{"id":889,"date":"2024-08-25T22:30:31","date_gmt":"2024-08-26T01:30:31","guid":{"rendered":"https:\/\/new.contandohistorias.com.br\/?p=889"},"modified":"2024-08-25T22:31:02","modified_gmt":"2024-08-26T01:31:02","slug":"cinquentona","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/contandohistorias.com.br\/?p=889","title":{"rendered":"Cinq\u00fcentona"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Manoel Carlos<\/em><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-rich is-provider-incorporar-manipulador wp-block-embed-incorporar-manipulador\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-889-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/www.contandohistorias.com.br\/mp3\/2006174.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.contandohistorias.com.br\/mp3\/2006174.mp3\">https:\/\/www.contandohistorias.com.br\/mp3\/2006174.mp3<\/a><\/audio>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Minha amiga Sylvia fez 50 anos e deu uma linda festa para os amigos. Brigadeiros, casadinhos, olhos-de-sogra, al\u00e9m de salgados e bebidas \u00e0 vontade. E no centro da mesa, iluminado por cinq\u00fcenta velinhas, um colossal e saboroso bolo de anivers\u00e1rio. Ah, e tamb\u00e9m, claro, com direito a um coro de muitas vozes, cantando &#8220;Parab\u00e9ns pr\u00e1 Voc\u00ea&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Que coragem &#8211; brincou o Z\u00e9 M\u00e1rio, nosso velho companheiro das noitadas de p\u00f4quer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sylvia rebateu em cima:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Por qu\u00ea? Acha que ainda escondo a minha idade? J\u00e1 superei isso, meu caro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 No seu caso n\u00e3o \u00e9 esconder &#8211; continuou Z\u00e9 M\u00e1rio<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Pr\u00e1 que declarar, se voc\u00ea aparenta menos?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Mas, \u00e9 justamente por isso que sinto tanto prazer em revelar minha verdadeira idade. \u00c9 para ver as pessoas admiradas. Meus 50 anos n\u00e3o s\u00e3o um peso, mas, um pr\u00eamio, um trof\u00e9u, uma tocha ol\u00edmpica que carrego com orgulho pela vida afora. Que \u00e9 que voc\u00ea pensa? Sou uma cinq\u00fcentona e ainda bato um bol\u00e3o!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E, nesse clima de feliz comemora\u00e7\u00e3o, varamos a noite, o champanhe gelado, o vinho rubro. E n\u00e3o \u00e9 preciso dizer que a aniversariante reinou o tempo todo, dan\u00e7ando sem parar, nocauteando homens at\u00e9 dez anos mais novos do que ela. Como o seu pr\u00f3prio marido, o terceiro, que no s\u00e1bado pr\u00f3ximo estar\u00e1 completando 41 anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sei que nem todas as mulheres s\u00e3o Sylvia. E que, para ser como ela, \u00e9 preciso muita vontade, algum sacrif\u00edcio e uma boa dose de heran\u00e7a gen\u00e9tica. Mas, o mais necess\u00e1rio mesmo \u00e9 a disposi\u00e7\u00e3o para a felicidade e a certeza de que sempre, sempre estar\u00e1 em tempo de viver uma vida produtiva. De qualquer maneira, mesmo as que n\u00e3o s\u00e3o Sylvia se sentem, hoje, mais livres do que nunca desse estigma que, por d\u00e9cadas, marcou todas elas e produziu um repert\u00f3rio imenso de piadas infames e cru\u00e9is: diminuir a idade. Conclu\u00ed que, hoje em dia, as mulheres de 50 n\u00e3o t\u00eam mais do que 30! Verdade. Muitas das minhas amigas j\u00e1 passaram dessa marca e nunca se sentiram t\u00e3o bem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1980 escrevi alguns programas da s\u00e9rie Malu Mulher para Regina Duarte. Num deles, Malu comemorava 33 anos. Dei a esse epis\u00f3dio o t\u00edtulo Antes dos 40, depois dos 30, colocando esse per\u00edodo de dez anos como o mais positivo na vida de uma mulher. Seu tempo de felicidade. Bem, isso foi em 1980. Vinte e cinco anos atr\u00e1s. Hoje eu n\u00e3oCinq\u00fcentona<br>Manoel Carlos<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Minha amiga Sylvia fez 50 anos e deu uma linda festa para os amigos. Brigadeiros, casadinhos, olhos-de-sogra, al\u00e9m de salgados e bebidas \u00e0 vontade. E no centro da mesa, iluminado por cinq\u00fcenta velinhas, um colossal e saboroso bolo de anivers\u00e1rio. Ah, e tamb\u00e9m, claro, com direito a um coro de muitas vozes, cantando &#8220;Parab\u00e9ns pr\u00e1 Voc\u00ea&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Que coragem &#8211; brincou o Z\u00e9 M\u00e1rio, nosso velho companheiro das noitadas de p\u00f4quer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sylvia rebateu em cima:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Por qu\u00ea? Acha que ainda escondo a minha idade? J\u00e1 superei isso, meu caro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 No seu caso n\u00e3o \u00e9 esconder &#8211; continuou Z\u00e9 M\u00e1rio<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Pr\u00e1 que declarar, se voc\u00ea aparenta menos?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Mas, \u00e9 justamente por isso que sinto tanto prazer em revelar minha verdadeira idade. \u00c9 para ver as pessoas admiradas. Meus 50 anos n\u00e3o s\u00e3o um peso, mas, um pr\u00eamio, um trof\u00e9u, uma tocha ol\u00edmpica que carrego com orgulho pela vida afora. Que \u00e9 que voc\u00ea pensa? Sou uma cinq\u00fcentona e ainda bato um bol\u00e3o!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E, nesse clima de feliz comemora\u00e7\u00e3o, varamos a noite, o champanhe gelado, o vinho rubro. E n\u00e3o \u00e9 preciso dizer que a aniversariante reinou o tempo todo, dan\u00e7ando sem parar, nocauteando homens at\u00e9 dez anos mais novos do que ela. Como o seu pr\u00f3prio marido, o terceiro, que no s\u00e1bado pr\u00f3ximo estar\u00e1 completando 41 anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sei que nem todas as mulheres s\u00e3o Sylvia. E que, para ser como ela, \u00e9 preciso muita vontade, algum sacrif\u00edcio e uma boa dose de heran\u00e7a gen\u00e9tica. Mas, o mais necess\u00e1rio mesmo \u00e9 a disposi\u00e7\u00e3o para a felicidade e a certeza de que sempre, sempre estar\u00e1 em tempo de viver uma vida produtiva. De qualquer maneira, mesmo as que n\u00e3o s\u00e3o Sylvia se sentem, hoje, mais livres do que nunca desse estigma que, por d\u00e9cadas, marcou todas elas e produziu um repert\u00f3rio imenso de piadas infames e cru\u00e9is: diminuir a idade. Conclu\u00ed que, hoje em dia, as mulheres de 50 n\u00e3o t\u00eam mais do que 30! Verdade. Muitas das minhas amigas j\u00e1 passaram dessa marca e nunca se sentiram t\u00e3o bem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1980 escrevi alguns programas da s\u00e9rie Malu Mulher para Regina Duarte. Num deles, Malu comemorava 33 anos. Dei a esse epis\u00f3dio o t\u00edtulo Antes dos 40, depois dos 30, colocando esse per\u00edodo de dez anos como o mais positivo na vida de uma mulher. Seu tempo de felicidade. Bem, isso foi em 1980. Vinte e cinco anos atr\u00e1s. Hoje eu n\u00e3o escreveria essa hist\u00f3ria. Hoje sei que uma mulher pode ser feliz para sempre , levantando-se a cada tombo. Em sua maioria, elas j\u00e1 n\u00e3o entram em crise por causa da idade. Claro que n\u00e3o querem envelhecer. Ningu\u00e9m quer. Mas, esse n\u00e3o querer n\u00e3o est\u00e1 ligado apenas \u00e0 apar\u00eancia, mas \u00e0 sa\u00fade, \u00e0 boa disposi\u00e7\u00e3o para enfrentar o dia e\u2026 &#8211; sem nenhuma d\u00favida &#8211; \u00e0 certeza de que n\u00e3o existe idade que as impe\u00e7am de amar, ser amadas. E de ainda fazer bonito entre os len\u00e7\u00f3is de uma cama. Sylvia, por exemplo, tem tudo para botar um garot\u00e3o com a l\u00edngua de fora, s\u00f4frego, cansado, pedindo um tempo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu me lembro de uma vizinha, quando eu era crian\u00e7a, que, quando foi subitamente abandonada pelo marido, provocou em minha m\u00e3e esta frase: &#8220;Pobre Dolores! Sozinha aos 50 anos! O que vai ser dela agora?&#8221; A consterna\u00e7\u00e3o da minha m\u00e3e traduzia o que se pe nsava de uma mulher que tivesse ultrapassado a marca dos 25, 30 anos, no m\u00e1ximo. Uma velha. N\u00e3o sei o que aconteceu com a pobre Dolores, mas, acredito que tenha arrastado por toda a vida a amargura e a desesperan\u00e7a. Atualmente, uma separa\u00e7\u00e3o aos 50 anos pode ser o come\u00e7o de um novo tempo, muitas vezes melhor, mais feliz do que o anterior. Sem contar que, nos dias de hoje, um casamento que vai mal das pernas n\u00e3o dura at\u00e9 a mulher chegar aos 50. Acaba antes, j\u00e1 que elas n\u00e3o carregam uma vida infeliz por muito tempo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nas minhas novelas procuro retratar as mulheres maduras, essas que j\u00e1 passaram dos 40. S\u00e3o elas que t\u00eam as melhores hist\u00f3rias para contar, as confiss\u00f5es mais tocantes, as lembran\u00e7as mais ternas, os epis\u00f3dios mais picantes. Que ainda sofrem e choram, sim, mas, que n\u00e3o sofrem nem choram para sempre. E que, quando fazem 50 anos, d\u00e3o festa, convidam os amigos, apagam as velinhas e fazem coro em causa pr\u00f3pria, cantando o Parab\u00e9ns pra Voc\u00ea!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por isso, digo e repito: bem-aventuradas as cinq\u00fcentonas! As que se renovam a cada dia, a cada instante, e que podem renascer incessante e indefinidamente, repetindo os versos de Cec\u00edlia Meireles:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aprendi com a primavera a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira. escreveria essa hist\u00f3ria. Hoje sei que uma mulher pode ser feliz para sempre , levantando-se a cada tombo. Em sua maioria, elas j\u00e1 n\u00e3o entram em crise por causa da idade. Claro que n\u00e3o querem envelhecer. Ningu\u00e9m quer. Mas, esse n\u00e3o querer n\u00e3o est\u00e1 ligado apenas \u00e0 apar\u00eancia, mas \u00e0 sa\u00fade, \u00e0 boa disposi\u00e7\u00e3o para enfrentar o dia e&#8230; &#8211; sem nenhuma d\u00favida &#8211; \u00e0 certeza de que n\u00e3o existe idade que as impe\u00e7am de amar, ser amadas. E de ainda fazer bonito entre os len\u00e7\u00f3is de uma cama. Sylvia, por exemplo, tem tudo para botar um garot\u00e3o com a l\u00edngua de fora, s\u00f4frego, cansado, pedindo um tempo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu me lembro de uma vizinha, quando eu era crian\u00e7a, que, quando foi subitamente abandonada pelo marido, provocou em minha m\u00e3e esta frase: &#8220;Pobre Dolores! Sozinha aos 50 anos! O que vai ser dela agora?&#8221; A consterna\u00e7\u00e3o da minha m\u00e3e traduzia o que se pe nsava de uma mulher que tivesse ultrapassado a marca dos 25, 30 anos, no m\u00e1ximo. Uma velha. N\u00e3o sei o que aconteceu com a pobre Dolores, mas, acredito que tenha arrastado por toda a vida a amargura e a desesperan\u00e7a. Atualmente, uma separa\u00e7\u00e3o aos 50 anos pode ser o come\u00e7o de um novo tempo, muitas vezes melhor, mais feliz do que o anterior. Sem contar que, nos dias de hoje, um casamento que vai mal das pernas n\u00e3o dura at\u00e9 a mulher chegar aos 50. Acaba antes, j\u00e1 que elas n\u00e3o carregam uma vida infeliz por muito tempo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nas minhas novelas procuro retratar as mulheres maduras, essas que j\u00e1 passaram dos 40. S\u00e3o elas que t\u00eam as melhores hist\u00f3rias para contar, as confiss\u00f5es mais tocantes, as lembran\u00e7as mais ternas, os epis\u00f3dios mais picantes. Que ainda sofrem e choram, sim, mas, que n\u00e3o sofrem nem choram para sempre. E que, quando fazem 50 anos, d\u00e3o festa, convidam os amigos, apagam as velinhas e fazem coro em causa pr\u00f3pria, cantando o Parab\u00e9ns pra Voc\u00ea!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por isso, digo e repito: bem-aventuradas as cinq\u00fcentonas! As que se renovam a cada dia, a cada instante, e que podem renascer incessante e indefinidamente, repetindo os versos de Cec\u00edlia Meireles:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aprendi com a primavera a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira.<\/p>\n<\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Manoel Carlos Minha amiga Sylvia fez 50 anos e deu uma linda festa para os amigos. Brigadeiros, casadinhos, olhos-de-sogra, al\u00e9m de salgados e bebidas \u00e0 vontade. E no centro da mesa, iluminado por cinq\u00fcenta velinhas, um colossal e saboroso bolo de anivers\u00e1rio. 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