Poucas perguntas da história da tecnologia provocam respostas tão diferentes quanto esta: quem inventou o avião? Para grande parte do mundo, especialmente nos Estados Unidos, os responsáveis foram os irmãos Orville e Wilbur Wright, que teriam realizado o primeiro voo de uma máquina motorizada e controlável em 17 de dezembro de 1903. No Brasil, porém, milhões de pessoas aprenderam que o verdadeiro Pai da Aviação foi Alberto Santos Dumont, autor do histórico voo do 14-bis em Paris, no dia 23 de outubro de 1906.
À primeira vista, bastaria comparar as datas. Se os irmãos Wright voaram em 1903 e Santos Dumont somente em 1906, a questão pareceria resolvida. A controvérsia, entretanto, surge porque os dois acontecimentos ocorreram em condições muito diferentes e porque não existe uma definição universalmente aceita sobre quais requisitos uma máquina deveria cumprir para que seu desempenho fosse considerado o primeiro voo verdadeiro de um avião.
Os irmãos Wright eram mecânicos de bicicletas em Dayton, no estado norte-americano de Ohio. Fascinados pelo problema do voo, realizaram experiências com planadores, construíram um pequeno túnel de vento e estudaram cuidadosamente a forma das asas e o controle da aeronave. Sua principal contribuição não foi apenas colocar um motor em uma estrutura com asas, mas desenvolver um sistema que permitia ao piloto controlar o aparelho nos três eixos fundamentais do voo.
No dia 17 de dezembro de 1903, nas dunas de Kill Devil Hills, perto de Kitty Hawk, na Carolina do Norte, Orville Wright pilotou o Flyer durante aproximadamente doze segundos, percorrendo cerca de 36 metros. Outros três voos foram realizados naquele mesmo dia, e o último deles, conduzido por Wilbur, permaneceu no ar por 59 segundos e percorreu aproximadamente 260 metros. O Smithsonian National Air and Space Museum considera esse episódio o primeiro voo motorizado e controlado de uma máquina mais pesada que o ar. (Museu Nacional do Ar e do Espaço)
O Flyer possuía motor próprio e hélices, mas não utilizava rodas. A aeronave deslizava sobre um pequeno carro colocado em um trilho de lançamento, enquanto um vento forte contribuía para que alcançasse a sustentação necessária. Ao contrário do que muitas vezes se afirma, os voos de 17 de dezembro de 1903 não utilizaram uma catapulta. Esse equipamento seria desenvolvido pelos irmãos e empregado somente a partir de setembro de 1904, quando passaram a realizar experiências em uma área com ventos menos favoráveis. (Wright Brothers)
Essa distinção é importante porque um dos argumentos mais repetidos contra os Wright afirma que o Flyer teria sido arremessado ao ar por uma catapulta desde o primeiro voo. A afirmação não corresponde ao que aconteceu em Kitty Hawk. Ainda assim, é correto dizer que a aeronave dependia de um trilho e de condições favoráveis de vento, não decolando de maneira semelhante aos aviões modernos.
Outro elemento que alimentou as dúvidas foi a discrição dos irmãos Wright. Preocupados com o registro de patentes e com a possibilidade de terem suas ideias copiadas, eles evitaram revelar todos os detalhes de suas experiências. O voo de 1903 foi acompanhado por apenas algumas testemunhas e registrado em uma fotografia, mas não ocorreu diante de uma comissão aeronáutica, de especialistas independentes ou de uma grande multidão.
Nos anos seguintes, os Wright aperfeiçoaram rapidamente suas aeronaves. Em 1904, conseguiram realizar curvas completas, e, em 1905, o Wright Flyer III já era capaz de permanecer no ar por vários minutos, realizar círculos e percorrer quilômetros. Essas experiências demonstraram que os irmãos haviam criado uma máquina controlável e não apenas realizado um salto breve e acidental.
Enquanto isso, em Paris, Alberto Santos Dumont já era uma celebridade internacional. Nascido em Minas Gerais, ele havia se tornado famoso por seus balões e dirigíveis. Em 1901, conquistou o Prêmio Deutsch ao contornar a Torre Eiffel com seu dirigível número 6 e retornar ao ponto de partida dentro do tempo estabelecido. Seu trabalho era acompanhado de perto pela imprensa, pelos especialistas e pelo público francês.
Santos Dumont acreditava que as invenções deveriam ser compartilhadas. Não procurava esconder suas máquinas e permitia que seus projetos fossem observados e fotografados. Em vez de realizar experiências secretas, transformava cada tentativa em um acontecimento público. Essa atitude ajudou a criar uma imagem muito diferente daquela associada aos irmãos Wright.
Em 23 de outubro de 1906, no Campo de Bagatelle, em Paris, Santos Dumont colocou o 14-bis em movimento diante de uma multidão. A aeronave correu pelo terreno utilizando suas próprias rodas, deixou o solo e percorreu aproximadamente 60 metros. O voo foi observado e reconhecido por representantes do Aeroclube da França.
Poucas semanas depois, em 12 de novembro, o brasileiro realizou uma demonstração ainda mais impressionante. O 14-bis percorreu 220 metros em 21,5 segundos, atingindo uma altura aproximada de seis metros. O desempenho estabeleceu um dos primeiros recordes oficialmente reconhecidos pela Federação Aeronáutica Internacional. A própria entidade descreve o acontecimento como o primeiro voo oficialmente observado na Europa com distância superior a 25 metros. (fai.org)
A importância do 14-bis estava no fato de que a máquina decolava utilizando apenas o próprio motor, correndo sobre rodas em terreno plano e sem o auxílio de trilhos, catapultas ou dispositivos externos. Para os defensores de Santos Dumont, esse é o ponto decisivo: um avião verdadeiro precisa conseguir sair do chão por seus próprios meios.
Foi assim que surgiram duas maneiras diferentes de responder à mesma pergunta.
Para os defensores dos irmãos Wright, o elemento essencial é a capacidade de realizar um voo motorizado, sustentado e controlado. Segundo esse critério, os norte-americanos resolveram o problema em 1903, três anos antes de Santos Dumont. O Flyer possuía motor, hélices, superfícies de controle e um piloto capaz de dirigir a aeronave durante o voo.
Para os defensores de Santos Dumont, o primeiro avião deveria decolar publicamente por seus próprios meios, diante de testemunhas independentes e de acordo com regras previamente estabelecidas. Segundo esse critério, o 14-bis realizou, em 1906, o primeiro voo oficialmente reconhecido de uma aeronave mais pesada que o ar capaz de deixar o solo sem assistência externa. O Museu Aeroespacial brasileiro apresenta o 14-bis como o primeiro avião mais pesado que o ar a decolar por seus próprios meios. (FAB)
Também existe uma diferença entre inventar uma máquina funcional e apresentar publicamente uma tecnologia de maneira incontestável. Os Wright alcançaram resultados anteriores e tecnicamente avançados, mas trabalharam durante anos com grande reserva. Santos Dumont realizou sua conquista diante de especialistas, jornalistas e espectadores, oferecendo ao público uma demonstração que podia ser imediatamente verificada.
A controvérsia também foi fortalecida pelo nacionalismo. Nos Estados Unidos, os irmãos Wright se transformaram em símbolos da inventividade e do espírito empreendedor do país. No Brasil, Santos Dumont representa a criatividade brasileira e a capacidade de um inventor latino-americano ocupar posição central em uma das maiores transformações tecnológicas da humanidade.
A maior parte dos historiadores internacionais da aviação atribui aos irmãos Wright o primeiro voo motorizado, sustentado e controlado de uma aeronave mais pesada que o ar. Isso não significa, contudo, que Santos Dumont tenha sido apenas um personagem secundário ou que sua contribuição possa ser ignorada. O voo do 14-bis foi um marco público, documentado e oficialmente reconhecido, além de ter exercido enorme influência sobre o desenvolvimento da aviação na Europa.
Talvez o maior erro seja imaginar que o avião surgiu de uma única ideia, criada em um único dia por uma única pessoa. Antes de Santos Dumont e dos Wright, inventores como George Cayley, Otto Lilienthal, Octave Chanute e Clément Ader já haviam contribuído com conhecimentos sobre aerodinâmica, planadores, motores e estruturas. A conquista do voo foi o resultado de décadas de experimentação, fracassos e descobertas acumuladas.
Os irmãos Wright demonstraram que uma máquina motorizada mais pesada que o ar podia permanecer em voo e ser controlada. Santos Dumont mostrou essa possibilidade abertamente ao mundo, decolando diante do público com uma aeronave que utilizava seus próprios meios.
A resposta mais justa, portanto, depende da pergunta que fazemos. Quem realizou primeiro um voo motorizado e controlado? As evidências favorecem os irmãos Wright. Quem realizou o primeiro voo público, oficialmente registrado e com decolagem autônoma diante de uma comissão? Nesse caso, o mérito pertence a Alberto Santos Dumont.
A disputa talvez nunca desapareça, pois envolve diferentes critérios, tradições históricas e sentimentos nacionais. O que permanece indiscutível é que tanto os irmãos Wright quanto Santos Dumont tiveram papéis fundamentais na transformação de um antigo sonho humano em realidade. Em vez de reduzir essa história à escolha de um único vencedor, podemos reconhecer que a aviação nasceu do trabalho de vários pioneiros e que, entre todos eles, Santos Dumont e os irmãos Wright ocupam lugares que dificilmente poderão ser substituídos.