Em uma grande cidade, é possível morar durante anos a poucos metros de alguém sem saber quase nada sobre essa pessoa. Vizinhos dividem elevadores, corredores, garagens e paredes, mas muitas vezes não conhecem sequer os nomes uns dos outros. A proximidade física, curiosamente, não garante proximidade humana.

Em 2009, um edifício localizado no bairro do Brooklin, em São Paulo, chamou a atenção por tentar mudar essa realidade. Chamado Companhia dos Amigos, o condomínio foi concebido para favorecer a convivência entre os moradores e recuperar um pouco do espírito das antigas vilas, onde as pessoas conversavam à porta de casa, visitavam os vizinhos e sabiam a quem recorrer quando precisavam de ajuda.

O prédio tinha 22 apartamentos de aproximadamente 104 metros quadrados. Seu maior diferencial, porém, não estava no tamanho das unidades, no acabamento ou nas comodidades normalmente usadas para vender imóveis. O que realmente tornava aquele endereço especial era uma engenhoca instalada nos apartamentos e batizada de “termômetro da amizade”.

O equipamento funcionava como uma espécie de semáforo. Quando o morador acionava a luz verde, informava aos vizinhos que estava disponível para receber uma visita. A luz amarela indicava que, naquele momento, preferia não ser incomodado. A vermelha significava que alguma coisa poderia estar errada e que a pessoa talvez precisasse de ajuda.

Era uma solução muito simples para uma dificuldade bastante comum: como saber se o vizinho deseja conversar sem invadir sua privacidade? Muitas vezes, deixamos de bater à porta de alguém porque tememos incomodar. Em outras ocasiões, a pessoa gostaria de receber companhia, mas não se sente à vontade para convidar ninguém. O termômetro eliminava parte desse constrangimento ao permitir que cada morador comunicasse sua disposição de maneira clara.

Certa vez, durante uma mudança, um móvel esbarrou acidentalmente no botão vermelho de um dos apartamentos. Em poucos minutos, vários vizinhos telefonaram pelo interfone para perguntar se estava tudo bem. O episódio mostrou que o aparelho não era apenas uma curiosidade decorativa. Os moradores realmente observavam os sinais e estavam dispostos a cuidar uns dos outros.

A proposta do condomínio também aparecia em outros detalhes. Ao comprar uma unidade, cada proprietário era convidado a fornecer duas receitas de família, uma salgada e outra doce. As receitas seriam reunidas em um livro de culinária do próprio edifício. Assim, antes mesmo de conhecer todos os vizinhos, cada novo morador já compartilhava um pouco de sua história, de suas lembranças e de suas tradições familiares.

As áreas comuns também foram organizadas com a participação dos condôminos. Havia uma cozinha comunitária e um espaço de convivência equipados com objetos doados pelos próprios moradores. Sofás, estantes, louças e outros utensílios que já não cabiam nos apartamentos ganharam uma nova utilidade e ajudaram a criar ambientes que pertenciam a todos.

A colaboração não se limitava aos objetos. Um dos moradores começou a oferecer aulas gratuitas de italiano nas manhãs de domingo. Outros compartilhavam conhecimentos, experiências ou simplesmente algumas horas de conversa. A ideia era que cada pessoa pudesse contribuir para a comunidade com aquilo que sabia fazer.

Em vez de uma portaria convencional, o prédio contava com um casal de caseiros. O marido cuidava da manutenção, enquanto a esposa tomava conta da horta e preparava pães, tortas, bolos e outras comidas para os moradores. Em certa ocasião, ela deixou um vaso de flores na porta de um vizinho que acabara de retornar de viagem. Pequenos gestos como esse ajudavam a transformar o edifício em algo maior do que uma coleção de apartamentos.

A maior parte dos proprietários tinha mais de 40 anos, e alguns haviam escolhido aquele endereço justamente porque desejavam ampliar seu círculo de amizades. Para pessoas que moravam sozinhas ou estavam envelhecendo, a possibilidade de contar com uma rede de apoio próxima representava uma importante melhoria na qualidade de vida.

O Companhia dos Amigos levantava uma questão que continua atual: por que nossos edifícios são planejados com tanta atenção para os automóveis, para a segurança e para o lazer, mas raramente levam em consideração a amizade? Existem salões de festas, piscinas, academias, garagens e elevadores privativos. Ainda assim, esses recursos nem sempre ajudam os moradores a criar vínculos verdadeiros.

Naturalmente, viver em comunidade não significa abrir mão da privacidade. Havia momentos em que o morador desejava conversar e ocasiões em que preferia ficar sozinho. Por isso, o termômetro da amizade oferecia três possibilidades. Cada pessoa continuava no controle de seu espaço e de seu tempo. A diferença era que podia comunicar sua escolha aos demais.

Talvez essa seja a parte mais interessante da experiência. O projeto não obrigava ninguém a ser sociável o tempo todo. Ele apenas criava oportunidades para que os encontros acontecessem. A arquitetura, os espaços compartilhados e o pequeno semáforo tornavam mais fácil aquilo que, em muitos prédios, depende inteiramente do acaso.

Não se sabe quantos projetos semelhantes surgiram depois daquela experiência. O termômetro da amizade também poderia ser substituído hoje por um aplicativo ou grupo de mensagens. Entretanto, a tecnologia mais moderna não resolveria sozinha o problema da solidão. O que fazia o sistema funcionar era a disposição dos moradores de observar a luz, telefonar, bater à porta e oferecer ajuda.

Uma luz verde não criava uma amizade automaticamente. Ela apenas dizia: “Estou aqui e você pode entrar”. Para que algo acontecesse, outra pessoa precisava ver o sinal e decidir se aproximar.

Em uma época em que estamos permanentemente conectados a pessoas distantes e, muitas vezes, separados de quem mora ao nosso lado, a história do Companhia dos Amigos permanece inspiradora. Ela mostra que os prédios podem ser planejados para aproximar pessoas e que uma comunidade pode começar com algo tão simples quanto uma receita compartilhada, uma aula oferecida gratuitamente, um vaso de flores deixado diante de uma porta ou uma pequena luz verde acesa na parede.

FontePrédio no Brooklin é projetado para enturmar moradores

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