{"id":1698,"date":"2024-09-09T18:22:09","date_gmt":"2024-09-09T21:22:09","guid":{"rendered":"https:\/\/new.contandohistorias.com.br\/?p=1698"},"modified":"2024-09-09T18:22:14","modified_gmt":"2024-09-09T21:22:14","slug":"pensar-e-transgredir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/contandohistorias.com.br\/?p=1698","title":{"rendered":"Pensar \u00e9 transgredir"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-embed\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-1698-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/www.contandohistorias.com.br\/mp3\/2006190.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.contandohistorias.com.br\/mp3\/2006190.mp3\">https:\/\/www.contandohistorias.com.br\/mp3\/2006190.mp3<\/a><\/audio>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Lya Luft<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o lembro em que momento percebi que viver deveria ser uma permanente reinven\u00e7\u00e3o de n\u00f3s mesmos, para n\u00e3o morrermos soterrados na poesia da banalidade, embora pare\u00e7a que ainda estamos vivos. Mas compreendi, num lampejo: ent\u00e3o \u00e9 isso, ent\u00e3o \u00e9 assim. Apesar dos medos, conv\u00e9m n\u00e3o ser demais f\u00fatil nem demais acomodada. Algumas vezes \u00e9 preciso pegar o touro pelos chifres, mergulhar para depois ver o que acontece: porque a vida n\u00e3o tem de ser sorvida como uma ta\u00e7a que se esvazia, mas como o jarro que se renova a cada gole bebido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para reinventar-se \u00e9 preciso pensar: isso aprendi muito cedo. Apalpar, no nevoeiro de quem somos, algo que pare\u00e7a uma ess\u00eancia : isso, mais ou menos, sou eu. Isso \u00e9 o que eu queria ser, acredito ser, quero me tornar ou j\u00e1 fui. Muita inquieta\u00e7\u00e3o por baixo das \u00e1guas do cotidiano. Mais c\u00f4modo seria ficar com o travesseiro sobre a cabe\u00e7a e adotar o lema reconfortante : &#8220;Parar pra pensar, nem pensar !&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O problema \u00e9 que quando menos se espera ele chega, o sorrateiro pensamento que nos faz parar. Pode ser no meio do shopping, no tr\u00e2nsito, na frente da tev\u00ea ou do computador. Simplesmente escovando os dentes. Ou na hora da droga, do sexo sem afeto, do desafeto, do rancor, da lam\u00faria, da hesita\u00e7\u00e3o e da resigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sem ter programado, a gente p\u00e1ra pra pensar. Pode ser um susto: como espiar de um ber\u00e7\u00e1rio confort\u00e1vel para um corredor com mil possibilidades. Cada porta, uma escolha. Muitas v\u00e3o se abrir para um nada ou para algum absurdo. Outras, para um jardim de promessas. Alguma, para a noite al\u00e9m da cerca. Hora de tirar os disfarces, aposentar as m\u00e1scaras e reavaliar : reavaliar-se .<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pensar pede aud\u00e1cia, pois refletir \u00e9 transgredir a ordem do superficial que nos pressiona tanto. Somos demasiado fr\u00edvolos: buscamos o atordoamento das mil distra\u00e7\u00f5es, corremos de um lado a outro achando que somos grandes cumpridores de tarefas. Quando o primeiro dever seria de vez em quando parar e analisar: quem a gente \u00e9, o que fazemos com a nossa vida, o tempo, os amores. E com as obriga\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m, \u00e9 claro, pois n\u00e3o temos sempre cinco anos de idade, quando a prioridade absoluta \u00e9 dormir abra\u00e7ado no urso de pel\u00facia e prosseguir no sono, o sonho que afinal nessa idade ainda \u00e9 a vida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas pensar n\u00e3o \u00e9 apenas a amea\u00e7a de enfrentar a alma no espelho: \u00e9 sair para as varandas de si mesmo e olhar em torno, e quem sabe finalmente respirar. Compreender: somos inquilinos de algo bem maior do que o nosso pequeno segredo individual. \u00c9 o poderoso ciclo da exist\u00eancia. Nele todos os desastres e toda a beleza t\u00eam significado como fases de um processo. Se nos escondemos num canto escuro abafando nossos questionamentos, n\u00e3o escutaremos o rumor do vento nas \u00e1rvores do mundo. Nem compreenderemos que o prato das inevit\u00e1veis perdas pode pesar menos do que o dos poss\u00edveis ganhos. Os ganhos ou os danos dependem da perspectiva e possibilidades de quem vai tecendo a sua hist\u00f3ria. O mundo em si n\u00e3o tem sentido sem o nosso olhar que lhe atribui identidade, sem o nosso pensamento que lhe confere alguma ordem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Viver, como talvez morrer, \u00e9 recriar-se : a vida n\u00e3o est\u00e1 a\u00ed apenas para ser suportada nem vivida, mas elaborada. Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Muitas vezes, ousada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Parece f\u00e1cil: &#8220;escrever a respeito das coisas \u00e9 f\u00e1cil&#8221;, j\u00e1 me disseram. Eu sei. Mas n\u00e3o \u00e9 preciso realizar nada espetacular, nem desejar nada excepcional. N\u00e3o \u00e9 preciso nem mesmo ser brilhante, importante, admirado. Para viver de verdade, pensando e repensando a exist\u00eancia, para que ela valha a pena, \u00e9 preciso ser amado; e amar; e amar-se. Ter esperan\u00e7a; qualquer esperan\u00e7a. Questionar o que nos \u00e9 imposto, sem rebeldias insensatas mas sem demasiada sensatez. Saborear o bom, mas aqui e ali enfrentar o ruim. Suportar sem se submeter, aceitar sem se humilhar, entregar-se sem renunciar a si mesmo e \u00e0 poss\u00edvel dignidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sonhar, porque se desistimos disso apaga-se a \u00faltima claridade e nada mais valer\u00e1 a pena. Escapar, na liberdade do pensamento, desse esp\u00edrito de manada que trabalha obstinadamente para nos enquadrar, seja l\u00e1 no que for. E que o m\u00ednimo que a gente fa\u00e7a seja, a cada momento, o melhor que afinal se conseguiu fazer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lya Luft N\u00e3o lembro em que momento percebi que viver deveria ser uma permanente reinven\u00e7\u00e3o de n\u00f3s mesmos, para n\u00e3o morrermos soterrados na poesia da banalidade, embora pare\u00e7a que ainda estamos vivos. 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