{"id":862,"date":"2024-08-21T22:18:27","date_gmt":"2024-08-22T01:18:27","guid":{"rendered":"https:\/\/new.contandohistorias.com.br\/?p=862"},"modified":"2024-08-21T22:18:31","modified_gmt":"2024-08-22T01:18:31","slug":"carta-de-um-desempregado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/contandohistorias.com.br\/?p=862","title":{"rendered":"Carta de um desempregado"},"content":{"rendered":"\n<p>Esta carta foi escrita h\u00e1 120 anos por um desempregado cuja maior ambi\u00e7\u00e3o era ser pintor, por\u00e9m vendeu apenas um quadro em vida. O sobrinho deste homem passou-a a Humberto Borges, jornalista, numa tarde em Amsterdan. Ele a traduziu do franc\u00eas e a publicou. \u00c9 uma obra-prima t\u00e3o valiosa quanto os quadros daquele homem no desvio chamado Vincent Van Gogh<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Caro Theo:<\/p>\n\n\n\n<p>Eu estou escrevendo para voc\u00ea com alguma relut\u00e2ncia; n\u00e3o tendo escrito h\u00e1 tanto tempo por muitas raz\u00f5es. De certo modo voc\u00ea se tornou um estranho para mim e eu o mesmo para voc\u00ea, mais do que voc\u00ea possa pensar. Provavelmente eu n\u00e3o estaria escrevendo agora se voc\u00ea n\u00e3o tivesse dado motivo. Em Etten, soube que voc\u00ea mandou 50 francos para mim. Bem, eu aceitei, certamente com relut\u00e2ncia, sentindo bastante melancolia, mas estou encurralado contra um muro de pedra, numa esp\u00e9cie de confus\u00e3o. Como poderia ser de outra maneira ? Portanto, estou escrevendo para agradecer.<\/p>\n\n\n\n<p>Involuntariamente eu me tornei uma esp\u00e9cie de personagem imposs\u00edvel e suspeito para a fam\u00edlia. No m\u00ednimo, algu\u00e9m em quem eles n\u00e3o confiam. Desta maneira, como eu poderia servir para algu\u00e9m ?<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, penso que \u00e9 mais razo\u00e1vel manter uma dist\u00e2ncia conveniente. Deixo de existir para todos voc\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>A adversidade \u00e9 para o homem o mesmo que a muda \u00e9 para os p\u00e1ssaros. Algu\u00e9m pode estar no tempo de muda para emergir renovado do sofrimento, mas isso n\u00e3o \u00e9 absolutamente divertido e n\u00e3o deve ocorrer em p\u00fablico. A \u00fanica coisa a fazer \u00e9 se isolar. Assim seja. \u00c9 muito dif\u00edcil, agora, reconquistar a confian\u00e7a da fam\u00edlia, a qual n\u00e3o est\u00e1 livre dos preconceitos sobre as qualidades de ser bom tom e honor\u00e1vel. Mas n\u00e3o perco a esperan\u00e7a de conseguir uma compreens\u00e3o cordial renovada entre n\u00f3s. Um entendimento cordial \u00e9 infinitamente melhor que mal-entendidos. Agora preciso aborrec\u00ea-lo com certas coisas abstratas, mas espero que seja paciente.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu sou um homem de paix\u00f5es, capaz de fazer coisas mais ou menos extravagantes, das quais \u00e0s vezes me arrependo. Nesses momentos, falo e me comporto impetuosamente, quando seria melhor ter paci\u00eancia e esperar. Eu penso que as outras pessoas muitas vezes cometem os mesmos erros. O problema \u00e9 orientar esses sentimentos para coisas boas. Por exemplo, para citar uma delas: eu tenho uma paix\u00e3o mais ou menos irresist\u00edvel por livros e quero estudar tanto quanto sinto necessidade de p\u00e3o. Voc\u00ea certamente \u00e9 capaz de entender isso. Na vizinhan\u00e7a de pinturas e outras obras de arte, tenho uma paix\u00e3o violenta por elas, atingindo o pico do entusiasmo. Talvez voc\u00ea recorde que eu sei bem quem foi Rembrant, ou Millet, ou Jules Dupr\u00e9, ou Delacroix, ou Millais, ou Mr. Maris. Agora eu n\u00e3o os tenho por perto. Contudo, naquela coisa chamada ALMA, que dizem nunca morrer, continua viva e procura para sempre. Portanto, em vez de dar lugar \u00e0 saudade (da Holanda) eu disse para mim mesmo: &#8220;aquela terra ou a sua terra natal \u00e9 qualquer lugar.&#8221; Assim, em vez de ficar no desespero, escolhi parte ativa da melancolia. Eu prefiro a aspira\u00e7\u00e3o e a procura, em vez da estagna\u00e7\u00e3o e do desespero. Atualmente aquele que est\u00e1 absorvido em tudo isso \u00e9 exc\u00eantrico e comete pecados contra costumes e conven\u00e7\u00f5es sociais sem perceber. Isso \u00e9 uma pena,quando \u00e9 levado a mal. Voc\u00eas sabem que eu tenho negligenciado minha apar\u00eancia e admito que \u00e9 chocante. Mas veja aqui, a pobreza e a necessidade t\u00eam suas partes na causa, al\u00e9m do profundo desencorajamento. Isto serve, por\u00e9m, algumas vezes, como uma boa maneira de assegurar a solid\u00e3o necess\u00e1ria \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o e ao estudo. H\u00e1 mais de cinco anos, eu n\u00e3o sei exatamente quanto tempo, tenho estado sem emprego, vagando daqui para acol\u00e1. Voc\u00ea me disse que eu decaio, deterioro, que n\u00e3o fa\u00e7o nada. A verdade \u00e9 que ocasionalmente ganho meu peda\u00e7o de p\u00e3o e, ocasionalmente, recebo este p\u00e3o dos amigos, por caridade. Vivo como posso, como a sorte me permite. Perdi a confian\u00e7a de muitos, minhas finan\u00e7as est\u00e3o num estado triste, o futuro parece apenas bastante melanc\u00f3lico; eu deveria ter me sa\u00eddo melhor. \u00c9 verdade que perdi tempo em termos de ganhar meu p\u00e3o, que meus estudos est\u00e3o numa condi\u00e7\u00e3o sem esperan\u00e7as, que minhas necessidades s\u00e3o infinitamente maiores que minhas posses. Mas \u00e9 a isso que voc\u00ea chama de decad\u00eancia , de n\u00e3o fazer nada ?<\/p>\n\n\n\n<p>Mas devo ser coerente com o caminho que escolhi. Se eu n\u00e3o fizer nada, n\u00e3o estudar, n\u00e3o continuar procurando, estarei perdido. Ent\u00e3o serei a dor. \u00c9 assim que vejo a coisa. Talvez voc\u00ea pergunte qual o meu prop\u00f3sito definitivo ? Esse prop\u00f3sito se tornou mais definitivo. Devo desenvolver-me devagar, mas seguramente, como o tra\u00e7o duro se transforma em desenho e o desenho em pintura pouco a pouco, trabalhando s\u00e9rio, ponderando sobre a id\u00e9ia, at\u00e9 fix\u00e1-la atrav\u00e9s do pensamento&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das raz\u00f5es pela qual estou desempregado h\u00e1 anos \u00e9 simplesmente porque minhas id\u00e9ias s\u00e3o diferentes e os gentlemans d\u00e3o lugares aos homens que pensam como eles. N\u00e3o \u00e9 meramente uma quest\u00e3o de roupas que eles t\u00eam hipocritamente censurado em mim. \u00c9 algo mais s\u00e9rio, eu lhe asseguro. Voc\u00ea acha que eu mudei, que eu n\u00e3o sou mais o mesmo. O que mudou foi a minha vida, mas no \u00edntimo, minha maneira de ver as coisas, minha maneira de pensar n\u00e3o mudaram muito. Se houve alguma mudan\u00e7a, \u00e9 que penso, acredito e amo muito mais seriamente agora do que pensava, acreditava e amava antes. Voc\u00ea n\u00e3o deve pensar que eu renego as coisas &#8211; eu sou bastante fiel na minha infidelidade &#8211; e, embora mudado, eu sou o mesmo. Minha \u00fanica ansiedade \u00e9 saber que posso ser \u00fatil ao mundo. Eu me sinto aprisionado pela pobreza, exclu\u00eddo da participa\u00e7\u00e3o em certos trabalhos e certas necessidades est\u00e3o al\u00e9m de minhas posses. Eis a raz\u00e3o para eu ser algo melanc\u00f3lico. Ent\u00e3o, sinto um vazio onde deveria haver amizade, um terr\u00edvel desencorajamento corroendo a verdadeira energia moral. E o destino parece erguer uma barreira diante dos instintos de afei\u00e7\u00e3o e uma chocante inunda\u00e7\u00e3o de desgosto envolve a gente. Por quanto tempo, meu Deus ????<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez haja uma grande chama da nossa alma , talvez ningu\u00e9m mais venha se aquecer junto dela e o passante seja apenas uma pluma de fuma\u00e7a saindo da chamin\u00e9 e seguindo seu caminho. Mas algu\u00e9m deve zelar por esse fogo interior, temperando a si mesmo; esperar pacientemente pela hora em que outra pessoa sente-se junto a esse fogo, talvez para ficar. Deixe que aquele que acredita em Deus possa esperar pela hora em que isso aconte\u00e7a , mas por enquanto parece que essa coisa est\u00e1 indo muito mal comigo: e tem sido assim ppor um tempo consider\u00e1vel. Talvez continue assim no futuro. Mas pode ser que um dia as coisas corram bem. Se as minhas id\u00e9ias s\u00e3o imposs\u00edveis ou infantis, eu espero poder escapar delas. N\u00e3o quero nada melhor. Mas \u00e9 isso que penso aproximadamente a respeito do assunto. Em &#8220;Um Fil\u00f3sofo no Telhado&#8221;, de Souvestre, voc\u00ea saber\u00e1 como um homem do povo, um simples e miser\u00e1vel trabalhador imagina o seu pr\u00f3prio pa\u00eds. Talvez voc\u00ea nunca tenha pensado no seu pa\u00eds como ele realmente \u00e9. \u00c9 tudo a sua volta, tudo o que te alimentou, o que te fez crescer, tudo o que voc\u00ea amou; os campos que voc\u00ea viu, aquelas casas, aquelas \u00e1rvores, aquelas garotas que passavam sorrindo -isso \u00e9 o seu pa\u00eds. \u00c9 tamb\u00e9m as leis que o protegem, o p\u00e3o que compensa o trabalho, as palavras que dizes, a alegria e a dor do povo que chegam a ti e as coisas entre as quais vives. Vejas, tu o respiras por toda parte. Imagina todos os direitos e deveres, afei\u00e7\u00f5es e necessidades, mem\u00f3rias e gratid\u00f5es; junta tudo em um s\u00f3 nome e este ser\u00e1 o nome do teu pa\u00eds. Desta maneira eu penso que tudo de realmente bom e belo, de fundo moral e espiritual e de sublime beleza no homem e em seus trabalhos, vem tudo de Deus. E tudo de ruim, de mal e errado, n\u00e3o vem de Deus e Deus n\u00e3o aprova isso. Mas eu sempre pensei que a melhor maneira de conhecer Deus \u00e9 amar muitas coisas. Amar um amigo, uma esposa, alguma coisa. Seja l\u00e1 o que voc\u00ea goste e estar\u00e1 no caminho de saber mais sobre Ele. \u00c9 isto o que digo a mim mesmo. Mas deve-se amar com profunda e sublime simpatia, com for\u00e7a e com intelig\u00eancia e deve-se sempre tentar saber mais profundamente. Isso leva a Deus; leva a uma f\u00e9 irremov\u00edvel. Eu escrevo mais ou menos \u00e0 esmo tudo o que me aflui \u00e0 pena. Eu me sentiria bastante contente se voc\u00ea pudesse ver em mim alo mais que um desocupado. H\u00e1 duas esp\u00e9cies de inatividade, as quais t\u00eam grandes contrastes entre si. Existe o desocupado por indol\u00eancia, por falta de car\u00e1ter, pela ess\u00eancia de sua natureza. Se voc\u00ea quiser, pode me tomar por um deles. Mas existe o homem que \u00e9 desocupado a despeito de si pr\u00f3prio, que interiormente \u00e9 consumido por uma grande necessidade de a\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o faz nada porque para ele \u00e9 imposs\u00edvel fazer qualquer coisa, porque ele se sente prisioneiro em uma jaula, porque ele n\u00e3o possui o que precisa para ser produtivo, porque as circunst\u00e2ncias o levam inevitavelmente a esse ponto.<\/p>\n\n\n\n<p>Um p\u00e1ssaro preso na primavera sabe muito bem que deve servir para algum fim; ele est\u00e1 consciente de que h\u00e1 algo que deve fazer, mas n\u00e3o pode. O que \u00e9 isso ? &#8211; Ele quase n\u00e3o consegue lembrar. Ent\u00e3o algumas id\u00e9ias vagas lhe ocorrem; diz a si mesmo que os outros constroem ninhos e poem ovos fazendo nascer outros pequeninos e ele bate a cabe\u00e7a contra as barras da gaiola. A pris\u00e3o permanece e o p\u00e1ssaro \u00e9 enlouquecido pela ang\u00fastia. ..<\/p>\n\n\n\n<p>Voc\u00ea sabe o que liberta algu\u00e9m do cativeiro ? \u00c9 toda a profunda e s\u00e9ria afei\u00e7\u00e3o. Amar, ser amigo, ser irm\u00e3o. Eis o que abre a pris\u00e3o, por alguma for\u00e7a m\u00e1gica. Sem isso permanece a clausura. A pris\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m o preconceito, o mal entendido, a ignor\u00e2ncia, a desconfian\u00e7a, a falsa vergonha&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas pra falar de outras coisas, se eu por acaso puder fazer algo por voc\u00ea, quero que saiba que estou \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o. Como aceitei o que voc\u00ea me deu, gostaria de que voc\u00ea recorresse \u00e0 mim, caso necessite de algum servi\u00e7o. Isto me faria feliz; seria uma prova de confian\u00e7a. N\u00f3s estamos bastante separados, talvez tenhamos vis\u00f5es diferentes sobre algumas coisas mas, apesar de tudo, talvez chegue a hora em que possamos ser de alguma valia um para o outro. Agora aperto sua m\u00e3o, agradecendo novamente pelo aux\u00edlio que voc\u00ea me deu.<\/p>\n\n\n\n<p>Sempre seu,<\/p>\n\n\n\n<p>Vincent<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esta carta foi escrita h\u00e1 120 anos por um desempregado cuja maior ambi\u00e7\u00e3o era ser pintor, por\u00e9m vendeu apenas um quadro em vida. O sobrinho deste homem passou-a a Humberto Borges, jornalista, numa tarde em Amsterdan. 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