{"id":2179,"date":"2024-09-17T22:25:43","date_gmt":"2024-09-18T01:25:43","guid":{"rendered":"https:\/\/contandohistorias.com.br\/?p=2179"},"modified":"2024-09-17T22:28:51","modified_gmt":"2024-09-18T01:28:51","slug":"o-grande-dom-da-minha-mae","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/contandohistorias.com.br\/?p=2179","title":{"rendered":"O grande dom da minha m\u00e3e"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>Marie Ragghiandi<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Eu tinha dez anos de idade quando minha m\u00e3e teve paralisia, causada por um tumor na espinha dorsal. Antes disso ela havia sido uma mulher vibrante e vigorosa, de tal maneira ativa que a maioria das pessoas achava impressionante.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo quando era pequena, eu ficava admirada com suas realiza\u00e7\u00f5es e por sua beleza. Por\u00e9m, quando tinha trinta e um anos, sua vida mudou. Assim como a minha.<\/p>\n\n\n\n<p>Do dia para a noite, parecia, ela passou a ficar deitada de costas em uma cama de hospital. Um tumor benigno a havia incapacitado, mas eu era jovem demais para compreender a ironia da palavra &#8220;benigno&#8221;, pois ela nunca mais seria a mesma.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda tenho imagens v\u00edvidas dela antes da paralisia. Ela sempre foi greg\u00e1ria e recebia muitas visitas. Com freq\u00fc\u00eancia passava horas preparando canap\u00e9s e enchendo a casa de flores, que colhia frescas no jardim cultivado ao lado da casa.<\/p>\n\n\n\n<p>Selecionava as m\u00fasicas populares da \u00e9poca e rearrumava a mob\u00edlia a fim de abrir espa\u00e7o para que os amigos pudessem se entregar \u00e0 dan\u00e7a. Na realidade, era minha m\u00e3e quem mais gostava de dan\u00e7ar.<\/p>\n\n\n\n<p>Hipnotizada, eu a observava se vestir para as festividades noturnas. Mesmo hoje em dia ainda me lembro de nosso vestido favorito, com sua saia preta e corpete de renda azul-marinho, o contraste perfeito para seu cabelo louro. Fiquei t\u00e3o emocionada quanto ela, no dia em que trouxe para casa uns sapatos de salto alto de renda preta e, naquela noite, minha m\u00e3e certamente era a mulher mais bonita do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu acreditava que ela podia fazer qualquer coisa, fosse jogar t\u00eanis (ganhara campeonatos na universidade), costurar (fazia todas as nossas roupas), tirar fotografias (ganhou um concurso nacional), escrever (era colunista de um jornal) ou cozinhar (especialmente pratos espanh\u00f3is para meu pai).<\/p>\n\n\n\n<p>Agora, apesar de n\u00e3o poder fazer nenhuma dessas coisas, ela encarava sua doen\u00e7a com o mesmo entusiasmo que tinha em rela\u00e7\u00e3o a tudo o mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Palavras como &#8220;deficiente&#8221; e &#8220;fisioterapia&#8221; tornaram-se parte de um estranho mundo novo no qual entramos juntas, e as bolas de borracha para crian\u00e7as que ela se esfor\u00e7ava para apertar adquiriram um simbolismo que jamais haviam possu\u00eddo.<\/p>\n\n\n\n<p>Gradualmente, passei a ajudar nos cuidados com a m\u00e3e que sempre cuidara de mim. Aprendi a cuidar do meu pr\u00f3prio cabelo &#8211; e do dela. Eventualmente, tornou-se rotina lev\u00e1-la na cadeira de rodas at\u00e9 a cozinha, onde ela me ensinava a arte de descascar cenouras e batatas e como esfregar alho e sal e peda\u00e7os de manteiga em uma boa carne assada.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando, pela primeira vez, ouvi falarem em uma bengala, opus-me:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o quero que a minha linda m\u00e3e use uma bengala!<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a \u00fanica coisa que ela disse foi:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 melhor voc\u00ea me ver andando com uma bengala do que n\u00e3o me ver andando de maneira alguma?<\/p>\n\n\n\n<p>Cada conquista era um marco para n\u00f3s duas: a m\u00e1quina de escrever el\u00e9trica, o carro com c\u00e2mbio e freio autom\u00e1ticos, sua volta \u00e0 universidade, onde se diplomou em Educa\u00e7\u00e3o Especial.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela aprendeu tudo o que podia sobre as pessoas com defici\u00eancias e acabou fundando um grupo ativista de apoio chamado &#8220;Os Incapacitados&#8221;. Certo dia, sem ter falado muito de antem\u00e3o, ela me levou e a meus irm\u00e3os a uma reuni\u00e3o dos Incapacitados. Eu nunca vira tantas pessoas com tantas defici\u00eancias. Voltei para casa, silenciosamente introspectiva, pensando em como n\u00f3s realmente t\u00ednhamos sorte.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela nos levou muitas vezes depois disso e, eventualmente, a vis\u00e3o de um homem ou uma mulher sem pernas ou bra\u00e7os n\u00e3o nos chocava mais. Minha m\u00e3e tamb\u00e9m nos apresentou a v\u00edtimas de paralisia cerebral, enfatizando que a maioria era t\u00e3o inteligente quanto n\u00f3s, talvez mais. E nos ensinou a nos comunicarmos com os retardados mentais, mostrando como eles eram freq\u00fcentemente mais afetuosos, comparados \u00e0s pessoas normais. Durante tudo isso, meu pai continuou a am\u00e1-la e apoi\u00e1-la.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando eu estava com onze anos, minha m\u00e3e me contou que ela e papai iriam ter um beb\u00ea. Muito depois, eu soube que seus m\u00e9dicos tinham insistido para que ela fizesse um aborto (terap\u00eautico) &#8211; uma op\u00e7\u00e3o \u00e0 qual ela resistiu veementemente.<\/p>\n\n\n\n<p>Logo, \u00e9ramos m\u00e3es juntas, j\u00e1 que virei m\u00e3e adotiva de minha irm\u00e3, Mary Therese.<\/p>\n\n\n\n<p>Em pouqu\u00edssimo tempo aprendi a trocar fraldas, banh\u00e1-la e aliment\u00e1-la. Ainda que mam\u00e3e tenha mantido a disciplina maternal, para mim foi um passo gigantesco al\u00e9m da brincadeira com bonecas.<\/p>\n\n\n\n<p>Um momento se destaca mesmo hoje em dia: o dia em que Mary Therese, na \u00e9poca com dois anos, caiu e esfolou o joelho, abriu-se em prantos e passou correndo pelos bra\u00e7os estendidos de minha m\u00e3e para os meus. Tarde demais, eu vislumbrei a fa\u00edsca de dor no rosto de mam\u00e3e, mas tudo o que ela disse foi:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00c9 natural que ela corra para voc\u00ea, pois voc\u00ea toma conta dela t\u00e3o bem. . .<\/p>\n\n\n\n<p>Como minha m\u00e3e aceitava sua condi\u00e7\u00e3o com tanto otimismo, raramente me senti triste ou ressentida. Mas nunca irei esquecer o dia em que minha complac\u00eancia foi destru\u00edda.<\/p>\n\n\n\n<p>Muito tempo depois da imagem de minha m\u00e3e em salto agulha ter se dissipado da minha consci\u00eancia, houve uma festa em nossa casa. A essa altura eu era adolescente, e vi minha sorridente m\u00e3e sentada na lateral, olhando seus amigos dan\u00e7arem, e fui atingida pela cruel ironia de suas limita\u00e7\u00f5es f\u00edsicas.<\/p>\n\n\n\n<p>Subitamente, fui transportada de volta \u00e0 \u00e9poca de minha primeira inf\u00e2ncia e a vis\u00e3o de minha m\u00e3e dan\u00e7ando radiante estava novamente diante de mim.<\/p>\n\n\n\n<p>Imaginei se mam\u00e3e se lembraria tamb\u00e9m. Espontaneamente, andei em sua dire\u00e7\u00e3o e ent\u00e3o vi que, apesar de estar sorrindo, seus olhos estavam marejados de l\u00e1grimas.<\/p>\n\n\n\n<p>Corri para fora do aposento e para o meu quarto, enterrei meu rosto no travesseiro e chorei copiosamente &#8211; todas as l\u00e1grimas que ela jamais chorara. Pela primeira vez, eu me enraiveci contra Deus e contra a vida e suas injusti\u00e7as para com a minha m\u00e3e.<\/p>\n\n\n\n<p>A lembran\u00e7a do sorriso brilhante de minha m\u00e3e permaneceu comigo. Daquele momento em diante, enxerguei sua habilidade de superar a perda de tantas batalhas anteriores e seu \u00edmpeto em olhar para a frente &#8211; coisas que eu tomava por certas &#8211; como um grande mist\u00e9rio e uma poderosa inspira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando eu estava crescida e comecei a trabalhar com o sistema penal, mam\u00e3e se interessou em trabalhar com os prisioneiros. Ela telefonou para a penitenci\u00e1ria e pediu para dar aulas de Reda\u00e7\u00e3o Criativa para os detentos. Lembro-me de como eles se amontoavam em volta dela sempre que ela chegava e pareciam se a agarrar a cada palavra sua, como eu fizera na inf\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo quando n\u00e3o podia mais se deslocar at\u00e9 a pris\u00e3o, ela freq\u00fcentemente se correspondia com v\u00e1rios detentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dia pediu-me para enviar uma carta para um prisioneiro, &#8220;Waymon&#8221;. Perguntei se poderia l\u00ea-la antes e ela concordou, sem perceber, eu acho, o quanto aquilo seria revelador para mim. Dizia:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Quero que saiba que tenho pensado em voc\u00ea com freq\u00fc\u00eancia desde que recebi sua carta. Voc\u00ea mencionou como \u00e9 dif\u00edcil estar preso atr\u00e1s das grades e meu cora\u00e7\u00e3o se une ao seu. Mas quando voc\u00ea disse que eu n\u00e3o imagino o que \u00e9 estar na pris\u00e3o, senti-me compelida a dizer-lhe que est\u00e1 errado.<\/p>\n\n\n\n<p>Existem diferentes tipos de liberdade, Waymon, diferentes tipos de pris\u00f5es. \u00c0s vezes, nossas pris\u00f5es s\u00e3o auto-impostas.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando, com a idade de trinta e um anos, levantei-me um dia para descobrir que estava completamente paralisada, senti-me em uma armadilha &#8211; dominada pela sensa\u00e7\u00e3o de estar presa dentro de um corpo que n\u00e3o mais me permitiria correr atrav\u00e9s de uma campina, dan\u00e7ar ou carregar minha filha nos bra\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p>Fiquei deitada ali durante muito tempo, lutando para chegar a um acordo com minha enfermidade, tentando n\u00e3o sucumbir em autopiedade. Perguntei-me se, na verdade, valeria a pena viver nessas condi\u00e7\u00f5es, se n\u00e3o seria melhor morrer.<\/p>\n\n\n\n<p>Pensei a respeito desse conceito de pris\u00e3o, pois me parecia que havia perdido tudo o que importava na vida. Eu estava pr\u00f3xima do desespero.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, ent\u00e3o, um dia me ocorreu que, na realidade ainda havia op\u00e7\u00f5es abertas para mim e que eu tinha a liberdade de escolher entre elas. Ser\u00e1 que eu iria sorrir quando visse meus filhos de novo, ou iria chorar? Iria zangar-me em Deus, ou iria pedir que Ele fortalecesse minha f\u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p>Em outras palavras, o que eu iria fazer com o livre-arb\u00edtrio que Ele havia me dado e que ainda era meu?<\/p>\n\n\n\n<p>Tomei a decis\u00e3o de lutar, enquanto estivesse viva, para viver o mais plenamente poss\u00edvel, para procurar tornar minhas experi\u00eancias aparentemente negativas em experi\u00eancias positivas, procurar formas de transcender minhas limita\u00e7\u00f5es f\u00edsicas expandindo minhas fronteiras mentais e espirituais.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu podia escolher entre ser um exemplo positivo para meus filhos ou podia murchar e morrer emocional assim como fisicamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Existem muitos tipos de liberdade, Waymon. Quando perdemos um tipo de liberdade, temos que simplesmente procurar por outro. Voc\u00ea e eu somos aben\u00e7oados com a liberdade de escolher entre bons livros, que iremos ler, quais deixaremos de lado.<\/p>\n\n\n\n<p>Voc\u00ea pode olhar para as suas grades ou pode olhar atrav\u00e9s delas. Voc\u00ea pode ser um exemplo para prisioneiros mais jovens ou pode se misturar com os encrenqueiros.<\/p>\n\n\n\n<p>Voc\u00ea pode amar a Deus e buscar conhec\u00ea-Lo ou pode virar as costas para Ele.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 certo ponto, Waymon, estamos nisso juntos. &#8220;<\/p>\n\n\n\n<p>Quando finalmente terminei de ler a carta, minha vis\u00e3o estava borrada pelas l\u00e1grimas. Ainda assim, pela primeira vez, eu enxerguei minha m\u00e3e com clareza.<\/p>\n\n\n\n<p>E eu a entendi.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marie Ragghiandi Eu tinha dez anos de idade quando minha m\u00e3e teve paralisia, causada por um tumor na espinha dorsal. 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