{"id":48,"date":"2024-08-08T22:44:25","date_gmt":"2024-08-09T01:44:25","guid":{"rendered":"https:\/\/new.contandohistorias.com.br\/?p=48"},"modified":"2024-08-09T11:56:52","modified_gmt":"2024-08-09T14:56:52","slug":"adeus-tia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/contandohistorias.com.br\/?p=48","title":{"rendered":"Adeus, tia"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>Walcyr Carrasco<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-audio\"><audio controls src=\"https:\/\/www.contandohistorias.com.br\/mp3\/2006602.mp3\"><\/audio><\/figure>\n\n\n\n<p>Quando eu era menino e vivia no interior, era comum a figura da tia.<\/p>\n\n\n\n<p>Solteirona, amadurecia na casa dos pais, sem filhos, s\u00f3 com sobrinhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Era a eterna tia. Em geral, nem sequer tinha profiss\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ajeitava-se com trabalhos de costura, bordados, salgadinhos para festas, bolos de anivers\u00e1rio e balas de coco embrulhadas em papel de seda, fazendo cascata.<\/p>\n\n\n\n<p>Convidada para todas as festas dos parentes, acabava na cozinha, dando uma ajuda. Sempre tinha uma hist\u00f3ria de amor no passado: um noivado longo que acabou alguns meses antes do casamento; algu\u00e9m que morreu; um &#8220;safado&#8221; que queria fazer &#8220;bobagem&#8221; e desistiu porque &#8220;ela era s\u00e9ria&#8221;. Quantas vezes ouvi esses relatos na fam\u00edlia!<\/p>\n\n\n\n<p>Lembro-me de uma prima de segundo grau que s\u00f3 encontrava o namorado, do Paran\u00e1, em Dia de Finados, quando ele vinha ver o t\u00famulo da m\u00e3e.<\/p>\n\n\n\n<p>Marcavam encontro no cemit\u00e9rio. No quarto, minha m\u00e3e avisou:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu acho que esse rapaz \u00e9 casado! Se n\u00e3o, porque n\u00e3o d\u00e1 o endere\u00e7o?<\/p>\n\n\n\n<p>Minha prima n\u00e3o foi e nunca mais viu o mo\u00e7o. Nem arrumou novo pretendente. Muitas fam\u00edlias torciam para ter uma solteirona disposta a cuidar dos pais. Tinha a miss\u00e3o de viver com eles, ajudar na velhice. Quando os dois morriam, tornava-se um trambolho.<\/p>\n\n\n\n<p>Os irm\u00e3os alegavam que n\u00e3o havia espa\u00e7o para ela, que acabava jogada de um lugar para outro, sempre de mala na m\u00e3o. Ou morando com um parente distante &#8211; em geral uma velha, de quem tamb\u00e9m cuidava.<\/p>\n\n\n\n<p>Na vida paulistana, essa figura sumiu. Claro, muita mulher n\u00e3o se casa. Nem por isso vive o estere\u00f3tipo da solteirona. Uma amiga minha teve v\u00e1rios relacionamentos. \u00c9 uma linda mulher, mas chegou \u00e0 faixa dos 40 sem se casar. Mora com os pais, a quem adora. Fez recentemente uma nova faculdade, tornou-se uma profissional respeitada. H\u00e1 algum tempo, o fato de n\u00e3o ter se casado seria visto como um estigma. Hoje \u00e9 at\u00e9 invejado por algumas amigas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Que sorte, voc\u00ea \u00e9 independente!<\/p>\n\n\n\n<p>Ela est\u00e1 muito feliz. E resolveu adotar uma crian\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vou ser vov\u00f4 &#8211; contou o pai dela, feliz da vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Pois \u00e9. A antiga solteirona transformou-se em mulher independente.<\/p>\n\n\n\n<p>Pode at\u00e9 cuidar dos pais, se a rela\u00e7\u00e3o \u00e9 boa. Mas n\u00e3o \u00e9 vista como uma fracassada porque n\u00e3o arrumou marido.<\/p>\n\n\n\n<p>Nem como um trambolho. Pelo contr\u00e1rio. Conhe\u00e7o uma senhora, m\u00e9dica, que por ser sozinha guarda a maior parte do que ganha, usa roupas de grife e \u00e9 invejada pela irm\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 ela quem ajuda a outra, em lit\u00edgio com o ex-marido e com a vida profissional estacionada ap\u00f3s um longo casamento. Essa figura t\u00e3o comum na metr\u00f3pole namorou, beijou, mas, como diz uma amiga, &#8220;n\u00e3o tem voca\u00e7\u00e3o para lavar cuecas&#8221;..<\/p>\n\n\n\n<p>De fato, enquanto boa parte das casadas enfrenta a dupla jornada de trabalho, em casa e no emprego, as outras saem com as amigas, v\u00e3o a shows e se d\u00e3o ao luxo de deixar o apartamento desarrumado quando t\u00eam pregui\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>E a velhice? A maioria ter\u00e1 feito uma boa poupan\u00e7a, e poder\u00e1 viver com conforto. Mesmo porque, hoje, lamentavelmente, filhos n\u00e3o s\u00e3o mais garantia de ter quem cuide da gente na velhice. Muitos pais idosos passam o tempo tentando arrumar a vida de filhos descabe\u00e7ados.<\/p>\n\n\n\n<p>A boa not\u00edcia \u00e9 que essa nova mulher, sozinha mas n\u00e3o solit\u00e1ria, n\u00e3o est\u00e1 condenada a ser um estorvo para os parentes. Tem vida pr\u00f3pria. Pode cuidar dos pais, mas por op\u00e7\u00e3o. E se d\u00e1 ao luxo de namorar at\u00e9 pela Internet, sem viver eternamente buscando casamento por sentir a obriga\u00e7\u00e3o de ostentar uma alian\u00e7a no dedo. A solteirona do passado viveu uma reciclagem.<\/p>\n\n\n\n<p>Marido n\u00e3o \u00e9 mais fundamental. Felicidade, sim. Gra\u00e7as a Deus!<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Colabora\u00e7\u00e3o de Wilma Santiago<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Walcyr Carrasco Quando eu era menino e vivia no interior, era comum a figura da tia. Solteirona, amadurecia na casa dos pais, sem filhos, s\u00f3 com sobrinhos. Era a eterna tia. Em geral, nem sequer tinha profiss\u00e3o. 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