{"id":1916,"date":"2024-09-11T21:51:36","date_gmt":"2024-09-12T00:51:36","guid":{"rendered":"https:\/\/new.contandohistorias.com.br\/?p=1916"},"modified":"2024-09-11T21:51:41","modified_gmt":"2024-09-12T00:51:41","slug":"sobre-principes-e-sapos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/contandohistorias.com.br\/?p=1916","title":{"rendered":"Sobre pr\u00edncipes e sapos"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-rich is-provider-incorporar-manipulador wp-block-embed-incorporar-manipulador\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-1916-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/www.contandohistorias.com.br\/mp3\/2004291.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.contandohistorias.com.br\/mp3\/2004291.mp3\">https:\/\/www.contandohistorias.com.br\/mp3\/2004291.mp3<\/a><\/audio>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p>Sempre que respondo a algu\u00e9m que sou psicanalista, inevitavelmente vem a pergunta: &#8220;E o que \u00e9 a psican\u00e1lise?&#8221; Os mais sabidos, que j \u00e1 ouviram ou leram sobre o assunto, dispensam introdu\u00e7\u00f5es e v\u00e3o logo ao exame de posi\u00e7\u00f5es. &#8220;E qual \u00e9 a linha que o senhor segue?&#8221; Me d\u00e1 logo vontade de dizer que prefiro as curvas \u00e0s retas &#8211; no que n\u00e3o estaria sendo infiel ao esp\u00edrito da psican\u00e1lise, onde a curva \u00e9 sempre o caminho mais curto entre dois pontos. Mas sei que n\u00e3o entenderiam, pois o que querem saber \u00e9 se sou freudiano, kleiniano, bioniano, junguiano, lacaniano, etc, etc. Acontece que este n\u00e3o \u00e9 o meu jeito. Preferindo as curvas \u00e0s retas, sigo o conselho de Guimar\u00e3es Rosa: s\u00f3 dou respostas para perguntas que ningu\u00e9m nunca perguntou. E assim, meio num estilo oriental, meio num estilo evang\u00e9lico, conto uma est\u00f3ria:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Era uma vez um pr\u00edncipe de voz maravilhosa que encantava a todas as criaturas que o ouviam. Seu canto era t\u00e3o belo que seduziu at\u00e9 a bruxa que morava na floresta negra e que por ele tamb\u00e9m se apaixonou. Mas, diferente de todos os outros, que se sentiam felizes s\u00f3 de ouvir, ela resolveu cantar tamb\u00e9m. Que lindo dueto faremos, ela pensou. E logo se p\u00f4s a cantar. Acontece, entretanto, que bruxas n\u00e3o conseguem cantar afinado. Bastava que ela abrisse a boca para que dela sa\u00edssem os sons mais bizarros, que soavam como o coaxar de sapos e r\u00e3s. A vaia foi geral. A bruxa se encheu de uma inveja raivosa e lan\u00e7ou contra ele o mais terr\u00edvel dos feiti\u00e7os: Se n\u00e3o posso cantar como voc\u00ea canta, farei com que voc\u00ea cante como eu canto. E o pr\u00edncipe foi transformado num sapo. Envergonhado de sua nova forma ele fugiu e se escondeu no fundo da lagoa, onde moravam os sapos e r\u00e3s. Ele ficou em tudo parecido aos batr\u00e1quios. Menos numa coisa. Continuou a cantar t\u00e3o bonito quanto sempre cantara. Mas desta vez quem n\u00e3o gostou do canto do novo sapo foram os sapos e as r\u00e3s que s\u00f3 sabiam coaxar. O canto novo soava aos seus ouvidos como coisa de outro mundo, que perturbava a concord\u00e2ncia de sua monotonia sapal. Severos, advertiram: Quem mora com r\u00e3s e sapos tem de coaxar como r\u00e3s e sapos. O pr\u00edncipe-sapo fez cessar o seu canto e n\u00e3o teve alternativas: teve de aprender a coaxar como todos os outros faziam. E tanto repetiu que acabou por se esquecer das can\u00e7\u00f5es de outrora. N\u00e3o, n\u00e3o se esqueceu n\u00e3o&#8230; Porque, quando dormia, ele se lembrava e ouvia a m\u00fasica antiga proibida que continuava a se cantar dentro dele. Mas quando ele acordava, se esquecia. Mas n\u00e3o de tudo. Ficava uma saudade indefin\u00edvel. Saudade, ele n\u00e3o sabia bem de qu\u00ea. Saudade que lhe dizia que ele estava longe, muito longe do lar&#8230;&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Este \u00e9 o resumo da psican\u00e1lise, tal como eu a entendo. \u00c9 uma est\u00f3ria em que se misturam o amor, a beleza e o feiti\u00e7o do esquecimento. Decepcionaram-se? Esperavam nomes famosos, conceitos complicados &#8211; e ao inv\u00e9s disto eu conto uma est\u00f3ria de fadas. Palavras para fazer as crian\u00e7as dormirem, dir\u00e3o. Mas eu acrescento: \u00c9 para fazer os adultos acordarem &#8230; A psican\u00e1lise \u00e9 uma luta para quebrar o feiti\u00e7o da palavra m\u00e1 que nos fez adormecer e esquecer a melodia bela. \u00c9 um ouvir atento de uma can\u00e7\u00e3o que s\u00f3 se ouve no intervalo do sil\u00eancio do coaxar dos sapos, e que nos chega como pequenos e fugazes fragmentos desconexos. \u00c9 uma batalha para nos fazer retornar ao nosso destino, inscrito nas funduras do mar da alma.<\/p>\n\n\n\n<p>Li os cl\u00e1ssicos. Mas foi pela palavra dos an\u00f4nimos contadores de est\u00f3rias de encantamento e no encantamento da palavra dos poetas que a letra morta ficou coisa viva. Melhor do que eu, diz estes segredos do corpo e da alma, Fernando Pessoa. Leia estes versos. Mas leia devagar. Leia de novo. \u00c9 do nosso mist\u00e9rio que ele fala. \u00c9 o nosso mist\u00e9rio que ele invoca: Cessa o teu canto! Cessa, que enquanto o ouvi, ouvia uma outra voz como que vindo nos interst\u00edcios do brando encanto com que o teu canto vinha at\u00e9 n\u00f3s. Ouvi-te e ouvi-a no mesmo tempo e diferentes juntas a cantar E a melodia que n\u00e3o havia se agora a lembro faz-me chorar.<\/p>\n\n\n\n<p>E ele pergunta: Foi tua voz encantamento que, sem querer, nesse momento vago acordou um ser qualquer alheio a n\u00f3s que nos falou?<\/p>\n\n\n\n<p>Ser\u00e1 isto? Em n\u00f3s mora um outro? Nos interst\u00edcios do coaxar, uma can\u00e7\u00e3o? Que outro \u00e9 este? Que anjo, ao ergueres a tua voz, sem o saberes, veio baixar sobre esta terra onde a alma erra, e com suas asas soprou as brasas de ignoto lar?<\/p>\n\n\n\n<p>Mora em n\u00f3s um outro que n\u00e3o se esquece da nossa verdade&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns pensam que psican\u00e1lise e poesia s\u00e3o coisas de loucos. Os sapos e as r\u00e3s, ao ouvirem as can\u00e7\u00f5es do pr\u00edncipe poeta, s\u00f3 poderiam ter dito: \u00c9 poeta! \u00c9 louco! &#8230; E trataram de cura-lo, educando-o para a realidade. Para eles ser normal \u00e9 coaxar como todos coaxam. Mas a alma, em meio \u00e0 ruidosa monotonia da vida, continua a ouvir uma voz que vem nos intervalos. Continua a chorar ao ouvir uma melodia que n\u00e3o havia. Continua a ouvir a fala de um estranho que mora em n\u00f3s, e que nos visita em sonhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Continua a ser queimada pelas brasas da saudade de um lar esquecido, do qual estamos exilados.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 bem poss\u00edvel que os sapos e as r\u00e3s vivam mais tranq\u00fcilos. Para eles todas as quest\u00f5es j\u00e1 est\u00e3o resolvidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas existe uma felicidade que s\u00f3 mora na beleza. E esta a gente s \u00f3 encontra na melodia que soa, esquecida e reprimida no fundo da alma<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sempre que respondo a algu\u00e9m que sou psicanalista, inevitavelmente vem a pergunta: &#8220;E o que \u00e9 a psican\u00e1lise?&#8221; Os mais sabidos, que j \u00e1 ouviram ou leram sobre o assunto, dispensam introdu\u00e7\u00f5es e v\u00e3o logo ao exame de posi\u00e7\u00f5es. &#8220;E qual \u00e9 a linha que o senhor segue?&#8221; Me d\u00e1 logo vontade de dizer que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_uag_custom_page_level_css":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-1916","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-historias","post-preview"],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"post-image":false},"uagb_author_info":{"display_name":"Rubens","author_link":"https:\/\/contandohistorias.com.br\/?author=1"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Sempre que respondo a algu\u00e9m que sou psicanalista, inevitavelmente vem a pergunta: &#8220;E o que \u00e9 a psican\u00e1lise?&#8221; Os mais sabidos, que j \u00e1 ouviram ou leram sobre o assunto, dispensam introdu\u00e7\u00f5es e v\u00e3o logo ao exame de posi\u00e7\u00f5es. &#8220;E qual \u00e9 a linha que o senhor segue?&#8221; Me d\u00e1 logo vontade de dizer que&hellip;","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/contandohistorias.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1916","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/contandohistorias.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/contandohistorias.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/contandohistorias.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/contandohistorias.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1916"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/contandohistorias.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1916\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1917,"href":"https:\/\/contandohistorias.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1916\/revisions\/1917"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/contandohistorias.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1916"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/contandohistorias.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1916"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/contandohistorias.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1916"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}