{"id":606,"date":"2024-08-13T21:58:27","date_gmt":"2024-08-14T00:58:27","guid":{"rendered":"https:\/\/new.contandohistorias.com.br\/?p=606"},"modified":"2024-08-13T21:58:32","modified_gmt":"2024-08-14T00:58:32","slug":"a-lei-de-zeca-pagodinho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/contandohistorias.com.br\/?p=606","title":{"rendered":"A lei de Zeca Pagodinho"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Nailor Marques Junior<\/em><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-rich is-provider-incorporar-manipulador wp-block-embed-incorporar-manipulador\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-606-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/www.contandohistorias.com.br\/mp3\/2004342.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.contandohistorias.com.br\/mp3\/2004342.mp3\">https:\/\/www.contandohistorias.com.br\/mp3\/2004342.mp3<\/a><\/audio>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diz uma hist\u00f3ria que numa cidade apareceu um circo, e que entre seus artistas havia um palha\u00e7o com o poder de divertir, sem medida, todas as pessoas da plat\u00e9ia e o riso era t\u00e3o bom, t\u00e3o profundo e natural que se tornou terap\u00eautico. Todos os que padeciam de tristezas agudas ou cr\u00f4nicas eram indicados pelo m\u00e9dico do lugar para que assistissem ao tal artista que possu\u00eda o dom de eliminar ang\u00fastias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dia por\u00e9m um morador desconhecido, tomado de profunda depress\u00e3o, procurou o doutor. O m\u00e9dico ent\u00e3o, sem relutar, indicou o circo como o lugar de cura de todos os males daquela natureza, de abrandamento de todas as dores da alma, de ilumina\u00e7\u00e3o de todos os cantos escuros do nosso jeito perdido de ser. O homem nada disse, levantou-se, caminhou em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 porta e quando j\u00e1 estava saindo, virou- se, olhou o m\u00e9dico nos olhos e sentenciou: &#8220;n\u00e3o posso procurar o circo&#8230; a\u00ed est\u00e1 o meu problema: eu sou o palha\u00e7o&#8221;. Como professor vejo que, \u00e0s vezes, sou esse palha\u00e7o, algu\u00e9m que trabalhou para construir os outros e n\u00e3o v\u00ea resultado muito claro daquilo que faz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tenho a impress\u00e3o que ensino no vazio (e sei que n\u00e3o estou s\u00f3 nesse sentimento) porque depois de formados meus ex-alunos parecem que se acostumam rapidamente com aquele mundo de iniq\u00fcidades que combat\u00edamos juntos. Parece que quando meus meninos(as) caem no mercado de trabalho a \u00fanica coisa que importa \u00e9 quanto cada um vai lucrar, n\u00e3o importando quem vai pagar essa conta e nem se algu\u00e9m vai ser lesado nesse processo. Aprenderam rindo, mas n\u00e3o querem passar o riso \u00e0 frente e nem se comovem com o choro alheio. Digo isso, at\u00e9 em tom de desabafo, porque vejo que cada dia mais meus alunos se gabam de desonestidades. Os que passam os outros para tr\u00e1s s\u00e3o her\u00f3is e os que protestam s\u00e3o ot\u00e1rios, idiotas ou exclu\u00eddos, \u00e9 uma total invers\u00e3o dos valores. Vejo que alguns professores partilham das mesmas id\u00e9ias e as defendem em sala de aula e na sala de professores e se vangloriam disso. Essa id\u00e9ia vem me assustando cada vez mais, desde que repreendi, numa conversa com alunos, o comportamento do cantor Zeca Pagodinho, no epis\u00f3dio da guerra das cervejas e quase todos disseram que o cantor estava certo, tontos foram os que confiaram nele. &#8220;O importante professor \u00e9 que o cara embolsou milh\u00f5es&#8221;, disse-me um; outro: &#8220;daqui a pouco ningu\u00e9m lembra mais, no Brasil \u00e9 assim, e ele vai continuar sendo o Zeca, s\u00f3 que um pouco mais rico&#8221;, todos se entreolharam e riram, s\u00f3 eu, bobo que sou, fiquei sem gra\u00e7a. O pior \u00e9 quando a gente se d\u00e1 conta que no Brasil \u00e9 assim mesmo, o que vale \u00e9 a lei de G\u00e9rson: &#8220;o importante \u00e9 levar vantagem em tudo&#8221;. ( Lei de Gerson&#8230;d\u00e1 para rir&#8230;) A pergunta \u00e9: \u00c9 poss\u00edvel, pela l\u00f3gica, que todo mundo ganhe ? Para algu\u00e9m ganhar \u00e9 \u00f3bvio que algu\u00e9m tem de perder.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A l\u00f3gica \u00e9 guardar o troco a mais recebido no caixa do supermercado; \u00e9 enrolar a aula fingindo que a mat\u00e9ria est\u00e1 sendo dada; \u00e9 fingir que a apostila est\u00e1 aberta na mat\u00e9ria dada, mas us\u00e1-la como apoio enquanto se joga forca, batalha naval ou jogo da velha; \u00e9 cortar a fila do cinema ou da entrada do show; \u00e9 dizer que leu o livro, quando ficou s\u00f3 no resumo ou na conversa com quem leu; \u00e9 marcar s\u00f3 o gabarito na prova em branco, copiado do vizinho, alegando que fez as contas de cabe\u00e7a; \u00e9 comprar na feira uma d\u00fazia de quinze laranjas; \u00e9 bater num carro parado e sair r\u00e1pido antes que algu\u00e9m perceba; \u00e9 brigar para baixar o pre\u00e7o m\u00ednimo das refei\u00e7\u00f5es nos restaurantes universit\u00e1rios, para sobrar mais dinheiro para a cerveja da tarde; \u00e9 arrancar as p\u00e1ginas ou escrever nos livros das bibliotecas p\u00fablicas; \u00e9 arrancar placas de tr\u00e2nsito e coloc\u00e1- las de enfeite no quarto; \u00e9 trocar o voto por empregos, pares de sapato ou cestas b\u00e1sicas; \u00e9 fraudar propaganda pol\u00edtica mostrando realiza \u00e7\u00f5es que nunca foram feitas. a l\u00f3gica da perpetua\u00e7\u00e3o da burrice. Quando um pa\u00eds perde, todo mundo perde. E n\u00e3o adianta pensar que logo bateremos no fundo do po\u00e7o, porque o po\u00e7o n\u00e3o tem fundo. Parafraseando Schopenhauer: &#8220;N\u00e3o h\u00e1 nada t\u00e3o desgra\u00e7ado na vida da gente que ainda n\u00e3o possa ficar pior&#8221;. Se os desonestos brasileiros voassem, n\u00f3s nunca ver\u00edamos o sol. Felizmente h\u00e1 os descontentes, os lutadores, os sonhadores, os que querem manter o sol aceso, brilhando e no alto. A luz \u00e9 e sempre foi a met\u00e1fora da intelig\u00eancia. No entanto, de nada adianta o conhecimento sem o car\u00e1ter. Que nas escolas seja t\u00e3o importante ensinar Literatura, Matem\u00e1tica ou Hist\u00f3ria quanto dec\u00eancia, senso de coletividade, coleguismo e respeito por si e pelos outros. Acho que o mundo (e, sobretudo, o Brasil) precisa mais de gente honesta do que de literatos, historiadores ou matem\u00e1ticos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ou o Brasil encontra e defende esses valores e abomina Zecas, G\u00e9rsons, Dirceus, Dudas, Roriz e todos os que chamam desonestidades flagrantes, de espertezas t\u00e9cnicas, ou o Brasil passa de pa\u00eds do futuro para pa\u00eds do s\u00f3 furo. De um Presidente da Rep\u00fablica espera-se mais do que choro e condecora\u00e7\u00e3o a garis honestos, espera-se honestidade em forma de trabalho e transpar\u00eancia. De professores, espera-se mais que discurso de bons modos, espera-se que mere\u00e7am o sal\u00e1rio que ganham (pouco ou muito) agindo como quem \u00e9 honesto. A honestidade n\u00e3o precisa de propaganda, nem de homenagens, precisa de exemplos. Quem plantar joio, jamais colher\u00e1 trigo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando reflex\u00f5es assim s\u00e3o feitas cada um de n\u00f3s se sente o palha\u00e7o perdido no palco das ilus\u00f5es. A gente se sente vendendo o que n\u00e3o pode viver, n\u00e3o porque n\u00e3o mere\u00e7a, mas porque n\u00e3o h\u00e1 ambiente para isso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando seria de se esperar uma vaia coletiva pelo tombo, pelo golpe dado na dec\u00eancia, na coer\u00eancia, na credibilidade, no senso de respeito, vemos a popula\u00e7\u00e3o em coro delirante gritando &#8220;bis&#8221; e, como todos sabemos, um bis n\u00e3o se despreza. Ent\u00e3o, uma pirueta, duas piruetas, bravo ! bravo ! E vamos todos rindo e afinando o coro do &#8220;se eu livrar a minha cara o resto que se dane&#8221;. Enquanto isso o Brasil de irm\u00e3 Dulce, de Manuel Bandeira, do Betinho, de Clarice Lispector, de Chiquinha Gonzaga e de muitos outros her\u00f3is an\u00f4nimos que diminu\u00edram a dor desse pa\u00eds com a sua obra, levanta-se, caminha em sil\u00eancio at\u00e9 a porta, vira-se e diz: &#8220;Esse \u00e9 o problema&#8230; eu sou o palha\u00e7o&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nailor Marques Junior Diz uma hist\u00f3ria que numa cidade apareceu um circo, e que entre seus artistas havia um palha\u00e7o com o poder de divertir, sem medida, todas as pessoas da plat\u00e9ia e o riso era t\u00e3o bom, t\u00e3o profundo e natural que se tornou terap\u00eautico. 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