{"id":553,"date":"2024-08-12T19:45:01","date_gmt":"2024-08-12T22:45:01","guid":{"rendered":"https:\/\/new.contandohistorias.com.br\/?p=553"},"modified":"2024-08-12T19:45:07","modified_gmt":"2024-08-12T22:45:07","slug":"a-garota-da-maca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/contandohistorias.com.br\/?p=553","title":{"rendered":"A garota da ma\u00e7\u00e3"},"content":{"rendered":"\n<p>Agosto de 1942 &#8211; Piotrkow, Pol\u00f4nia.<\/p>\n\n\n\n<p>Naquela manh\u00e3, o c\u00e9u estava sombrio, enquanto esper\u00e1vamos ansiosamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos os homens, mulheres e crian\u00e7as do gueto judeu de Piotrkow tinham sido levados at\u00e9 uma pra\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Espalhou-se a not\u00edcia de que est\u00e1vamos sendo removidos. Meu pai havia falecido recentemente de tifo, que se alastrara atrav\u00e9s do gueto abarrotado.<\/p>\n\n\n\n<p>Meu maior medo era de que nossa fam\u00edlia fosse separada.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O que quer que aconte\u00e7a,&#8221; Isidore, meu irm\u00e3o mais velho, murmurou para mim, &#8220;n\u00e3o lhes diga a sua idade. Diga que tem dezesseis anos&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu era bem alto, para um menino de 11 anos, e assim poderia ser confundido como tal.<\/p>\n\n\n\n<p>Desse jeito eu poderia ser considerado valioso como um trabalhador.<\/p>\n\n\n\n<p>Um homem da SS aproximou-se, botas estalando nas pedras grosseiras do piso.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou-me de cima a baixo, e, ent\u00e3o, perguntou minha idade. &#8220;Dezesseis&#8221;, eu disse.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele mandou-me ir \u00e0 esquerda, onde j\u00e1 estavam meus tr\u00eas irm\u00e3os e outros jovens saud\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>Minha m\u00e3e foi encaminhada para a direita com outras mulheres, crian\u00e7as, doentes e velhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Murmurei para Isidore, &#8220;Por qu\u00ea?&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Ele n\u00e3o respondeu. Corri para o lado da m\u00e3e e disse que queria ficar com ela. &#8220;N\u00e3o,&#8221; ela disse com firmeza. &#8220;V\u00e1 embora. N\u00e3o aborre\u00e7a. V\u00e1 com seus irm\u00e3os&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela nunca havia falado t\u00e3o asperamente antes. Mas eu entendi: ela estava me protegendo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela me amava tanto que, apenas esta \u00fanica vez, ela fingiu n\u00e3o faz\u00ea-lo. Foi a \u00faltima vez que a vi.<\/p>\n\n\n\n<p>Meus irm\u00e3os e eu fomos transportados em um vag\u00e3o de gado at\u00e9 a Alemanha.<\/p>\n\n\n\n<p>Chegamos ao campo de concentra\u00e7\u00e3o de Buchenwald em uma noite, semanas ap\u00f3s, e fomos conduzidos a uma barraca lotada.<\/p>\n\n\n\n<p>No dia seguinte, recebemos uniformes e n\u00fameros de identifica\u00e7\u00e3o. &#8220;N\u00e3o me chamem mais de Herman&#8221;, eu disse aos meus irm\u00e3os. &#8220;Chamem-me 94938&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Colocaram-me para trabalhar no cremat\u00f3rio do campo, carregando os mortos em um elevador manual.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu, tamb\u00e9m, me sentia como morto. Insensibilizado, eu me tornara um n\u00famero. Logo, meus irm\u00e3os e eu fomos mandados para Schlieben, um dos sub-campos de Buchenwald, perto de Berlim.<\/p>\n\n\n\n<p>Em uma manh\u00e3, eu pensei ter ouvido a voz de minha m\u00e3e. &#8220;Filho&#8221; ela disse suave, mas claramente, &#8220;Vou mandar-lhe um anjo&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o eu acordei. Apenas um sonho. Um lindo sonho.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas nesse lugar n\u00e3o poderia haver anjos. Havia apenas trabalho. E fome. E medo.<\/p>\n\n\n\n<p>Poucos dias depois, estava caminhando pelo campo, pelas barracas, perto da cerca de arame farpado, onde os guardas n\u00e3o podiam enxergar facilmente. Estava sozinho. Do outro lado da cerca, eu observei algu\u00e9m: uma pequena menina com suaves, quase luminosos cachinhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela estava meio escondida atr\u00e1s de uma b\u00e9tula. Dei uma olhada em volta, para certificar-me de que ningu\u00e9m estava me vendo. Chamei-a suavemente em Alem\u00e3o. &#8220;Voc\u00ea tem algo para comer?&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Ela n\u00e3o entendeu. Aproximei-me mais da cerca e repeti a pergunta em Polon\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela se aproximou. Eu estava magro e raqu\u00edtico, com farrapos envolvendo meus p\u00e9s, mas a menina parecia n\u00e3o ter medo. Em seus olhos eu vi vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela sacou uma ma\u00e7\u00e3 do seu casaco de l\u00e3 e a jogou pela cerca.<\/p>\n\n\n\n<p>Agarrei a fruta e, assim que comecei a fugir, ouvi-a dizer debilmente, &#8220;Virei v\u00ea-lo amanh\u00e3&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltei para o mesmo local, na cerca, na mesma hora, todos os dias. Ela estava sempre l\u00e1, com algo para eu comer &#8211; um naco de p\u00e3o ou, melhor ainda, uma ma\u00e7\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3s n\u00e3o ous\u00e1vamos falar ou demorarmos. Sermos pegos significaria morte para n\u00f3s dois.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o sabia nada sobre ela. Apenas um tipo de menina de fazenda, e que entendia Polon\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>Qual era o seu nome? Por que ela estava arriscando sua vida por mim?<\/p>\n\n\n\n<p>A esperan\u00e7a estava naquele pequeno suprimento, e essa menina, do outro lado da cerca, trouxe-me um pouco, como que me nutrindo dessa forma, tal como o p\u00e3o e as ma\u00e7\u00e3s.<\/p>\n\n\n\n<p>Cerca de sete meses depois, meus irm\u00e3os e eu fomos colocados em um abarrotado vag\u00e3o de carv\u00e3o e enviados para o campo de Theresiensatdt, na Tchecoeslov\u00e1quia. &#8220;N\u00e3o volte&#8221;, eu disse para a menina naquele dia. &#8220;Estamos partindo&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltei-me em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s barracas e n\u00e3o olhei para tr\u00e1s, nem mesmo disse adeus para a pequena menina, cujo nome eu nunca aprendi &#8211; menina das ma\u00e7\u00e3s.<\/p>\n\n\n\n<p>Permanecemos em Theresienstadt por tr\u00eas meses.<\/p>\n\n\n\n<p>A guerra estava diminuindo e as for\u00e7as aliadas se aproximando, muito embora meu destino parecesse estar selado. No dia 10 de maio de 1945, eu estava escalado para morrer na c\u00e2mara de g\u00e1s, \u00e0s 10:00 horas. No silencioso crep\u00fasculo, tentei me preparar. Tantas vezes a morte pareceu pronta para me achar, mas de alguma forma eu havia sobrevivido. Agora, tudo estava acabado.<\/p>\n\n\n\n<p>Pensei nos meus pais. Ao menos, n\u00f3s estaremos nos reunindo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, \u00e0s 08:00 horas ocorreu uma como\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ouvi gritos, e vi pessoas correndo em todas as dire\u00e7\u00f5es atrav\u00e9s do campo.<\/p>\n\n\n\n<p>Juntei-me aos meus irm\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p>Tropas russas haviam liberado o campo! Os port\u00f5es foram abertos.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos estavam correndo, ent\u00e3o eu corri tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Surpreendentemente, todos os meus irm\u00e3os haviam sobrevivido.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o tenho certeza como, mas sabia que aquela menina com as ma\u00e7\u00e3s tinha sido a chave da minha sobreviv\u00eancia. Quando o mal parecia triunfante, a bondade de uma pessoa salvara a minha vida, me dera esperan\u00e7a em um lugar onde ela n\u00e3o existia.<\/p>\n\n\n\n<p>Minha m\u00e3e havia prometido enviar-me um anjo, e o anjo apareceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Eventualmente, encaminhei-me \u00e0 Inglaterra, onde fui assistido pela Caridade Judaica.<\/p>\n\n\n\n<p>Fui colocado em um abrigo com outros meninos que sobreviveram ao Holocausto e treinado em Eletr\u00f4nica. Depois fui para os Estados Unidos, para onde meu irm\u00e3o Sam j\u00e1 havia se mudado.<\/p>\n\n\n\n<p>Servi no Ex\u00e9rcito durante a Guerra da Cor\u00e9ia, e retornei a Nova Iorque, ap\u00f3s dois anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Por volta de agosto de 1957, abri minha pr\u00f3pria loja de consertos eletr\u00f4nicos.<\/p>\n\n\n\n<p>Estava come\u00e7ando a estabelecer-me.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dia, meu amigo Sid, que eu conhecia da Inglaterra, me telefonou. &#8220;Tenho um encontro. Ela tem uma amiga polonesa. Vamos sair juntos!&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Um encontro \u00e0s cegas? N\u00e3o, isso n\u00e3o era para mim!<\/p>\n\n\n\n<p>Mas Sid continuou insistindo e, poucos dias depois, nos dirigimos ao Bronx para buscar a pessoa com quem marcara encontro e a sua amiga Roma. Tenho que admitir: para um encontro \u00e0s cegas, n\u00e3o foi t\u00e3o ruim. Roma era enfermeira em um hospital do Bronx. Era gentil e esperta. Bonita, tamb\u00e9m, com cabelos castanhos cacheados e olhos verdes amendoados que faiscavam com vida.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3s quatro fomos at\u00e9 Coney Island. Roma era uma pessoa com quem era f\u00e1cil falar e \u00f3tima companhia. Descobri que ela era igualmente cautelosa com encontros \u00e0s cegas.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3s dois est\u00e1vamos apenas fazendo um favor aos nossos amigos. Demos um passeio na beira da praia, gozando a brisa salgada do Atl\u00e2ntico e depois jantamos perto da margem. N\u00e3o poderia me lembrar de ter tido momentos melhores.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltamos ao carro do Sid, com Roma e eu dividindo o assento trazeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Como judeus europeus que haviam sobrevivido \u00e0 guerra, sab\u00edamos que muita coisa deixou de ser dita entre n\u00f3s. Ela puxou o assunto, perguntando delicadamente: &#8220;Onde voc\u00ea estava durante a guerra?&#8221; &#8220;Nos campos de concentra\u00e7\u00e3o&#8221;, eu disse.<\/p>\n\n\n\n<p>As terr\u00edveis mem\u00f3rias ainda v\u00edvidas, a irrepar\u00e1vel perda. Tentei esquecer.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas jamais se pode esquecer.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela concordou, dizendo: &#8220;Minha fam\u00edlia se escondeu em uma fazenda na Alemanha, n\u00e3o longe de Berlim . Meu pai conhecia um padre, e ele nos deu pap\u00e9is arianos.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Imaginei como ela deve ter sofrido tamb\u00e9m, tendo o medo como constante companhia.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo assim, aqui est\u00e1vamos, ambos sobreviventes, em um mundo novo. &#8220;Havia um campo perto da fazenda&#8221;, Roma continuou. &#8220;Eu via um menino l\u00e1 e lhe jogava ma\u00e7\u00e3s todos os dias.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Que extraordin\u00e1ria coincid\u00eancia, que ela tivesse ajudado algum outro menino. &#8220;Como ele era?&#8221;, perguntei. &#8220;Ele era alto, magro e faminto. Devo t\u00ea-lo visto todos os dias, durante seis meses.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Meu cora\u00e7\u00e3o estava aos pulos! N\u00e3o podia acreditar! Isso n\u00e3o podia ser! &#8220;Ele lhe disse, um dia, para voc\u00ea n\u00e3o voltar, por que ele estava indo embora de Schlieben?&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Roma me olhou estupefata. &#8220;Sim!&#8221;. &#8220;Era eu!&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu estava para explodir de alegria e susto, inundado de emo\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o podia acreditar! Meu anjo! &#8220;N\u00e3o vou deixar voc\u00ea partir&#8221;, disse a Roma.<\/p>\n\n\n\n<p>E, na trazeira do carro, nesse encontro \u00e0s cegas, pedi-a em casamento. N\u00e3o queria esperar. &#8220;Voc\u00ea est\u00e1 louco!&#8221;, ela disse.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas convidou-me para conhecer seus pais no jantar do Shabbat da semana seguinte.<\/p>\n\n\n\n<p>Havia tanto que eu ansiava descobrir sobre Roma, mas as coisas mais importantes eu sempre soube: sua firmeza, sua bondade. Por muitos meses, nas piores circunst\u00e2ncias, ela veio at\u00e9 a cerca e me trouxe esperan\u00e7a. N\u00e3o que eu a tivesse encontrado de novo, eu jamais a havia deixado partir.<\/p>\n\n\n\n<p>Naquele dia, ela disse sim. E eu mantive a minha palavra.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s quase 50 anos de casamento, dois filhos e tr\u00eas netos, eu jamais a deixara partir.?<\/p>\n\n\n\n<p>Herman Rosenblat &#8211; Miami Beach, Florida ***<\/p>\n\n\n\n<p>Esta \u00e9 uma hist\u00f3ria verdadeira e voc\u00ea pode descobrir mais sobre ele no Google.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele fez Bar-Mitzvah com a idade de 75 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta hist\u00f3ria est\u00e1 sendo transformada em filme, chamado &#8220;A cerca&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Agosto de 1942 &#8211; Piotrkow, Pol\u00f4nia. Naquela manh\u00e3, o c\u00e9u estava sombrio, enquanto esper\u00e1vamos ansiosamente. Todos os homens, mulheres e crian\u00e7as do gueto judeu de Piotrkow tinham sido levados at\u00e9 uma pra\u00e7a. Espalhou-se a not\u00edcia de que est\u00e1vamos sendo removidos. 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