{"id":2594,"date":"2026-08-22T20:32:58","date_gmt":"2026-08-22T23:32:58","guid":{"rendered":"https:\/\/contandohistorias.com.br\/?p=2594"},"modified":"2026-08-22T20:33:00","modified_gmt":"2026-08-22T23:33:00","slug":"juliano-moreira-o-medico-que-humanizou-a-psiquiatria-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/contandohistorias.com.br\/?p=2594","title":{"rendered":"Juliano Moreira: o m\u00e9dico que humanizou a psiquiatria brasileira"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No final do s\u00e9culo XIX, uma perigosa teoria encontrava espa\u00e7o nas universidades, nos hospitais e entre alguns dos intelectuais mais influentes do Brasil. Segundo seus defensores, a popula\u00e7\u00e3o negra e a miscigena\u00e7\u00e3o seriam respons\u00e1veis pela degenera\u00e7\u00e3o f\u00edsica e mental do pa\u00eds. Foi nesse ambiente dominado pelo racismo cient\u00edfico que um m\u00e9dico negro, nascido em uma fam\u00edlia pobre de Salvador, ergueu-se para contestar tais ideias e transformar profundamente a psiquiatria brasileira. Seu nome era Juliano Moreira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Juliano Moreira nasceu em 6 de janeiro de 1872, na antiga Freguesia da S\u00e9, regi\u00e3o central de Salvador. Algumas fontes antigas registram o ano de 1873, mas estudos biogr\u00e1ficos e institui\u00e7\u00f5es ligadas \u00e0 sua mem\u00f3ria adotam 1872. Era filho de Galdina Joaquina do Amaral, uma mulher negra que trabalhava como dom\u00e9stica na resid\u00eancia do m\u00e9dico e professor Lu\u00eds Adriano Alves de Lima Gordilho, o Bar\u00e3o de Itapu\u00e3. Seu pai era Manoel do Carmo Moreira J\u00fanior, portugu\u00eas e funcion\u00e1rio p\u00fablico, que trabalhava como inspetor de ilumina\u00e7\u00e3o. Juliano foi criado inicialmente pela m\u00e3e e somente reconhecido oficialmente pelo pai depois da morte dela, ocorrida quando ele tinha aproximadamente 13 anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Bar\u00e3o de Itapu\u00e3, seu padrinho, percebeu a intelig\u00eancia excepcional do menino e o ajudou a prosseguir nos estudos. Juliano ingressou ainda muito jovem na Faculdade de Medicina da Bahia, uma das mais importantes institui\u00e7\u00f5es cient\u00edficas do pa\u00eds. A precocidade de sua forma\u00e7\u00e3o causa algumas diverg\u00eancias nas fontes, mas \u00e9 certo que concluiu o curso em 1891, com apenas 19 anos, defendendo a tese *S\u00edfilis maligna precoce*. Em uma sociedade que havia abolido oficialmente a escravid\u00e3o somente tr\u00eas anos antes, ver um jovem negro e de origem humilde tornar-se m\u00e9dico era algo extraordin\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sua compet\u00eancia, entretanto, n\u00e3o o livrou do preconceito. Ao concorrer a uma vaga para lecionar na Faculdade de Medicina da Bahia, enfrentou resist\u00eancias motivadas tanto por sua juventude quanto pela cor de sua pele. Mesmo assim, foi aprovado em primeiro lugar no concurso realizado em 1896, tornando-se professor da institui\u00e7\u00e3o. Dedicou-se ao estudo das doen\u00e7as nervosas e mentais, da dermatologia, da s\u00edfilis e das enfermidades infecciosas. Tamb\u00e9m esteve entre os primeiros pesquisadores a estudar a leishmaniose cut\u00e2neo-mucosa no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre 1895 e 1902, realizou viagens de estudo pela Alemanha, Fran\u00e7a, Inglaterra, Esc\u00f3cia e It\u00e1lia. Visitou cl\u00ednicas e hospitais, frequentou cursos e manteve contato com importantes pesquisadores europeus. Essas experi\u00eancias permitiram que conhecesse novas concep\u00e7\u00f5es sobre as doen\u00e7as mentais. Juliano compreendeu que a psiquiatria deveria se afastar das explica\u00e7\u00f5es baseadas em preconceitos raciais e aproximar-se da observa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica, da ci\u00eancia e das condi\u00e7\u00f5es reais de vida de cada paciente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1903, transferiu-se para o Rio de Janeiro e assumiu a dire\u00e7\u00e3o do Hosp\u00edcio Nacional de Alienados, cargo que ocupou at\u00e9 1930. Naquela \u00e9poca, os chamados hosp\u00edcios frequentemente se pareciam mais com pris\u00f5es do que com hospitais. Os internos podiam ser mantidos atr\u00e1s de grades, submetidos a castigos e tratados como pessoas perigosas, incapazes de possuir sentimentos ou dignidade. Juliano Moreira iniciou uma ampla reforma no atendimento. Mandou retirar grades, aboliu o uso desnecess\u00e1rio de camisas de for\u00e7a, condenou os castigos f\u00edsicos e procurou substituir a l\u00f3gica da puni\u00e7\u00e3o pela do cuidado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O m\u00e9dico tamb\u00e9m defendeu a cria\u00e7\u00e3o de laborat\u00f3rios, oficinas de trabalho e espa\u00e7os destinados \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o dos pacientes. Incentivou a forma\u00e7\u00e3o dos profissionais, o acompanhamento cl\u00ednico e a observa\u00e7\u00e3o individual de cada caso. Para ele, a pessoa internada n\u00e3o deveria ser reduzida \u00e0 sua doen\u00e7a. Era um ser humano que precisava ser ouvido, tratado e respeitado. Essa vis\u00e3o, hoje aparentemente elementar, representava uma mudan\u00e7a profunda diante das pr\u00e1ticas adotadas nos hospitais psiqui\u00e1tricos daquele per\u00edodo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outra parte fundamental de sua obra foi o combate \u00e0 associa\u00e7\u00e3o entre ra\u00e7a e doen\u00e7a mental. Alguns m\u00e9dicos afirmavam que a miscigena\u00e7\u00e3o produzia indiv\u00edduos degenerados e que a popula\u00e7\u00e3o negra possu\u00eda uma tend\u00eancia natural \u00e0 criminalidade, ao atraso e \u00e0 loucura. Juliano Moreira rejeitou essas conclus\u00f5es. Em seus estudos e pronunciamentos, argumentou que os transtornos mentais estavam relacionados a fatores biol\u00f3gicos, sociais e ambientais, entre eles doen\u00e7as, alcoolismo, condi\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias prec\u00e1rias, pobreza e falta de acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o. A cor da pele e a mistura entre diferentes popula\u00e7\u00f5es n\u00e3o eram causas da doen\u00e7a mental.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sua posi\u00e7\u00e3o possu\u00eda uma for\u00e7a especial porque vinha de um cientista negro que conhecia pessoalmente os efeitos do preconceito. Juliano n\u00e3o fez de sua origem apenas um elemento de sua hist\u00f3ria particular. Utilizou a autoridade conquistada pela compet\u00eancia para desafiar uma estrutura cient\u00edfica que tentava apresentar o racismo como verdade m\u00e9dica. Sua trajet\u00f3ria demonstrava, por si mesma, a falsidade das teorias que associavam a popula\u00e7\u00e3o negra \u00e0 inferioridade intelectual.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Juliano Moreira tamb\u00e9m teve papel decisivo na organiza\u00e7\u00e3o da psiquiatria como \u00e1rea cient\u00edfica no Brasil. Participou da cria\u00e7\u00e3o de publica\u00e7\u00f5es especializadas e da funda\u00e7\u00e3o, em 1907, da Sociedade Brasileira de Neurologia, Psiquiatria e Medicina Legal. Recebeu estudantes no Hosp\u00edcio Nacional, ajudou a formar novos profissionais e representou o Brasil em congressos internacionais. Em 1917, ingressou na Academia Brasileira de Ci\u00eancias, institui\u00e7\u00e3o que presidiu entre 1926 e 1929. Foi ainda um dos primeiros professores brasileiros a apresentar as ideias de Sigmund Freud no ensino m\u00e9dico, contribuindo para a introdu\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise no pa\u00eds. Sua import\u00e2ncia para a medicina \u00e9 reconhecida pela&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.anm.org.br\/juliano-moreira\/\">Academia Nacional de Medicina<\/a>&nbsp;e por estudos publicados na&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/j\/rbp\/a\/wzF5QyZ7pVvVVF5VqRHwSHf\/?format=html&amp;lang=pt\">Revista Brasileira de Psiquiatria<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sua vida pessoal foi marcada pela luta contra a tuberculose, doen\u00e7a que o acompanhou durante muitos anos e motivou algumas de suas viagens ao exterior. Durante um per\u00edodo de tratamento no Egito, conheceu Augusta Peick, uma enfermeira alem\u00e3 nascida em Hamburgo. Os dois se casaram no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1910 e vieram morar no Brasil. Augusta tornou-se sua companheira por toda a vida e prestou-lhe aux\u00edlio durante os per\u00edodos em que sua sa\u00fade se agravou. O casal n\u00e3o teve filhos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora tenha sido um opositor firme das explica\u00e7\u00f5es raciais para as doen\u00e7as mentais, Juliano Moreira n\u00e3o esteve completamente afastado de algumas ideias controversas de seu tempo. Como outros cientistas do in\u00edcio do s\u00e9culo XX, participou de debates ligados \u00e0 eugenia e chegou a admitir medidas atualmente consideradas inaceit\u00e1veis, como a esteriliza\u00e7\u00e3o de determinados grupos. Reconhecer essa contradi\u00e7\u00e3o n\u00e3o diminui a import\u00e2ncia de seu combate ao racismo cient\u00edfico, mas ajuda a compreender que grandes personalidades tamb\u00e9m carregam marcas e limita\u00e7\u00f5es da \u00e9poca em que viveram.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o de 1930, Juliano foi afastado da dire\u00e7\u00e3o do Hosp\u00edcio Nacional. J\u00e1 debilitado pela tuberculose, retirou-se gradualmente da vida p\u00fablica, embora continuasse acompanhando alguns pacientes e participando de reuni\u00f5es cient\u00edficas sempre que sua sa\u00fade permitia. Morreu em 2 de maio de 1933, em um sanat\u00f3rio na regi\u00e3o de Correias, em Petr\u00f3polis, aos 61 anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Juliano Moreira deixou como legado uma transforma\u00e7\u00e3o que ultrapassou os limites dos hospitais. Demonstrou que a medicina deveria se apoiar em evid\u00eancias e na observa\u00e7\u00e3o dos pacientes, e n\u00e3o em preconceitos apresentados como ci\u00eancia. Defendeu que pessoas com transtornos mentais mereciam tratamento, respeito e dignidade. Em um pa\u00eds que ainda dificultava o acesso da popula\u00e7\u00e3o negra \u00e0s universidades e aos espa\u00e7os de poder, tornou-se professor, pesquisador, diretor de uma importante institui\u00e7\u00e3o e presidente da Academia Brasileira de Ci\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sua hist\u00f3ria \u00e9 a de um menino negro e pobre de Salvador que venceu barreiras extraordin\u00e1rias e se tornou um dos maiores m\u00e9dicos brasileiros. Mais de um s\u00e9culo depois de suas reformas, seu exemplo permanece atual. Juliano Moreira mostrou que a verdadeira ci\u00eancia n\u00e3o serve para justificar preconceitos. Ela deve ajudar a combat\u00ea-los e, acima de tudo, deve estar a servi\u00e7o da dignidade humana.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No final do s\u00e9culo XIX, uma perigosa teoria encontrava espa\u00e7o nas universidades, nos hospitais e entre alguns dos intelectuais mais influentes do Brasil. 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