{"id":1948,"date":"2024-09-12T20:35:35","date_gmt":"2024-09-12T23:35:35","guid":{"rendered":"https:\/\/new.contandohistorias.com.br\/?p=1948"},"modified":"2024-09-12T20:35:38","modified_gmt":"2024-09-12T23:35:38","slug":"preconceito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/contandohistorias.com.br\/?p=1948","title":{"rendered":"Preconceito"},"content":{"rendered":"\n<p>A mais brilhante defini\u00e7\u00e3o de preconceito de que j\u00e1 soube veio-me de Voltaire, em seu Dicion\u00e1rio Filos\u00f3fico: &#8220;preconceito \u00e9 uma opini\u00e3o sem julgamento&#8221;, ou seja, adquirimos uma opini\u00e3o qualquer, n\u00e3o verificamos sua raz\u00e3o de ser e passamos a acreditar naquilo, simplesmente.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltaire disse isto por volta de 1760. Passados mais uns cento e oitenta anos, em meados do s\u00e9culo vinte Einstein lastimou que &#8220;hoje, infelizmente, \u00e9 mais f\u00e1cil partir um \u00e1tomo ao meio do que quebrar um preconceito&#8221;. Pois, somando-se as coisas, conclui-se que preconceito deve realmente ser algo indestrut\u00edvel, ou perto disso.<\/p>\n\n\n\n<p>T\u00e3o indestrut\u00edvel, que o preconceito dos nazistas contra os judeus ainda perdura no cora\u00e7\u00e3o de muita gente, mesmo ap\u00f3s tanta propaganda contr\u00e1ria. E dos judeus contra os \u00e1rabes, e dos \u00e1rabes contra os judeus, e dos brancos contra os negros, e dos negros contra os brancos, e dos que s\u00e3o contra os mulatos, contra os cafusos, os mamelucos, os letrados, os iletrados, as mulheres, os homens, os advogados, os pol\u00edticos, os publicit\u00e1rios, os jornalistas, os nordestinos, os a\u00e7ougueiros, os torneiros-mec\u00e2nicos (sim, porque, sem d\u00favida, haver\u00e1 algu\u00e9m cultivando preconceitos contra a\u00e7ougueiros e torneiros-mec\u00e2nicos), os velhos, as crian\u00e7as, os gays e o escambau. Existe preconceito at\u00e9 contra o escambau.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim como n\u00e3o tem fronteiras e nem escolhe ra\u00e7a, faixa et\u00e1ria ou sexo, o preconceito tamb\u00e9m n\u00e3o escolhe porta-vozes ou causas. Ele existe dentro de todos n\u00f3s, tem diferentes intensidades. N\u00e3o tem fun\u00e7\u00e3o nem prop\u00f3sito. Apenas existe, desde que o ambiente seja favor\u00e1vel ao desenvolvimento de um racioc\u00ednio qualquer, um sofisma destes capazes de fazer-nos acreditar no il\u00f3gico. Algo como a prestidigita\u00e7\u00e3o. Nada al\u00e9m de opini\u00f5es sem julgamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Nunca vi alguma pesquisa sobre onde o preconceito ocorre com maior ou menor incid\u00eancia. Talvez os americanos, que adoram pesquisar de tudo, j\u00e1 a tenham feito, mas nunca ouvi falar dela. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil concluir que o preconceito n\u00e3o \u00e9 privil\u00e9gio de um ou outro segmento da popula\u00e7\u00e3o. Nada disso. Ele existe em todo lugar, em todo tempo, em todo tudo! Tem em casa, tem no futebol, tem nas esta\u00e7\u00f5es de trem.<\/p>\n\n\n\n<p>E tem, claro, nas empresas; porque existem pessoas nas empresas. E pessoas s\u00e3o a \u00fanica condi\u00e7\u00e3o ambiental indispens\u00e1vel para a reprodu\u00e7\u00e3o do preconceito. Nos \u00faltimos anos surgiu, por exemplo, uma esp\u00e9cie de preconceito no meio empresarial, mais especificamente na administra\u00e7\u00e3o de recursos humanos, que \u00e9 a rejei\u00e7\u00e3o a priori do profissional com mais de quarenta anos de idade.<\/p>\n\n\n\n<p>O quarent\u00e3o, candidato a uma vaga qualquer, pode e deve desistir de antem\u00e3o \u00e0 sua pretens\u00e3o de coloca\u00e7\u00e3o profissional. Ora, exatamente porque ele j\u00e1 tem mais de quarenta anos. E o que isto significa? Nem Deus sabe. E, claro, muito menos um certo tipo de recrutador: papagaio de repeti\u00e7\u00e3o, este recrutador s\u00f3 sabe que o candidato tem mais de quarenta anos e, por isso mesmo, n\u00e3o pode ser contratado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 a pol\u00edtica da empresa, ora! Mas se perguntarmos a raz\u00e3o de ser desta pol\u00edtica da empresa (ora!), ele, aut\u00f4mato burocratizado n\u00e3o saber\u00e1 responder. Basta que ele saiba, e isto o satisfaz plenamente, que a pol\u00edtica da empresa \u00e9 esta. E ponto. Para ele, pol\u00edticas empresariais s\u00e3o, por defini\u00e7\u00e3o, indiscut\u00edveis (mas que cara teimoso voc\u00ea \u00e9! Pare de querer discutir a pol\u00edtica da empresa!).<\/p>\n\n\n\n<p>Gente assim cabe com exatid\u00e3o de mecanismo de rel\u00f3gio su\u00ed\u00e7o na defini\u00e7\u00e3o T\u00cdTERE PROCESSION\u00c1RIO, criada por Laurence Peter, a maior autoridade mundial em estudos sobre a incompet\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>T\u00edtere \u00e9 sin\u00f4nimo de fantoche, marionete; procession\u00e1rio \u00e9 aquele que segue, apenas segue. H\u00e1, para exemplificar, uma esp\u00e9cie de larva que segue a da frente. Colocadas em c\u00edrculos, estas larvas procession\u00e1rias ficam dando infinitas voltas umas atr\u00e1s das outras at\u00e9 morrerem de fome, mesmo quando, como se fez em v\u00e1rias experi\u00eancias de laborat\u00f3rio, havia alimento em abund\u00e2ncia ao alcance de todas.<\/p>\n\n\n\n<p>O t\u00edtere procession\u00e1rio, portanto, \u00e9 um verme que apenas segue e, assim, se manipula com facilidade. Como sabemos, h\u00e1 muitos deles nas empresas e demais organiza\u00e7\u00f5es humanas. Tem da portaria at\u00e9 a presid\u00eancia. Por\u00e9m, quando na administra\u00e7\u00e3o de recursos humanos, passam por uma metamorfose peculiar e de origem desconhecida para assumirem a forma mais letal que se pode verificar na esp\u00e9cie dos t\u00edteres procession\u00e1rios: a forma que age sob est\u00edmulo exclusivo do preconceito, aquela opini\u00e3o sem julgamento \u00e0 qual j\u00e1 nos referimos, com poder de determinar a vida de pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>Visto que o t\u00edtere procession\u00e1rio n\u00e3o pensa, ele \u00e9 evidentemente incapaz de julgar. E d\u00e1-se a um sujeito destes o tal &#8220;poder de vida e de morte&#8221; sobre profissionais que cometeram o terr\u00edvel engano de n\u00e3o contrariar a natureza das coisas e, imprevidentes, deixaram o tempo passar, atingindo os quarenta anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Pela l\u00f3gica titeriana-processional, nada mais justo que punir estes ineptos que n\u00e3o combateram com vigor o passar dos anos. E ousaram envelhecer. J\u00e1 que o profissional n\u00e3o foi capaz de fixar-se na idade dos trinta anos, tamb\u00e9m n\u00e3o ser\u00e1 capaz de fixar-se na empresa ou num projeto qualquer. Corte-se-lhe, pois, a cabe\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas os sujeitos que mudaram o mundo o fizeram, em sua esmagadora maioria, ap\u00f3s completarem bem mais do que quarenta anos. Leonardo da Vinci, Isaac Newton, Gutemberg, Sidarta Gautama (vulgo Buda), Churchill, De Gaule, Henry Ford, Mahatma Gandhi, Roger Mila (que, at\u00e9 uns cinq\u00fcenta anos, jogou um bol\u00e3o pela sele\u00e7\u00e3o de Camar\u00f5es)&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>D\u00ea uma olhadinha em qualquer livro de hist\u00f3ria e confira. S\u00f3 Jesus Cristo n\u00e3o conseguiu; certamente porque n\u00e3o lhe deram chance de mostrar do que ele seria capaz ap\u00f3s os quarenta (se aos trinta e tr\u00eas j\u00e1 era um terror, imagina aos quarenta!). Talvez os romanos fossem os precursores desta atual tend\u00eancia da administra\u00e7\u00e3o titerianoprocessional de recursos humanos: &#8220;Est\u00e1 a caminho dos quarenta?!? Crucifica o cara!&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Falei com um executivo europeu e ele disse que, l\u00e1 no velho continente, idade n\u00e3o \u00e9 fator de import\u00e2ncia crucial. O que conta \u00e9 o mix de vontade-compet\u00eancia-experi\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, estamos, no Brasil, criando know-how para exporta\u00e7\u00e3o. Preconceito globalizado, mas made in Brazil! Nossos preconceitos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 idade nos fazem esquecer de sujeitos como Lee Iacocca, Antonio Erm\u00edrio de Morais e mais um punhado de sessent\u00f5es, setent\u00f5es e oitent\u00f5es que, ainda hoje, est\u00e3o \u00e0 frente de seus barcos, s\u00e3o produtivos, arrojados, geram empregos e fazem suas empresas dar muito lucro.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, sobre os idiotas que recusam um profissional por quest\u00e3o et\u00e1ria, estes n\u00e3o poder\u00e3o jamais ler algum texto primoroso que Manuel Bandeira ou Cora Coralina, ou Goethe ou Ernest Hemingway, tenham escrito, idosos, no final de suas vidas: por coer\u00eancia, devem recusar tudo o que estes e outros tantos velhos desprez\u00edveis tenham produzido. A prop\u00f3sito, quando escreveu seu Dicion\u00e1rio Filos\u00f3fico, Voltaire j\u00e1 tinha uns oitenta anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m convenha que algu\u00e9m conte a estes sujeitos (por pura sordidez e maldade) que logo, logo eles mesmo chegar\u00e3o aos&#8230; quarenta!<\/p>\n\n\n\n<p>Esta gente que cultiva opini\u00f5es sem julgamento o faz porque, evidentemente, n\u00e3o \u00e9 capaz de julgar coisa alguma. Assim sendo, tamb\u00e9m n\u00e3o ser\u00e3o capazes de tomar, com equidade, alguma decis\u00e3o que exija mais do que alguns neur\u00f4nios e racioc\u00ednios prim\u00e1rios. Devemos desprez\u00e1-los, embora com compaix\u00e3o. E devemos, por pura l\u00f3gica, desprezar tamb\u00e9m, e principalmente, quem lhes confiou o cargo que exercem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A mais brilhante defini\u00e7\u00e3o de preconceito de que j\u00e1 soube veio-me de Voltaire, em seu Dicion\u00e1rio Filos\u00f3fico: &#8220;preconceito \u00e9 uma opini\u00e3o sem julgamento&#8221;, ou seja, adquirimos uma opini\u00e3o qualquer, n\u00e3o verificamos sua raz\u00e3o de ser e passamos a acreditar naquilo, simplesmente. Voltaire disse isto por volta de 1760. 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