{"id":1936,"date":"2024-09-11T22:06:00","date_gmt":"2024-09-12T01:06:00","guid":{"rendered":"https:\/\/new.contandohistorias.com.br\/?p=1936"},"modified":"2024-09-11T22:06:03","modified_gmt":"2024-09-12T01:06:03","slug":"morrer-em-vida-e-fatal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/contandohistorias.com.br\/?p=1936","title":{"rendered":"Morrer em vida \u00e9 fatal"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>Martha Medeiros<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nunca esqueci de uma senhora que, ao responder por quanto tempo pretendia trabalhar, respondeu com toda a convic\u00e7\u00e3o: &#8220;At\u00e9 os 100 anos&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>O rep\u00f3rter, provocador, insistiu: &#8220;E depois?&#8221;. &#8220;U\u00e9, depois vou aproveitar a vida&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 de se comemorar que as pessoas aparentem ter menos idade do que realmente t\u00eam e que mantenham a vitalidade e o bom humor intactos &#8211; os dois grandes elixires da juventude. No entanto, cedo ou tarde (cada vez mais tarde, aleluia), envelheceremos todos. N\u00e3o escondo que isso me amedronta um pouco. Ainda n\u00e3o cheguei perto da terceira idade, mas chegarei, e \u00e0s vezes me angustio por antecipa\u00e7\u00e3o com a dor inevit\u00e1vel de um dia ter que contrapor meu eu de dentro com meu eu de fora.<\/p>\n\n\n\n<p>Rugas, tudo bem. Velhice n\u00e3o \u00e9 isso, conhe\u00e7o gente enrugada que est\u00e1 saindo da faculdade. A velhice tem armadilhas bem mais elaboradas do que vincos em torno dos olhos. Ela pressup\u00f5e uma desacelera\u00e7\u00e3o gradativa: descer escadas de forma mais cautelosa, ser tra\u00edda pela mem\u00f3ria com mais regularidade, ter o corpo mais fl\u00e1cido, menos frescor nos gestos, os \u00f3rg\u00e3os internos n\u00e3o respondendo com tanta presteza, o f\u00f4lego faltando por causa de uma ladeira \u00e0 toa, ainda que isso nem sempre se cumpra: h\u00e1 muitos homens e mulheres que al\u00e9m de um \u00f3timo aspecto, mant\u00eam uma sa\u00fade de pugilista. A compara\u00e7\u00e3o com os pugilistas n\u00e3o \u00e9 de todo absurda: \u00e9 de briga mesmo que estamos falando. A briga contra o olhar do outro.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitos se queixam da pior das invisibilidades: &#8220;N\u00e3o me olham mais com desejo&#8221;. Ouvi uma mulher bel\u00edssima dizer isso num programa de tev\u00ea, e eu pensei: n\u00e3o pode ser por causa da embalagem, que \u00e9 t\u00e3o charmosa. Deve estar lhe faltando ousadia, agilidade de pensamento, a mesma gana de viver que tinha aos 30 ou 40. Ela deve estar se boicotando de alguma forma, porque s\u00f3 cuidar da embalagem n\u00e3o adianta, o produto interno \u00e9 que precisa seguir na validade.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem viu o filme Fatal deve lembrar do professor sessent\u00e3o, vivido por Ben Kingsley, que se apaixona por uma linda e jovem aluna (Pen\u00e9lope Cruz) e passa a ter com ela um envolvimento que lhe serve como tubo de oxig\u00eanio e ao mesmo tempo o faz confrontar-se com a pr\u00f3pria finitude. No livro que deu origem ao filme (O Animal Agonizante, de Philip Roth), h\u00e1 uma frase que resume essa comovente ansiedade de vida: &#8220;Nada se aquieta, por mais que a gente envelhe\u00e7a&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa \u00e9 a ardileza da passagem do tempo: ela n\u00e3o te sossega por dentro da mesma forma que te desgasta por fora. O corpo decai com mais ligeireza que o esp\u00edrito, que, ao contr\u00e1rio, costuma rejuvenescer quando a maturidade se estabelece.<\/p>\n\n\n\n<p>Como compensar as perdas inevit\u00e1veis que a idade traz? Usando a cabe\u00e7a: em vez de lutarmos para n\u00e3o envelhecer, devemos lutar para n\u00e3o emburrecer. Seguir trabalhando, viajando, lendo, se relacionando, se interessando e se renovando. Porque se emburrecermos, a\u00ed sim, n\u00e3o restar\u00e1 mais nada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Martha Medeiros Nunca esqueci de uma senhora que, ao responder por quanto tempo pretendia trabalhar, respondeu com toda a convic\u00e7\u00e3o: &#8220;At\u00e9 os 100 anos&#8221;. 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