Categoria: Histórias (Page 67 of 111)

Desiderata

Vá placidamente por entre o barulho e a pressa e lembre-se da paz que pode haver no silêncio. Tanto quanto possível, sem capitular, esteja de bem com todas as pessoas. Fale a sua verdade calma e claramente; e escute os outros, mesmo os estúpidos e ignorantes; também eles têm a sua história. Evite as pessoas barulhentas e agressivas. Elas são tormento para o espírito. Se você se comparar a outros, pode tornar-se vaidoso e amargo; porque sempre haverá pessoas superiores e inferiores a você.

Desfrute suas conquistas assim como seus planos. Mantenha-se interessado em sua própria carreira, mesmo que humilde; é o que realmente se possui na sorte incerta dos tempos. Exercite a cautela nos negócios; porque o mundo é cheio de artifícios. Mas não deixe que isso o torne cego à virtude que existe; muitas pessoas lutam por altos ideais; e por toda à parte a vida é cheia de heroísmo. Seja você mesmo. Principalmente não finja afeição, nem seja cínico sobre o amor, porque em face de toda aridez e desencantamento ele é perene como a grama. Aceite gentilmente o conselho dos anos, renunciando com benevolência às coisas da juventude.

Cultive a força do espírito para proteger-se num infortúnio inesperado.

Mas não desgaste com temores imaginários. Muitos medos nascem da fadiga e da solidão. Acima de uma benéfica disciplina, seja bondoso consigo mesmo.

Você é filho do Universo não menos que as árvores e as estrelas.

Você tem o direito de estar aqui. E, quer seja claro ou não pra você, sem dúvida o Universo se desenrola como deveria. Portanto, esteja em paz com Deus, qualquer que seja sua forma de concebe-lo, e, seja qual for a sua lida e suas aspirações, na barulhenta confusão da vida, mantenha-se em paz com sua alma. Com todos os enganos, penas e sonhos desfeitos, este é ainda um mundo maravilhoso. Esteja atento.

*do latim desideratu: Aquilo que se deseja, aspiração. (Esse texto foi encontrado na velha igreja Saint Paul, Baltimore, datado de 1692)

Desencanto

Manuel Bandeira

Eu faço versos como quem chora
De desalento… de desencanto…
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente…
Tristeza esparsa… remorso vão…
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca,
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

Eu faço versos como quem morre.

Desejo

Victor Hugo

Desejo primeiro, que você ame, e que amando, também seja amado. E que, se não for, seja breve em esquecer e esquecendo não guarde mágoa. Desejo pois, que não seja assim, mas se for, saiba ser sem desesperar.

Desejo também que tenha amigos, que, mesmo maus e inconseqüentes, sejam corajosos e fiéis, e que em pelo menos um deles você possa confiar sem duvidar. E porque a vida é assim, desejo ainda que você tenha inimigos; nem muitos, nem poucos, mas na medida exata para que, algumas vezes, você se interpele a respeito de suas próprias certezas. E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo, para que você não se sinta demasiado seguro.

Desejo depois que você seja útil, mas não insubstituível. E que nos maus momentos, quando não restar mais nada, essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.

Desejo ainda que você seja tolerante; não com os que erram pouco, porque isso é fácil, mas com os que erram muito e irremediavelmente, e que fazendo bom uso dessa tolerância, você sirva de exemplo aos outros.

Desejo que você, sendo jovem, não amadureça depressa demais, e que sendo maduro, não insista em rejuvenescer e que sendo velho não se dedique ao desespero. Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e é preciso deixar que elas escorram por entre nós.

Desejo por sinal que você seja triste; não o ano todo, mas apenas um dia. Mas que nesse dia descubra que o riso diário é bom; o riso habitual é insosso e o riso constante é insano.

Desejo que você descubra, com o máximo de urgência, acima e a despeito de tudo, que existem oprimidos, injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.

Desejo ainda que você afague um gato, alimente um cuco e ouça o João-de-Barro erguer triunfante o seu canto matinal; porque assim, você se sentirá bem por nada.

Desejo também que você plante uma semente, por mais minúscula que seja, e acompanhe o seu crescimento, para que você saiba de quantas muitas vidas é feita uma árvore.

Desejo outrossim, que você tenha dinheiro, porque é preciso ser prático. E que pelo menos uma vez por ano, coloque um pouco dele na sua frente e diga “Isso é meu”. Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.

Desejo também que nenhum dos seus afetos morra, por ele e por você, mas que se morrer, você possa chorar sem se lamentar e sofrer sem se culpar.

Desejo por fim que você sendo um homem, tenha uma boa mulher, e que sendo uma mulher, tenha um bom homem e que se amem hoje, amanhã e no dia seguinte, e, quando estiverem exaustos e sorridentes, ainda haja amor para recomeçar.

E se tudo isso acontecer, não tenho nada mais a desejar-lhe.

M a r t h a
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Descubra o Amor

Mahatma Gandhi

Pegue um sorriso
e doe-o a quem jamais o teve.

Pegue um raio de sol
e faça-o voar lá onde reina a noite.

Descubra uma fonte
e faça banhar-se quem vive no lodo.

Pegue uma lágrima
e ponha-a no rosto de quem jamais chorou.

Pegue a coragem
e ponha-a no ânimo de quem não sabe lutar.

Descubra a vida
e narre-a quem não sabe entendê-la.

Pegue a esperança
e viva na sua luz.

Pegue a bondade
e doe-a a quem não sabe doar.

Descubra o amor
e faça-o conhecer o mundo.

De Repente

Vinícius de Morais

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Depende de Mim

Hoje levantei cedo pensando no que tenho a fazer antes que o relógio marque meia noite. É minha função escolher que tipo de dia vou ter hoje.

Posso reclamar porque está chovendo ou agradecer às águas por lavarem a poluição.

Posso ficar triste por não ter dinheiro ou me sentir encorajado para administrar minhas finanças, evitando o desperdício.

Posso reclamar sobre minha saúde ou dar graças por estar vivo.

Posso me queixar dos meus pais por não terem me dado tudo o que eu queria ou posso ser grato por ter nascido.

Posso reclamar por ter que ir trabalhar ou agradecer por ter trabalho.

Posso sentir tédio com o trabalho doméstico ou agradecer a Deus.

Posso lamentar decepções com amigos ou me entusiasmar com a possibilidade de fazer novas amizades.

Se as coisas não saíram como planejei posso ficar feliz por ter hoje para recomeçar. O dia está à minha frente esperando para ser o que eu quiser. E aqui estou eu, o escultor que pode dar forma. Tudo depende só de mim.

Deixe o Barro Secar

Certa vez uma menina ganhou um brinquedo no dia do seu aniversário.

Na manhã seguinte, uma amiguinha foi até sua casa para fazer-lhe companhia e brincar. Mas a menina não podia ficar com a amiga, pois tinha que sair com a mãe.

A amiga pediu que a menina a deixasse ficar brincando com seu brinquedo novo até que ela voltasse. Ela não gostou muito da idéia, mas por insistência da mãe, acabou concordando.

Quando retornou para casa, a amiguinha já não estava lá e tinha deixado o brinquedo fora da caixa, todo espalhado e quebrado.

Ela ficou muito brava e queria ir até à casa da amiga para brigar no mesmo instante.

Mas a mãe ponderou:

— Você se lembra daquela vez que um carro jogou lama no seu sapato? Ao chegar em casa você queria limpar imediatamente aquela sujeira, mas sua avó não deixou. Ela falou que você deveria primeiro deixar o barro secar. Depois, ficaria mais fácil limpar…

E prosseguiu dizendo:

— Com a raiva é a mesma coisa. Deixe a raiva secar primeiro, depois ficará bem mais fácil resolver tudo.

Mais tarde, a campainha tocou: era a amiga trazendo um brinquedo novo… Disse que não tinha sido culpa dela, e sim de um menino invejoso que, por maldade, havia quebrado o brinquedo quando ela brincava com ele no jardim.

E a menina respondeu:

— Não faz mal, minha raiva já secou!

Discussões no dia-a-dia, nos relacionamentos e no trabalho podem levar as pessoas a ter sentimentos de raiva. Segure seus ímpetos, deixe o barro secar para somente depois limpa-lo. Assim você não corre o risco de cometer injustiças.

Deixe a Raiva Secar!

Mariana ficou toda feliz porque ganhou de presente um joguinho de chá, todo azulzinho, com bolinhas amarelas.

No dia seguinte, Júlia sua amiguinha, veio bem cedo convidá-la para brincar.

Mariana não podia, pois iria sair com sua mãe naquela manhã.

Júlia então, pediu a coleguinha que lhe emprestasse o seu conjuntinho de chá para que ela pudesse brincar sozinha na garagem do prédio.

Mariana não queria emprestar, mas, com a insistência da amiga, resolveu ceder, fazendo questão de demonstrar todo o seu ciúme por aquele brinquedo tão especial.

Ao regressar do passeio, Mariana ficou chocada ao ver o seu conjuntinho de chá jogado no chão.

Faltavam algumas xícaras e a bandejinha estava toda quebrada.

Chorando e muito nervosa, Mariana desabafou :

Está vendo, mamãe, o que a Júlia fez comigo ?

Emprestei o meu brinquedo, ela estragou tudo e ainda deixou jogado no chão.

Totalmente descontrolada, Mariana queria, porque queria, ir ao apartamento de Júlia pedir explicações.

Mas a mãe, com muito carinho ponderou :

Filhinha, lembra daquele dia quando você saiu com seu vestido novo todo branquinho e um carro, passando, jogou lama em sua roupa ?

Ao chegar em casa você queria lavar imediatamente aquela sujeira, mas a vovó não deixou.

Você lembra o que a vovó falou ?

Ela falou que era para deixar o barro secar primeiro.

Depois ficava mais fácil limpar.

Pois é, minha filha, com a raiva é a mesma coisa.

Deixa a raiva secar primeiro.

Depois fica bem mais fácil resolver tudo.

Mariana não entendeu muito bem, mas resolveu seguir o conselho da mãe e foi para a sala ver televisão.

Logo depois alguém tocou a campainha.

Era Júlia, toda sem graça, com um embrulho na mão.

Sem que houvesse tempo para qualquer pergunta, ela foi falando :

Mariana, sabe aquele menino mau da outra rua que fica correndo atrás da gente ?

Ele veio querendo brincar comigo e eu não deixei.

Aí ele ficou bravo e estragou o brinquedo que você havia me emprestado.

Quando eu contei para a mamãe ela ficou preocupada e foi correndo comprar outro brinquedo igualzinho para você.

Espero que voce não fique com raiva de mim. Não foi minha culpa.

Não tem problema, disse Mariana, minha raiva já secou.

E dando um forte abraço em sua amiga, tomou-a pela mão e levou-a para o quarto para contar a história do vestido novo que havia sujado de barro.

Nunca tome qualquer atitude com raiva.

A raiva nos cega e impede que vejamos as coisas como elas realmente são.

Assim você evitará cometer injustiças e ganhará o respeito dos demais pela sua posição ponderada e correta diante de uma situação difícil.

Lembre-se sempre : Deixe a raiva secar !

Colaboração: Renato Antunes Oliveira

Deficiências

Mário Quintana

O verdadeiro analfabeto é aquele que sabe ler mas não lê.

Dupla delícia: o livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado.

A alma é essa coisa que nos pergunta se a alma existe.

Uma vida não basta ser apenas vivida: também precisa ser sonhada.

O segredo é não correr atrás das borboletas. É cuidar do jardim para que elas venham até você.

O amor só é lindo, quando encontramos alguém que nos transforme no melhor que podemos ser.

Tão bom morrer de amor e continuar vivendo.

A amizade é um amor que nunca morre.

Com o tempo, você vai percebendo que, para ser feliz, você precisa aprender a gostar de você, a cuidar de você e, principalmente, a gostar de quem também gosta de você.

Se me esqueceres, só uma coisa, esquece-me bem devagarinho.

“Deficiente” é aquele que não consegue modificar sua vida, aceitando as imposições de outras pessoas ou da sociedade em que vive, sem ter consciência de que é dono do seu destino.

“Louco” é quem não procura ser feliz com o que possui.

“Cego” é aquele que não vê seu próximo morrer de frio, de fome, de miséria, e só tem olhos para seus míseros problemas e pequenas dores.

“Surdo” é aquele que não tem tempo de ouvir um desabafo de um amigo, ou o apelo de um irmão. Pois está sempre apressado para o trabalho e quer garantir seus tostões no fim do mês.

“Mudo” é aquele que não consegue falar o que sente e se esconde por trás da máscara da hipocrisia.

“Paralítico” é quem não consegue andar na direção daqueles que precisam de sua ajuda.

“Diabético” é quem não consegue ser doce.

“Anão” é quem não sabe deixar o amor crescer.

E, finalmente, a pior das deficiências é ser miserável, pois: “Miseráveis” são todos os que não conseguem falar com Deus.

Mário Quintana (Alegrete, 30 de julho de 1906 – Porto Alegre, 5 de maio de 1994). Poeta, tradutor e jornalista brasileiro.

Decisão tomada no passado

Devan Manharlal

Muitas vezes culpamo-nos por ter tomado uma decisão errada no passado.

Uma decisão é tomada na base de informação que temos a nossa disposição e sob influência de outros factores que nos rodeiam naquele instante. Sendo assim, hoje podemos achar absurdo ou errada a decisão tomada no passado, mas não devemos esquecer que no momento em que foi tomada essa decisão os factores que influenciaram a mesma são diferentes dos fatores que temos hoje e que nos faz pensar o contrário. Assim, não devemo-nos culpar por uma decisão tomada no passado só porque hoje achamos que ela esta errada, E da mesma forma ao tomar uma decisão hoje, temos de admitir que esta decisão num momento diferente deste e com outros factores podia ser diferente. Mas claro neste momento e com os factores que temos a decisão certa é a que estamos a tomar.

Como escolher uma decisão perfeita? Esta pergunta se tivesse resposta todos estaríamos felizes na vida.

Como evitar que algum dia arrependemos da decisão tomada? É difícil controlar este sentimento, mas podemos evitar este tipo de pensamento de seguinte maneira:

Quando temos que tomar uma decisão quer dizer que temos duas ou mais opções e cada uma leva a caminhos diferentes. Ao escolher um caminho, tomamos uma decisão que naquele momento achamos certa e o que temos de fazer em diante é seguir o caminho escolhido e esquecer os outros caminhos possíveis. Na verdade o que faz nos arrepender da decisão tomada é: “se tivesse escolhido o outro caminho as coisas seriam diferentes”.

Este pensamento surge num momento diferente do momento em que tomamos a decisão e claro os factores que influenciaram nestes dois momentos são diferentes e, hoje a informação disponível é mais rica que ontem, no mínimo hoje sabemos onde nos leva o caminho escolhido mas ontem quando tínhamos que tomar a decisão não sabíamos onde os dois caminhos iam dar nem os obstáculos que podíamos encontrar. Por isso não é correcto culpar-nos por uma decisão tomada no passado.

“Os fatores que podem influenciar uma decisão são vários, podendo ser possibilidade financeira, laços familiares, tempo e recursos disponíveis, pressão sobre o momento, ambiente em que se vive, responsabilidade pessoais, desejos, sonhos, … cada um destes factores consegue influenciar directa ou indirectamente numa decisão.”

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