A história da tecnologia é frequentemente pontuada por saltos de inovação que parecem mágicos, mas que, na realidade, são fruto de cálculos exaustivos e décadas de dedicação. No dia 17 de janeiro de 2026, despedimo-nos de Gladys West, uma das mentes mais brilhantes do século XX, cuja partida aos 95 anos nos convida a refletir sobre como o seu trabalho transformou a geografia global. Gladys não foi apenas uma participante da era espacial; ela foi a matemática que decifrou a complexidade da forma da Terra, permitindo que o Sistema de Posicionamento Global (GPS) deixasse de ser um conceito teórico para se tornar uma ferramenta de precisão milimétrica.

A trajetória de Gladys West começou na zona rural da Virgínia, onde ela superou as barreiras da segregação para se tornar uma mestre em matemática. Ao ingressar na Marinha dos Estados Unidos em 1956, ela mergulhou em um desafio que a maioria dos cientistas considerava hercúleo: o processamento de dados de satélite. No início da década de 1960, Gladys participou de um estudo premiado que demonstrou a regularidade do movimento de Plutão em relação a Netuno, mas foi o seu trabalho subsequente no projeto do satélite GEOSAT que mudaria o curso da história. O GEOSAT foi o primeiro satélite de altimetria por radar de alta precisão, e Gladys foi a responsável por programar os algoritmos que processavam os dados captados por ele para medir a altura da superfície do oceano.

O grande diferencial do trabalho de Gladys West no desenvolvimento do GPS foi a criação de um modelo matemático refinado do geóide terrestre. A Terra não é uma esfera perfeita nem um elipsoide liso; sua massa é distribuída de forma desigual, o que cria variações na gravidade e “calombos” em sua superfície. Para que um GPS funcione, o satélite precisa saber exatamente onde você está em relação a esse centro de gravidade irregular. Gladys desenvolveu as complexas equações de algoritmos de computador que levavam em conta essas forças gravitacionais variáveis e até o efeito das marés e da pressão atmosférica sobre a forma da Terra. Ela passou incontáveis horas refinando os cálculos no imenso computador Naval Ordnance Research Calculator (NORC), garantindo que os dados de tempo e posição enviados pelos satélites fossem corrigidos para as distorções da realidade física do planeta.

Sem a precisão dos cálculos de Gladys, o GPS teria erros de quilômetros, tornando-o inútil para a navegação moderna. Ela construiu o software geodésico que permitiu ao sistema entender a diferença entre a superfície física da Terra e o modelo matemático idealizado. Durante os anos 70 e 80, sua dedicação foi tamanha que ela frequentemente revisava manualmente os resultados das máquinas para garantir que nenhum erro de arredondamento comprometesse a integridade dos dados. Seu trabalho foi o alicerce para o Global Positioning System, fornecendo a infraestrutura matemática sobre a qual todos os aplicativos de navegação atuais foram construídos.

Com o seu falecimento em janeiro de 2026, perdemos uma pioneira que, por décadas, foi uma “figura escondida” nos bastidores da segurança nacional e da ciência geoespacial. Gladys West provou que a precisão é uma forma de arte e que a persistência intelectual pode superar qualquer barreira social. Hoje, cada vez que olhamos para um mapa digital ou cruzamos uma fronteira guiados por satélites, estamos navegando através das equações de Gladys. Ela não apenas mapeou o mundo; ela deu à humanidade a capacidade de se encontrar em qualquer lugar dele.

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