{"id":1946,"date":"2024-09-12T20:29:51","date_gmt":"2024-09-12T23:29:51","guid":{"rendered":"https:\/\/new.contandohistorias.com.br\/?p=1946"},"modified":"2024-09-12T20:29:55","modified_gmt":"2024-09-12T23:29:55","slug":"ser-avo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/contandohistorias.com.br\/?p=1946","title":{"rendered":"Ser av\u00f3 &#8230;"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>Rachel de Queiroz<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Quarenta anos, quarenta e cinco. Voc\u00ea sente, obscuramente, nos seus ossos, que o tempo passou mais depressa do que esperava. N\u00e3o lhe incomoda envelhecer, \u00e9 claro. A velhice tem suas alegrias, as sua compensa\u00e7\u00f5es &#8211; todos dizem isso, embora voc\u00ea pessoalmente, ainda n\u00e3o as tenha descoberto &#8211; mas acredita. Todavia, tamb\u00e9m obscuramente, tamb\u00e9m sentida nos seus ossos, \u00e0s vezes lhe d\u00e1 aquela nostalgia danada. N\u00e3o de amores nem de paix\u00e3o; a do\u00e7ura da meia-idade n\u00e3o lhe exige essas efervesc\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p>A saudade \u00e9 de alguma coisa que voc\u00ea tinha e lhe fugiu sutilmente junto com a mocidade. Bracinhos de crian\u00e7a no seu pesco\u00e7o. Choro de crian\u00e7a. O tumulto da presen\u00e7a infantil ao seu redor. Meu Deus, para onde foram as suas crian\u00e7as? Naqueles adultos cheios de problemas, que hoje s\u00e3o seus filhos, que t\u00eam sogro e sogra, c\u00f4njuge, emprego, apartamento e presta\u00e7\u00f5es, voc\u00ea n\u00e3o encontra de modo algum as suas crian\u00e7as perdidas. S\u00e3o homens e mulheres &#8211; n\u00e3o s\u00e3o mais aqueles que voc\u00ea recorda.<\/p>\n\n\n\n<p>E ent\u00e3o, um belo dia, sem que lhe fosse imposta nenhuma das agonias da gesta\u00e7\u00e3o ou do parto, o doutor lhe p\u00f5e nos bra\u00e7os um menino. Completamente gr\u00e1tis &#8211; nisso \u00e9 que est\u00e1 a maravilha. Sem dores, sem choro, aquela criancinha da sua ra\u00e7a, da qual voc\u00ea morria de saudades, s\u00edmbolo ou penhor da mocidade perdida. Pois aquela criancinha, longe de ser um estranho, \u00e9 um menino que se lhe \u00e9 &#8220;devolvido&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>E o espantoso \u00e9 que todos lhe reconhecem o seu direito sobre ele, ou pelo menos seu direito de o amar com extravag\u00e2ncia; ao contr\u00e1rio, causaria esc\u00e2ndalo ou decep\u00e7\u00e3o, se voc\u00ea n\u00e3o o acolhesse imediatamente com todo aquele amor que h\u00e1 anos se acumulava, desdenhado, no seu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Sim, tenho a certeza de que a vida nos d\u00e1 os netos para nos compensar de todas as mutila\u00e7\u00f5es trazidas pela velhice. S\u00e3o amores novos, profundos e felizes, que v\u00eam ocupar aquele lugar vazio, nost\u00e1lgico, deixado pelos arroubos juvenis.<\/p>\n\n\n\n<p>Ali\u00e1s, desconfio muito de que netos s\u00e3o melhores que namorados, pois que as viol\u00eancias da mocidade produzem mais l\u00e1grimas do que enlevos. Se o Doutor Fausto fosse av\u00f4, trocaria calmamente dez Margaridas por um neto&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, nem tudo s\u00e3o flores no caminho da av\u00f3. H\u00e1, acima de tudo, o entrave maior, a grande rival: a m\u00e3e.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o importa que ela, em si, seja sua filha. N\u00e3o deixa por isso de ser a m\u00e3e do neto. N\u00e3o importa que ela hipocritamente, ensine a crian\u00e7a a lhe dar beijos a lhe chamar de &#8220;vovozinha&#8221; e lhe conte que de noite, \u00e0s vezes, ele de repente acorda e pergunta por voc\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o lisonjas, nada mais. No fundo ela \u00e9 rival mesmo. Rigorosamente, nas suas posi\u00e7\u00f5es respectivas, a m\u00e3e e a av\u00f3 representam, em rela\u00e7\u00e3o ao neto, pap\u00e9is muito semelhantes ao da esposa e da amante nos tri\u00e2ngulos conjugais.<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00e3e tem todas as vantagens da domesticidade e da presen\u00e7a constante. Dorme com ele, d\u00e1-lhe banho, veste-o, embala-o de noite.<\/p>\n\n\n\n<p>Contra si tem a fadiga da rotina, a obriga\u00e7\u00e3o de educar e o \u00f4nus de castigar. J\u00e1 a av\u00f3 n\u00e3o tem direitos legais, mas oferece a sedu\u00e7\u00e3o do romance e do imprevisto. Mora em outra casa. Traz presentes. Faz coisas n\u00e3o programadas. Leva a passear, &#8220;n\u00e3o ralha nunca&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Deixa lambuzar de pirulito. N\u00e3o tem a menor pretens\u00e3o pedag\u00f3gica. \u00c9 a confidente das horas de ressentimento, o \u00faltimo recurso dos momentos de opress\u00e3o, a secreta aliada nas crises de rebeldia.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma noite passada em sua casa \u00e9 uma deliciosa fuga \u00e0 rotina, tem todos os encantos de uma aventura. L\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 linha divis\u00f3ria entre o proibido e o permitido, antes uma maravilhosa subvers\u00e3o da disciplina.<\/p>\n\n\n\n<p>Dormir sem lavar as m\u00e3os, recusar a sopa e comer croquetes, tomar caf\u00e9, mexer na lou\u00e7a, fazer trem com as cadeiras na sala, destruir revistas, derramar \u00e1gua no gato, acender e apagar a luz el\u00e9trica mil vezes se quiser &#8211; e at\u00e9 fingir que est\u00e1 discando o telefone. Riscar a parede com l\u00e1pis dizendo que foi sem querer &#8211; e ser acreditado!<\/p>\n\n\n\n<p>Fazer m\u00e1-cria\u00e7\u00e3o aos gritos e em vez de apanhar, ir para os bra\u00e7os do av\u00f3, e l\u00e1 escutar os debates sobre os perigos e os erros da educa\u00e7\u00e3o moderna.<\/p>\n\n\n\n<p>Sabe-se que, no reino dos c\u00e9us, o crist\u00e3o defunto desfruta os mais requintados prazeres da alma. Por\u00e9m n\u00e3o estar\u00e3o muito acima da alegria de sair de m\u00e3os dadas com o seu neto, numa manh\u00e3 de sol.<\/p>\n\n\n\n<p>E olhe que aqui embaixo voc\u00ea ainda tem o direito de sentir orgulho, que aos bem-aventurados ser\u00e1 defeso. Meu Deus, o olhar das outras av\u00f3s com seus filhotes magricelas ou obesos, a morrerem de inveja do seu maravilhoso neto! E quando voc\u00ea vai embalar o neto e ele, tonto de sono abre um olho, lhe reconhece, sorri e diz &#8220;V\u00f3&#8221;, seu cora\u00e7\u00e3o estala de felicidade, como p\u00e3o ao forno.<\/p>\n\n\n\n<p>E o misterioso entendimento que h\u00e1 entre av\u00f3 e neto, na hora em que a m\u00e3e castiga, e ele olha para voc\u00ea, sabendo que, se voc\u00ea n\u00e3o ousa intervir abertamente, pelo menos lhe d\u00e1 sua incondicional cumplicidade.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 as coisas negativas se viram em alegrias quando se intrometem entre av\u00f3 e neto: o bibel\u00f4 de estima\u00e7\u00e3o que se quebrou porque o menino &#8211; involuntariamente! &#8211; bateu com a bola nele. Est\u00e1 quebrado e remendado, mas enriquecido com preciosas recorda\u00e7\u00f5es: os cacos na m\u00e3ozinha, os olhos arregalados, o beicinho pronto para o choro; e depois o sorriso malandro e aliviado porque &#8220;ningu\u00e9m&#8221; se zangou, o culpado foi a bola mesma, n\u00e3o foi, v\u00f3? Era um simples boneco que custou caro. Hoje \u00e9 rel\u00edquia: n\u00e3o tem dinheiro que pague.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rachel de Queiroz Quarenta anos, quarenta e cinco. Voc\u00ea sente, obscuramente, nos seus ossos, que o tempo passou mais depressa do que esperava. N\u00e3o lhe incomoda envelhecer, \u00e9 claro. A velhice tem suas alegrias, as sua compensa\u00e7\u00f5es &#8211; todos dizem isso, embora voc\u00ea pessoalmente, ainda n\u00e3o as tenha descoberto &#8211; mas acredita. 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