{"id":229,"date":"2024-08-09T23:00:00","date_gmt":"2024-08-10T02:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/new.contandohistorias.com.br\/?p=229"},"modified":"2024-08-09T23:00:06","modified_gmt":"2024-08-10T02:00:06","slug":"eu-nao-gostava-do-papa-joao-paulo-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/contandohistorias.com.br\/?p=229","title":{"rendered":"Eu n\u00e3o gostava do papa Jo\u00e3o Paulo II"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Arnaldo Jabor<\/em><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-rich is-provider-incorporar-manipulador wp-block-embed-incorporar-manipulador\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-229-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/www.contandohistorias.com.br\/mp3\/2004115.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.contandohistorias.com.br\/mp3\/2004115.mp3\">https:\/\/www.contandohistorias.com.br\/mp3\/2004115.mp3<\/a><\/audio>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p>Escrevo enquanto vejo a morte do papa na TV. E me espanto com a imensa emo\u00e7\u00e3o mundial. Espanto-me tamb\u00e9m comigo mesmo: &#8220;Como eu estou sozinho!&#8221; &#8211; pensei.<\/p>\n\n\n\n<p>Percebi que tinha de saber mais sobre mim, eu, sozinho, sem f\u00e9 nenhuma, no meio deste oceano de pessoas rezando no Ocidente e Oriente. Meu pai, engenheiro e militar, me passou dois ensinamentos: ele era ateu e torcia pelo Am\u00e9rica Futebol Clube. Claro que segui seus passos. Fui Am\u00e9rica at\u00e9 os 12 anos, quando &#8220;virei casaca&#8221; para o Flamengo (mas at\u00e9 hoje tenho saudade da camisa vermelha, garibaldina, do time de Jo\u00e3o Cabral e Lamartine Babo), e parei de acreditar em Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>Sei que &#8220;de mortuis nihil nisi bonum&#8221; (&#8220;n\u00e3o se fala mal de morto&#8221;), mas devo confessar que nunca gostei desse papa. Por qu\u00ea? N\u00e3o sei. \u00c9 que sempre achei, nos meus traumas juvenis, que papa era uma coisa meio in\u00fatil, pois s\u00f3 dava opini\u00f5es gen\u00e9ricas sobre a ins\u00e2nia do mundo, condenando a &#8220;maldade&#8221; e pedindo uma &#8220;paz&#8221; imposs\u00edvel, no meio da sujeira pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando Jo\u00e3o Paulo entrou, eu era jovem e implicava com tudo. Eu achava vigarice aquele neg\u00f3cio de fingir que ele falava todas as l\u00ednguas. Que papo era esse do papa? Lendo frases escritas em partituras fon\u00e9ticas&#8230; Quando ele come\u00e7ou a beijar o ch\u00e3o dos pa\u00edses visitados, impliquei mais ainda. Que demagogia! &#8211; reinando na corte do Vaticano e bancando o humilde&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Um dia, o papa foi alvejado no meio da Pra\u00e7a de S\u00e3o Pedro, por aquele maluco isl\u00e2mico, pren\u00fancio dos tempos atuais. Eu tenho a teoria de que aquele tiro, aquela bala terrorista despertou-o para a realidade do mundo. E o papa sentiu no corpo a desgra\u00e7a pol\u00edtica do tempo. Acho que a bala mudou o papa. Mas, fiquei irritad\u00edssimo quando ele, depois de curado, foi \u00e0 pris\u00e3o &#8220;perdoar&#8221; o cara que quis mat\u00e1-lo. N\u00e3o gostei de sua &#8220;infinita bondade&#8221; com um canalha bo\u00e7al. Achei falso seu perd\u00e3o que, na verdade, humilhava o terrorista babaca, como uma vingan\u00e7a doce.<\/p>\n\n\n\n<p>E fui por a\u00ed, observando esse papa sem muita aten\u00e7\u00e3o. \u00c9 t\u00e3o f\u00e1cil desprezar algu\u00e9m, ideologicamente&#8230; Quando vi que ele era &#8220;reacion\u00e1rio&#8221; em quest\u00f5es como camisinha, p\u00edlula e contra os arroubos da Igreja da Liberta\u00e7\u00e3o, a\u00ed n\u00e3o pensei mais nele&#8230; Tive apenas uma admira\u00e7\u00e3o passageira por sua ades\u00e3o ao Solidariedade do Walesa, mas, como bom &#8220;materialista&#8221;, desvalorizei o movimento polon\u00eas como &#8220;idealista&#8221;, com um Walesa meio &#8220;pelego&#8221;. E o tempo passou.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois da euforia inicial dos anos 90, vi que aquela esperan\u00e7a de entendimento pol\u00edtico no mundo, capitaneado pelo Gorbachev, fracassaria. Entendi isso quando vi o papai Bush falando no Kremlin, humilhando o Gorba, considerando-se &#8220;vitorioso&#8221;, prenunciando as nuvens negras de hoje com seu filhinho no poder. Senti que o sonho de entendimento socialismo-capitalismo ia ser apenas o triunfo triste dos neoconservadores. O mundo foi piorando e o papa viajando, beijando p\u00e9s, cantando com Roberto Carlos no Rio. Uma vez, ele declarou: &#8220;A Igreja Cat\u00f3lica n\u00e3o \u00e9 uma democracia.&#8221; Fiquei horrorizado naquela \u00e9poca liberalizante e n\u00e3o liguei mais para o papa &#8220;de direita&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois, o papa ficou doente, h\u00e1 dez anos. E eu olhava cruelmente seus tremores, sua corcova crescente e, sem compaix\u00e3o nenhuma, pensava que o pont\u00edfice n\u00e3o queria &#8220;largar o osso&#8221; e ria, como um anti-Cristo.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 que, nos \u00faltimos dias, Jo\u00e3o Paulo II chegou \u00e0 janela do Vaticano, tentou falar&#8230; e num esgar dolorido, tr\u00e1gico, foi fotografado em close, com a boca aberta, desesperado.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa foto \u00e9 um marco, um s\u00edmbolo forte, quase como as torres caindo em NY. Parece um pren\u00fancio do Ju\u00edzo Final, um rosto do Apocalipse, a cara de nossa \u00e9poca. \u00c9 aterrorizante ver o desespero do homem de Deus, do Infal\u00edvel, do embaixador de Cristo. Naquele momento, Deus virou homem. E, subitamente, entendi alguma coisa maior que sempre me escapara: aquele rosto retorcido era o choro de uma crian\u00e7a, um rosto infantil em prantos! O papa tinha voltado ao seu nascimento e sua vida se fechava. Ali estava o menino pobre, ex-ator, ex-oper\u00e1rio, ali estavam as v\u00edtimas da guerra, os atacados pelo terror, ali estava sua imensa solid\u00e3o igual \u00e0 nossa. Ent\u00e3o, ele morreu. E ontem, vendo os milh\u00f5es chorando pelo mundo, vendo a pra\u00e7a cheia, entendi de repente sua obra, sua imensa import\u00e2ncia. Vendo a cobertura da Globo, montando sua vida inteira, seus milh\u00f5es de quil\u00f4metros viajados, da \u00c1frica \u00e0s favelas do Nordeste, entendi o papa. Emocionado, senti minha intens\u00edss ima solid\u00e3o de ateu. Eu estava fora daquelas multid\u00f5es imensas, eu n\u00e3o tinha nem a velha ideologia esfacelada, nem uma religi\u00e3o para crer, eu era um filho abandonado do racionalismo franc\u00eas, eu era um \u00f3rf\u00e3o de pai e m\u00e3e. A\u00ed, quem tremeu fui eu, com olhos cheios d&#8217;\u00e1gua. E vi que Karol Wojtyla, tachado superficialmente de &#8220;conservador&#8221;, tinha sido muito mais que isso. Ele tinha batido em dois cravos: satisfez a reacionar\u00edssima C\u00faria Romana implac\u00e1vel e cortes\u00e3 e, al\u00e9m disso, botou o p\u00e9 no mundo, fazendo o que italiano nenhum faria: rezar missa para neg\u00f5es na \u00c1frica e no Nordeste, levando seu corpo vivo como s\u00edmbolo de uma espiritualidade perdida. O conjunto de sua obra foi muito al\u00e9m de ser contra ou a favor da camisinha. Papa n\u00e3o \u00e9 para ficar discutindo quest\u00f5es epis\u00f3dicas. \u00c9 muito mais que isso. Visitou o Chile de Pinochet e o Iraque de Saddam e, ao contr\u00e1rio de ser uma &#8220;ades\u00e3o alienada&#8221;, foi uma cr\u00edtica muito mais alta, mostrando-se acima de s\u00f3rdidas pol\u00edticas seculares, levando consigo o Esp\u00edrito, a id\u00e9ia de Transcend\u00eancia acima do mercantilismo e de ditaduras. E foi t\u00e3o &#8220;moderno&#8221; que usou a &#8220;m\u00eddia&#8221; sim, muito bem, como Madonna ou Pel\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>E nisso, criticou a C\u00faria por tabela, pois nenhum cardeal sairia do conforto dos pal\u00e1cios para beijar p\u00e9 de mendigo na Am\u00e9rica Latina. Jo\u00e3o Paulo cumpriu seu destino de fil\u00f3sofo acima do mundo, que tanto precisa de grandeza e solidariedade.<\/p>\n\n\n\n<p>Sou ateu, sozinho, condenado a n\u00e3o ter f\u00e9, mas vi que se h\u00e1 alguma coisa de que precisamos hoje \u00e9 de uma nova \u00e9tica, de um pensamento transcendental, de uma espiritualidade perdida. Jo\u00e3o Paulo na verdade deu um show de bola.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Arnaldo Jabor Escrevo enquanto vejo a morte do papa na TV. E me espanto com a imensa emo\u00e7\u00e3o mundial. Espanto-me tamb\u00e9m comigo mesmo: &#8220;Como eu estou sozinho!&#8221; &#8211; pensei. 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