou depende de nossa vida para morrer em paz.<\/p>\n\n\n\n<p>Todo filho \u00e9 pai da morte de seu pai.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou, quem sabe, a velhice do pai e da m\u00e3e seja curiosamente nossa \u00faltima gravidez. Nosso \u00faltimo ensinamento. Fase para devolver os cuidados que nos foram confiados ao longo de d\u00e9cadas, de retribuir o amor com a amizade da escolta.<\/p>\n\n\n\n<p>E assim como mudamos a casa para atender nossos beb\u00eas, tapando tomadas e colocando cercadinhos, vamos alterar a rotina dos m\u00f3veis para criar os nossos pais.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das primeiras transforma\u00e7\u00f5es acontece no banheiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Seremos pais de nossos pais na hora de p\u00f4r uma barra no box do chuveiro.<\/p>\n\n\n\n<p>A barra \u00e9 emblem\u00e1tica. A barra \u00e9 simb\u00f3lica. A barra \u00e9 inaugurar um cotovelo das \u00e1guas.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque o chuveiro, simples e refrescante, agora \u00e9 um temporal para os p\u00e9s idosos de nossos protetores. N\u00e3o podemos abandon\u00e1-los em nenhum momento, inventaremos nossos bra\u00e7os nas paredes.<\/p>\n\n\n\n<p>A casa de quem cuida dos pais tem bra\u00e7os dos filhos pelas paredes. Nossos bra\u00e7os estar\u00e3o espalhados, sob a forma de corrim\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Pois envelhecer \u00e9 andar de m\u00e3os dadas com os objetos, envelhecer \u00e9 subir escada mesmo sem degraus.<\/p>\n\n\n\n<p>Seremos estranhos em nossa resid\u00eancia. Observaremos cada detalhe com pavor e desconhecimento, com d\u00favida e preocupa\u00e7\u00e3o. Seremos arquitetos, decoradores, engenheiros frustrados.<\/p>\n\n\n\n<p>Como n\u00e3o previmos que os pais adoecem e precisariam da gente?<\/p>\n\n\n\n<p>Nos arrependeremos dos sof\u00e1s, das est\u00e1tuas e do acesso caracol, nos arrependeremos de cada obst\u00e1culo e tapete.<\/p>\n\n\n\n<p>E feliz do filho que \u00e9 pai de seu pai antes da morte, e triste do filho que aparece somente no enterro e n\u00e3o se despede um pouco por dia.<\/p>\n\n\n\n<p>Meu amigo Jos\u00e9 Klein acompanhou o pai at\u00e9 seus derradeiros minutos.<\/p>\n\n\n\n<p>No hospital, a enfermeira fazia a manobra da cama para a maca, buscando repor os len\u00e7\u00f3is, quando Z\u00e9 gritou de sua cadeira:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Deixa que eu ajudo&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Reuniu suas for\u00e7as e pegou pela primeira vez seu pai no colo.<\/p>\n\n\n\n<p>Colocou o rosto de seu pai contra seu peito.<\/p>\n\n\n\n<p>Ajeitou em seus ombros o pai consumido pelo c\u00e2ncer: pequeno, enrugado, fr\u00e1gil, tremendo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ficou segurando um bom tempo, um tempo equivalente \u00e0 sua inf\u00e2ncia, um tempo equivalente \u00e0 sua adolesc\u00eancia, um bom tempo, um tempo intermin\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Embalou o pai de um lado para o outro.<\/p>\n\n\n\n<p>Aninhou o pai.<\/p>\n\n\n\n<p>Acalmou o pai.<\/p>\n\n\n\n<p>E apenas dizia, sussurrado:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Estou aqui, estou aqui, pai!&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>O que um pai quer apenas ouvir no fim de sua vida \u00e9 que seu filho est\u00e1 ali.<\/p>\n\n\n\n<p>Espero que tenhamos o privil\u00e9gio de ser pai de nossos pais !!!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fabricio Carpinejar. 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