“República no Brasil e desgraça completa é a mesma coisa.”
A frase parece improvável quando se descobre o nome de seu autor. Ela foi escrita por Manuel Deodoro da Fonseca, o marechal que, pouco tempo depois, entraria para a história como o homem que proclamou a República no Brasil.
A contradição não é apenas curiosa. Ela ajuda a compreender que o dia 15 de novembro de 1889 esteve longe de ser o desfecho inevitável de um grande movimento popular. A República nasceu em meio a conflitos militares, ressentimentos pessoais, boatos, interesses políticos e decisões tomadas às pressas.
Deodoro da Fonseca pertencia a uma família profundamente ligada ao Exército. Havia combatido na Guerra do Paraguai, conquistado prestígio entre os militares e alcançado o posto de marechal. Era respeitado pela tropa e considerado uma das poucas figuras capazes de unir oficiais de diferentes tendências.
Apesar disso, Deodoro não era republicano. Mantinha uma relação de amizade e admiração por Dom Pedro II. Conta-se que declarou desejar acompanhar o caixão do imperador quando este morresse, demonstrando a consideração que nutria pelo monarca.
Sua opinião sobre a República também havia sido registrada de maneira clara. Em 1888, seu sobrinho Clodoaldo escreveu-lhe manifestando simpatia pelas ideias republicanas. Deodoro respondeu sem hesitação:
“República no Brasil é coisa impossível porque será uma verdadeira desgraça. Os brasileiros estão e estarão muito mal educados para republicanos. O único sustentáculo do nosso Brasil é a monarquia. Se mal com ela, pior sem ela.”
Um ano depois, seria justamente ele o responsável pelo golpe que encerraria quase sete décadas de monarquia. Na noite de 14 de novembro de 1889, o ambiente no Rio de Janeiro era de tensão. A chamada Questão Militar havia agravado o conflito entre oficiais do Exército e o governo imperial. Republicanos civis e militares conspiravam contra o regime, porém ainda faltava uma liderança com autoridade suficiente para colocar as tropas em movimento.
Deodoro era o nome essencial. O problema era que o marechal hesitava. Além de monarquista, estava doente e não demonstrava disposição para participar de uma ação destinada a derrubar Dom Pedro II.
Os conspiradores, então, decidiram pressioná-lo. O major Frederico Sólon de Sampaio Ribeiro foi até a residência de Deodoro e lhe transmitiu informações alarmantes. Disse que o governo preparava a prisão de militares envolvidos no movimento e que o próprio marechal poderia ser detido.
A notícia provocou sua indignação. Sentindo-se ameaçado e acreditando que o governo imperial havia se voltado contra ele, Deodoro aceitou liderar as tropas. A decisão que mudaria a história do Brasil foi tomada em meio a rumores cuja veracidade jamais havia sido confirmada.
Na manhã de 15 de novembro, o marechal seguiu à frente de soldados em direção ao Campo da Aclamação, atual Praça da República, no Rio de Janeiro.
A cena, posteriormente retratada como uma marcha republicana cuidadosamente planejada, era muito mais confusa. Grande parte dos soldados acreditava estar participando apenas da derrubada do gabinete comandado pelo visconde de Ouro Preto. Muitos não sabiam que a monarquia seria abolida.
O próprio Deodoro parecia agir inicialmente contra o ministério, e não contra o imperador. Diante das tropas, teria saudado Dom Pedro II com um grito de “Viva Sua Majestade, o Imperador!”. A manifestação revelava a ambiguidade daquele momento. O homem colocado à frente da revolta ainda demonstrava lealdade ao monarca que ajudaria a depor poucas horas depois.
O ministério imperial caiu. Entretanto, os republicanos temiam que Dom Pedro II nomeasse um novo gabinete e preservasse a monarquia. Era necessário levar o movimento além.
Durante o restante do dia, a pressão sobre Deodoro continuou. Intrigas políticas e rivalidades pessoais também foram exploradas. Espalhou-se a informação de que o imperador escolheria Gaspar Silveira Martins para chefiar o novo ministério. Deodoro era adversário de Martins, e a possibilidade de vê-lo no poder aumentou sua revolta.
Naquela noite, a República foi proclamada. Dom Pedro II não organizou resistência armada. Dois dias depois, a família imperial recebeu a ordem para deixar o Brasil. O imperador, que reinara por quase meio século, partiu para o exílio sem que a população tivesse sido consultada sobre a mudança de regime.
Deodoro assumiu a chefia do Governo Provisório. Posteriormente, foi escolhido pelo Congresso como o primeiro presidente da República. A experiência no poder, porém, revelou-se muito diferente da liderança exercida nos quartéis.
O novo governo enfrentou inflação, disputas entre grupos republicanos, conflitos com o Congresso e crescente instabilidade política. Deodoro, formado para comandar soldados, encontrava dificuldades diante das negociações e concessões exigidas pela vida parlamentar. Sua saúde também se deteriorava.
Em novembro de 1891, pressionado pela oposição, o presidente decidiu dissolver o Congresso. O gesto autoritário desencadeou uma grave crise. Setores da Marinha ameaçaram bombardear o Rio de Janeiro caso a legalidade constitucional não fosse restabelecida. O país aproximava-se de uma guerra civil.
Sem apoio suficiente para enfrentar a revolta e temendo o derramamento de sangue, Deodoro renunciou em 23 de novembro de 1891. Seu governo constitucional havia durado menos de um ano.
O marechal retirou-se da vida pública e morreu em agosto de 1892, apenas nove meses depois de deixar a Presidência. Tinha 65 anos.
Sua trajetória terminou marcada por uma profunda ironia. Deodoro tornou-se símbolo de um regime no qual não confiava, derrubou um imperador que respeitava e assumiu a liderança de um movimento cujas consequências talvez não tivesse compreendido inteiramente.
Não há consenso entre os historiadores de que tenha vivido seus últimos meses consumido pelo arrependimento, como algumas narrativas populares afirmam. Existem, contudo, relatos de sua decepção com os rumos do novo regime e de seu desconforto diante da crise política que ajudara a desencadear.
A frase escrita antes da queda do Império permanece, por isso, como uma espécie de profecia pessoal. Deodoro temia que o Brasil não estivesse preparado para a República. Pouco depois, tornou-se seu primeiro presidente, fechou o Congresso e renunciou para impedir que as Forças Armadas entrassem em confronto.
O homem que ajudou a acabar com a monarquia terminou vencido pelo regime que colocou no lugar dela.