A escolha de José Bonifácio para cuidar do menino que se tornaria Dom Pedro II parece, à primeira vista, surpreendente. Anos antes, os dois haviam passado por uma ruptura política profunda. Em 1823, depois que Dom Pedro I dissolveu a Assembleia Constituinte, José Bonifácio foi preso e enviado para o exílio na França. O antigo ministro, que tivera papel decisivo ao lado do príncipe durante a Independência, passou seis anos afastado do Brasil.
Bonifácio voltou ao país em 1829. A distância e o tempo não apagaram os conflitos, mas abriram espaço para uma reaproximação. Quando a crise política de Dom Pedro I chegou ao ponto decisivo, em abril de 1831, o imperador precisou pensar no futuro dos filhos que ficariam no Brasil. O herdeiro, Pedro de Alcântara, tinha apenas cinco anos e, com a abdicação do pai, passaria a ocupar o trono como Dom Pedro II.
Naquele momento, Dom Pedro I voltou-se para o antigo conselheiro. Em 7 de abril de 1831, ao abdicar e partir para a Europa, nomeou José Bonifácio tutor de seus filhos que permaneceriam no país. No decreto, descreveu-o como “meu verdadeiro amigo”. A expressão revela a confiança que ainda depositava em Bonifácio, embora não permita concluir que as mágoas provocadas pelos conflitos anteriores tivessem desaparecido por completo. A escolha pode ser entendida como uma decisão pessoal e também prática: Dom Pedro I confiava a educação dos filhos a um homem experiente, de grande prestígio e que conhecia bem a família imperial.
A nomeação do pai, contudo, não encerrou o processo. A Assembleia Geral confirmou José Bonifácio no cargo, e uma lei de agosto de 1831 definiu suas responsabilidades. Ele seria tutor também das irmãs de Dom Pedro II, poderia escolher os mestres e funcionários da Casa Imperial e deveria prestar contas de sua administração ao Legislativo. A lei estabelecia ainda que o tutor não poderia praticar atos políticos em nome dos jovens.
Essa distinção era importante: José Bonifácio cuidaria da educação e da vida cotidiana do jovem imperador, enquanto o governo do país caberia à Regência. Para Pedro II, entretanto, a presença de um tutor escolhido pelo pai representava um vínculo com a família e com a história política do Império, num período em que ele ainda era criança e o Brasil começava uma nova etapa de sua vida independente.
A trajetória de José Bonifácio ajuda a compreender a escolha. Ele havia sido afastado, preso e exilado por Dom Pedro I, mas voltou a ocupar um lugar de confiança quando o imperador precisou deixar os filhos para trás. A antiga ruptura não impediu a reconciliação; tornou a nomeação ainda mais reveladora. Na hora da partida, Dom Pedro I entregou a Bonifácio o cuidado de seu herdeiro e das princesas.