No final do século XIX, uma perigosa teoria encontrava espaço nas universidades, nos hospitais e entre alguns dos intelectuais mais influentes do Brasil. Segundo seus defensores, a população negra e a miscigenação seriam responsáveis pela degeneração física e mental do país. Foi nesse ambiente dominado pelo racismo científico que um médico negro, nascido em uma família pobre de Salvador, ergueu-se para contestar tais ideias e transformar profundamente a psiquiatria brasileira. Seu nome era Juliano Moreira.

Juliano Moreira nasceu em 6 de janeiro de 1872, na antiga Freguesia da Sé, região central de Salvador. Algumas fontes antigas registram o ano de 1873, mas estudos biográficos e instituições ligadas à sua memória adotam 1872. Era filho de Galdina Joaquina do Amaral, uma mulher negra que trabalhava como doméstica na residência do médico e professor Luís Adriano Alves de Lima Gordilho, o Barão de Itapuã. Seu pai era Manoel do Carmo Moreira Júnior, português e funcionário público, que trabalhava como inspetor de iluminação. Juliano foi criado inicialmente pela mãe e somente reconhecido oficialmente pelo pai depois da morte dela, ocorrida quando ele tinha aproximadamente 13 anos.

O Barão de Itapuã, seu padrinho, percebeu a inteligência excepcional do menino e o ajudou a prosseguir nos estudos. Juliano ingressou ainda muito jovem na Faculdade de Medicina da Bahia, uma das mais importantes instituições científicas do país. A precocidade de sua formação causa algumas divergências nas fontes, mas é certo que concluiu o curso em 1891, com apenas 19 anos, defendendo a tese *Sífilis maligna precoce*. Em uma sociedade que havia abolido oficialmente a escravidão somente três anos antes, ver um jovem negro e de origem humilde tornar-se médico era algo extraordinário.

Sua competência, entretanto, não o livrou do preconceito. Ao concorrer a uma vaga para lecionar na Faculdade de Medicina da Bahia, enfrentou resistências motivadas tanto por sua juventude quanto pela cor de sua pele. Mesmo assim, foi aprovado em primeiro lugar no concurso realizado em 1896, tornando-se professor da instituição. Dedicou-se ao estudo das doenças nervosas e mentais, da dermatologia, da sífilis e das enfermidades infecciosas. Também esteve entre os primeiros pesquisadores a estudar a leishmaniose cutâneo-mucosa no Brasil.

Entre 1895 e 1902, realizou viagens de estudo pela Alemanha, França, Inglaterra, Escócia e Itália. Visitou clínicas e hospitais, frequentou cursos e manteve contato com importantes pesquisadores europeus. Essas experiências permitiram que conhecesse novas concepções sobre as doenças mentais. Juliano compreendeu que a psiquiatria deveria se afastar das explicações baseadas em preconceitos raciais e aproximar-se da observação clínica, da ciência e das condições reais de vida de cada paciente.

Em 1903, transferiu-se para o Rio de Janeiro e assumiu a direção do Hospício Nacional de Alienados, cargo que ocupou até 1930. Naquela época, os chamados hospícios frequentemente se pareciam mais com prisões do que com hospitais. Os internos podiam ser mantidos atrás de grades, submetidos a castigos e tratados como pessoas perigosas, incapazes de possuir sentimentos ou dignidade. Juliano Moreira iniciou uma ampla reforma no atendimento. Mandou retirar grades, aboliu o uso desnecessário de camisas de força, condenou os castigos físicos e procurou substituir a lógica da punição pela do cuidado.

O médico também defendeu a criação de laboratórios, oficinas de trabalho e espaços destinados à recuperação dos pacientes. Incentivou a formação dos profissionais, o acompanhamento clínico e a observação individual de cada caso. Para ele, a pessoa internada não deveria ser reduzida à sua doença. Era um ser humano que precisava ser ouvido, tratado e respeitado. Essa visão, hoje aparentemente elementar, representava uma mudança profunda diante das práticas adotadas nos hospitais psiquiátricos daquele período.

Outra parte fundamental de sua obra foi o combate à associação entre raça e doença mental. Alguns médicos afirmavam que a miscigenação produzia indivíduos degenerados e que a população negra possuía uma tendência natural à criminalidade, ao atraso e à loucura. Juliano Moreira rejeitou essas conclusões. Em seus estudos e pronunciamentos, argumentou que os transtornos mentais estavam relacionados a fatores biológicos, sociais e ambientais, entre eles doenças, alcoolismo, condições sanitárias precárias, pobreza e falta de acesso à educação. A cor da pele e a mistura entre diferentes populações não eram causas da doença mental.

Sua posição possuía uma força especial porque vinha de um cientista negro que conhecia pessoalmente os efeitos do preconceito. Juliano não fez de sua origem apenas um elemento de sua história particular. Utilizou a autoridade conquistada pela competência para desafiar uma estrutura científica que tentava apresentar o racismo como verdade médica. Sua trajetória demonstrava, por si mesma, a falsidade das teorias que associavam a população negra à inferioridade intelectual.

Juliano Moreira também teve papel decisivo na organização da psiquiatria como área científica no Brasil. Participou da criação de publicações especializadas e da fundação, em 1907, da Sociedade Brasileira de Neurologia, Psiquiatria e Medicina Legal. Recebeu estudantes no Hospício Nacional, ajudou a formar novos profissionais e representou o Brasil em congressos internacionais. Em 1917, ingressou na Academia Brasileira de Ciências, instituição que presidiu entre 1926 e 1929. Foi ainda um dos primeiros professores brasileiros a apresentar as ideias de Sigmund Freud no ensino médico, contribuindo para a introdução da psicanálise no país. Sua importância para a medicina é reconhecida pela Academia Nacional de Medicina e por estudos publicados na Revista Brasileira de Psiquiatria.

Sua vida pessoal foi marcada pela luta contra a tuberculose, doença que o acompanhou durante muitos anos e motivou algumas de suas viagens ao exterior. Durante um período de tratamento no Egito, conheceu Augusta Peick, uma enfermeira alemã nascida em Hamburgo. Os dois se casaram no início da década de 1910 e vieram morar no Brasil. Augusta tornou-se sua companheira por toda a vida e prestou-lhe auxílio durante os períodos em que sua saúde se agravou. O casal não teve filhos.

Embora tenha sido um opositor firme das explicações raciais para as doenças mentais, Juliano Moreira não esteve completamente afastado de algumas ideias controversas de seu tempo. Como outros cientistas do início do século XX, participou de debates ligados à eugenia e chegou a admitir medidas atualmente consideradas inaceitáveis, como a esterilização de determinados grupos. Reconhecer essa contradição não diminui a importância de seu combate ao racismo científico, mas ajuda a compreender que grandes personalidades também carregam marcas e limitações da época em que viveram.

Após a Revolução de 1930, Juliano foi afastado da direção do Hospício Nacional. Já debilitado pela tuberculose, retirou-se gradualmente da vida pública, embora continuasse acompanhando alguns pacientes e participando de reuniões científicas sempre que sua saúde permitia. Morreu em 2 de maio de 1933, em um sanatório na região de Correias, em Petrópolis, aos 61 anos.

Juliano Moreira deixou como legado uma transformação que ultrapassou os limites dos hospitais. Demonstrou que a medicina deveria se apoiar em evidências e na observação dos pacientes, e não em preconceitos apresentados como ciência. Defendeu que pessoas com transtornos mentais mereciam tratamento, respeito e dignidade. Em um país que ainda dificultava o acesso da população negra às universidades e aos espaços de poder, tornou-se professor, pesquisador, diretor de uma importante instituição e presidente da Academia Brasileira de Ciências.

Sua história é a de um menino negro e pobre de Salvador que venceu barreiras extraordinárias e se tornou um dos maiores médicos brasileiros. Mais de um século depois de suas reformas, seu exemplo permanece atual. Juliano Moreira mostrou que a verdadeira ciência não serve para justificar preconceitos. Ela deve ajudar a combatê-los e, acima de tudo, deve estar a serviço da dignidade humana.

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