{"id":430,"date":"2024-08-11T20:29:12","date_gmt":"2024-08-11T23:29:12","guid":{"rendered":"https:\/\/new.contandohistorias.com.br\/?p=430"},"modified":"2024-08-11T20:29:18","modified_gmt":"2024-08-11T23:29:18","slug":"uma-doce-licao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/contandohistorias.com.br\/?p=430","title":{"rendered":"Uma doce li\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p>Meu pai adorava abelhas. Quando uma abelha selvagem chegava zumbindo, ele parava o que estivesse fazendo para esperar a abelha fartar-se de n\u00e9ctar. Assim que estava satisfeita, ela levantava v\u00f4o, precisa como uma flecha, em dire\u00e7\u00e3o a sua colm\u00e9ia, no bosque. Papai ent\u00e3o partia em seu encal\u00e7o. Mesmo que a perdesse de vista sabia, mais ou menos, onde ela terminaria, j\u00e1 que as abelhas tra\u00e7am uma reta quando se encaminham para casa.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando papai encontrava uma \u00e1rvore oca com um enxame de abelhas dentro, visitava o propriet\u00e1rio das terras e pedia-lhe permiss\u00e3o para cortar a \u00e1rvore. Sempre dava ao propriet\u00e1rio todo o mel em troca das abelhas. Foi assim que construiu um imenso api\u00e1rio que, por fim, passou a ser a maior fonte de renda de nossa fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma colm\u00e9ia podia morrer de fome durante o inverno se a sua provis\u00e3o de mel n\u00e3o durasse at\u00e9 as plantas florescerem. \u00c9 rotina o apicultor ajudar suas abelhas nos meses de frio, alimentando-as com um xarope feito de \u00e1gua e a\u00e7\u00facar. Durante a Primeira Guerra Mundial, nosso pa\u00eds passou por uma seri\u00edssima escassez de a\u00e7\u00facar. O governo passou a racion\u00e1-lo, al\u00e9m de diversos outros produtos. Isso criou uma imensa procura por mel como substituto.<\/p>\n\n\n\n<p>Devido \u00e0 necessidade de fornecer mel para a popula\u00e7\u00e3o, os apicultores recebiam uma ra\u00e7\u00e3o sobressalente de a\u00e7\u00facar para manter suas abelhas vivas durante o inverno. Guard\u00e1vamos a por\u00e7\u00e3o que nos cabia num barril na cozinha externa, que us\u00e1vamos no ver\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3s, as crian\u00e7as, sab\u00edamos que era estritamente para a alimenta\u00e7\u00e3o das abelhas. Devido ao racionamento sofrido pelo pa\u00eds durante a Primeira Guerra Mundial, era muitas vezes dif\u00edcil para as m\u00e3es prepararem refei\u00e7\u00f5es apetitosas para suas fam\u00edlias. Era especialmente dif\u00edcil quando havia algum convidado.<\/p>\n\n\n\n<p>Fomos avisados de que nossos parentes favoritos, que viviam a muitos quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia, viriam nos visitar no dia seguinte. Ficamos muito animados! Mam\u00e3e come\u00e7ou a planejar o jantar que faria por ocasi\u00e3o da visita. Melanc\u00f3lica, declarou:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Como eu gostaria de fazer um bolo!<\/p>\n\n\n\n<p>Ela sentia imenso orgulho dos bolos que preparava. No entanto, como a pequena ra\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar destinada a nossa fam\u00edlia j\u00e1 fora consumida, ficava imposs\u00edvel fazer o tal bolo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 claro que n\u00f3s, as crian\u00e7as, quer\u00edamos o bolo tanto quanto ela! Imploramos para que pegasse o a\u00e7\u00facar da ra\u00e7\u00e3o das abelhas para prepar\u00e1-lo. Nosso argumento era que o governo jamais saberia. Finalmente, ela cedeu.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi l\u00e1 fora, at\u00e9 o barril de a\u00e7\u00facar da cozinha externa, e usou-o para fazer sua deliciosa receita de bolo amarelo. Foi preciso grande habilidade para assar o bolo perfeito num forno a lenha, mas mam\u00e3e conseguiu. Quando terminou de decor\u00e1-lo com uma cobertura especial de merengue, ficamos extremamente orgulhosos de servi-lo para as visitas.<\/p>\n\n\n\n<p>Pouco depois chegou o dia de nossa fam\u00edlia receber a ra\u00e7\u00e3o mensal de a\u00e7\u00facar. Papai foi at\u00e9 a mercearia compr\u00e1-lo. O vendedor colocou-o num min\u00fasculo saquinho marrom e amarrou-o com cuidado. Quando chegou em casa, papai o colocou sobre a mesa. Mam\u00e3e olhou brevemente para o pacotinho. Ent\u00e3o, pegou o mesmo medidor que usara para o a\u00e7\u00facar do bolo. Enquanto n\u00f3s, crian\u00e7as, a olh\u00e1vamos estupefatos, ela mediu exatamente a quantidade que usara. Ent\u00e3o, solenes, a seguimos at\u00e9 o barril de a\u00e7\u00facar das abelhas, onde ela o despejou.<\/p>\n\n\n\n<p>O que restou de a\u00e7\u00facar no fundo do pequeno saco era pouco para uma fam\u00edlia de sete, mas teria de ser suficiente para durar um m\u00eas. A id\u00e9ia foi um banho de sobriedade para uma crian\u00e7a t\u00e3o pequena e apaixonada por doces.<\/p>\n\n\n\n<p>Minha m\u00e3e n\u00e3o fez o menor discurso sobre o acontecido, a menor fanfarra. N\u00e3o pregou sobre a honestidade. Para ela, aquele fora um ato natural, de acordo com a integridade com a qual meu pai e ela viveram as suas vidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, tenho noventa e dois anos. H\u00e1 muito n\u00e3o sou mais aquela criancinha que olhava por cima da mesa da cozinha da m\u00e3e, na pontinha dos p\u00e9s. Muitas coisas mudaram durante a minha vida. Ainda fa\u00e7o bolos quando tenho visitas, mas hoje uso misturas prontas porque n\u00e3o ag\u00fcento mais ficar em p\u00e9 tanto tempo. Tamb\u00e9m n\u00e3o preciso mais usar o fog\u00e3o \u00e0 lenha. E, certamente, n\u00e3o h\u00e1 a menor escassez de a\u00e7\u00facar em nosso pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas algumas coisas n\u00e3o mudam. E, assim, j\u00e1 contei a hist\u00f3ria sobre a honestidade incondicional de minha m\u00e3e in\u00fameras vezes para meus filhos, meus netos e at\u00e9 mesmo para os meus bisnetos. Mam\u00e3e era como uma daquelas abelhas que meu pai adorava seguir. Era f\u00e1cil contar que sempre tomaria o caminho mais honesto nesta vida, uma linha reta, precisa como uma flecha. E foi por isso que moldou, sem alardes, a consci\u00eancia de quatro gera\u00e7\u00f5es de uma mesma fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Colabora\u00e7\u00e3o de Wilma Santiago<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Meu pai adorava abelhas. Quando uma abelha selvagem chegava zumbindo, ele parava o que estivesse fazendo para esperar a abelha fartar-se de n\u00e9ctar. Assim que estava satisfeita, ela levantava v\u00f4o, precisa como uma flecha, em dire\u00e7\u00e3o a sua colm\u00e9ia, no bosque. Papai ent\u00e3o partia em seu encal\u00e7o. 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