{"id":1769,"date":"2024-09-09T19:22:30","date_gmt":"2024-09-09T22:22:30","guid":{"rendered":"https:\/\/new.contandohistorias.com.br\/?p=1769"},"modified":"2024-09-09T19:22:34","modified_gmt":"2024-09-09T22:22:34","slug":"qual-e-o-problema","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/contandohistorias.com.br\/?p=1769","title":{"rendered":"Qual \u00e9 o problema?"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-rich is-provider-incorporar-manipulador wp-block-embed-incorporar-manipulador\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-1769-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/www.contandohistorias.com.br\/mp3\/2004262.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.contandohistorias.com.br\/mp3\/2004262.mp3\">https:\/\/www.contandohistorias.com.br\/mp3\/2004262.mp3<\/a><\/audio>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p><em>Bons administradores s\u00e3o aqueles que fazem as melhores perguntas, e n\u00e3o os que repetem suas melhores aulas&#8221;<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p><em>Stephen Kanitz<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Um dos maiores choques de minha vida foi na noite anterior ao meu primeiro dia de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em administra\u00e7\u00e3o. Havia sido um dos quatro brasileiros escolhidos naquele ano, e todos n\u00f3s acredit\u00e1vamos, ingenuamente, que o dif\u00edcil fora ter entrado em Harvard, e que o mestrado em si seria sopa. Ledo engano. T\u00ednhamos de resolver naquela noite tr\u00eas estudos de caso de oitenta p\u00e1ginas cada um. O estudo de caso era uma novidade para mim. L\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 aulas de inaugura\u00e7\u00e3o, na qual o professor diz quem ele \u00e9 e o que ensinar\u00e1 durante o ano, matando assim o primeiro dia de aula. Essas informa\u00e7\u00f5es podem ser dadas antes. Ali\u00e1s, a carta em que me avisaram que fora aceito como aluno veio acompanhada de dois livros para ser lidos antes do in\u00edcio das aulas.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro caso a ser resolvido naquela noite era de marketing, em que a empresa gastava boas somas em propaganda, mas as vendas ca\u00edam ano ap\u00f3s ano. Havia coment\u00e1rios detalhados de cada diretor da companhia, um culpando o outro, e o caso terminava com uma an\u00e1lise do presidente sobre a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O caso terminava ali, e ponto final. Foi quando percebi que estava faltando algo. Algo que nunca tinha me ocorrido nos dezoito anos de estudos no Brasil. N\u00e3o havia nenhuma pergunta do professor a responder. O que n\u00f3s ter\u00edamos de fazer com aquele amontoado de palavras? Eu, como meus quatro colegas brasileiros, esperava perguntas do tipo &#8220;Deve o presidente mudar de ag\u00eancia de propaganda ou demitir seu diretor de marketing?&#8221;. Afinal, est\u00e1vamos todos acostumados com testes de vestibular e perguntas do tipo &#8220;Quem descobriu o Brasil?&#8221;. Harvard queria justamente o contr\u00e1rio. Queria que n\u00f3s descobr\u00edssemos as perguntas que precisam ser respondidas ao longo da vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma reviravolta e tanto. Eu estava acostumado a professores que insistiam em que decor\u00e1ssemos as perguntas que provavelmente iriam cair no vestibular. Adorei esse novo m\u00e9todo de ensino, e quando voltei para dar aulas na Universidade de S\u00e3o Paulo, trinta anos atr\u00e1s, acabei implantando o m\u00e9todo de estudo de casos em minhas aulas. Para minha surpresa, a rea\u00e7\u00e3o da classe foi a pior poss\u00edvel. &#8220;Professor, qual \u00e9 a pergunta?&#8221;, perguntavam-me. E, quando eu respondia que essa era justamente a primeira pergunta a que teriam de responder, a revolta era geral: &#8220;Como vamos resolver uma quest\u00e3o que n\u00e3o foi sequer formulada?&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Temos um ensino no Brasil voltado para perguntas prontas e definidas, por uma raz\u00e3o muito simples: \u00e9 mais f\u00e1cil para o aluno e tamb\u00e9m para o professor. O professor \u00e9 visto como um s\u00e1bio, um intelectual, algu\u00e9m que tem solu\u00e7\u00e3o para tudo. E os alunos, por comodismo, querem ter as perguntas feitas, como no vestibular. Nossos alunos est\u00e3o sendo levados a uma falsa consci\u00eancia, o mito de que todas as quest\u00f5es do mundo j\u00e1 foram formuladas e solucionadas. O objetivo das aulas passa a ser apresent\u00e1-las, e a obriga\u00e7\u00e3o dos alunos \u00e9 repeti-las na prova final.<\/p>\n\n\n\n<p>Em seu primeiro dia de trabalho voc\u00ea vai descobrir que seu patr\u00e3o n\u00e3o lhe perguntar\u00e1 quem descobriu o Brasil e n\u00e3o lhe pagar\u00e1 um sal\u00e1rio por isso no fim do m\u00eas. Nem vai lhe pedir para resolver &#8220;4\/2 3D ?&#8221;. Em toda a minha vida profissional nunca encontrei um quadrado perfeito, muito menos uma divis\u00e3o perfeita, os n\u00fameros da vida sempre terminam com longas casas decimais. Seu patr\u00e3o vai querer saber de voc\u00ea quais s\u00e3o os problemas que precisam ser resolvidos em sua \u00e1rea. Bons administradores s\u00e3o aqueles que fazem as melhores perguntas, e n\u00e3o os que repetem suas melhores aulas.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma famosa professora de filosofia me disse recentemente que n\u00e3o existem mais perguntas a ser feitas, depois de Arist\u00f3teles e Plat\u00e3o. Talvez por isso n\u00e3o encontramos solu\u00e7\u00e3o para os in\u00fameros problemas brasileiros de hoje. O maior erro que se pode cometer na vida \u00e9 procurar solu\u00e7\u00f5es certas para os problemas errados. Em minha experi\u00eancia e na da maioria das pessoas que trabalham no dia-a-dia, uma vez definido qual \u00e9 o verdadeiro problema, o que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, a solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o demora muito a ser encontrada. Se voc\u00ea pretende ser \u00fatil na vida, aprenda a fazer boas perguntas mais do que sair arrogantemente ditando respostas. Se voc\u00ea ainda \u00e9 um estudante, lembre-se de que n\u00e3o s\u00e3o as respostas que s\u00e3o importantes na vida, s\u00e3o as perguntas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bons administradores s\u00e3o aqueles que fazem as melhores perguntas, e n\u00e3o os que repetem suas melhores aulas&#8221; Stephen Kanitz Um dos maiores choques de minha vida foi na noite anterior ao meu primeiro dia de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em administra\u00e7\u00e3o. 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